… Nós fundamos o Sindicato dos Artesãos de Florianópolis

 
 Em meio aos embates políticos pela posse da terra, na verdade, uma luta urbana pela moradia digna, nós tínhamos que nos organizar enquanto artesãos profissionais.      

Na Praça XV de Novembro no centro de Florianópolis existia desde os finais dos anos 60 uma feira de artesanato que surgira pelo uso freqüente dos artesãos daquele espaço público.

Ali também não era diferente de outras capitais.

Com o aumento do desemprego surgido durante à pós-ditadura, na verdade, desde o inicio do governo de José Sarney, as feiras de artesanatos existentes também iam inchando conforme esta tendência no país.

     A maioria dos artesãos que viviam na comunidade de Areias do Campeche trabalhava na feira de artesanato.

       E, comigo, a minha vida profissional também girava em torno do artesanato que eu produzia.

      Por conta disso, nossa luta se fazia em duas frentes, à profissional e a da moradia.

      Nesse sentido, juntamente com outros companheiros começamos a maturar a idéia de criar uma entidade que realmente congregasse a categoria em todos os sentidos.

      Este fato era em decorrência do que cotidianamente vinha ocorrendo no restante do país, ou seja, os espaços oficiais não eram suficientes para atender a demanda de novos profissionais do nosso segmento profissional.

       Na Praça XV de Novembro existia uma entidade que fora fundada em meados dos anos 80, sendo assim, era esta entidade que gerenciava de forma privada os interesses dos artesãos expositores naquele espaço.

      A prefeitura da cidade limitava o numero de artesãos que ali trabalhavam, e para nossa surpresa, a ASSOCIART XV (Associação dos Artesãos da Praça XV) atendia o pleito municipal e não lutava pela ampliação dos espaços para a categoria. Ali na praça havia a possibilidade de ampliação de mais ou menos uns 30% de artesãos.

 

 Os então dirigentes da Associart XV pensavam diferentes, de verdade mesmo, eles tinham uma preocupação fundamentada na concorrência que outros profissionais poderiam lhes submeter.

       Pensavam assim desde há muito tempo. Bastava chegar à temporada de verão que o circuito da feira fechava para visitantes, ou seja, o sujeito recém chegado recebia autorização para apenas três dias de trabalhos e nada mais.

       Muitos dos profissionais que ali trabalhavam, eram moradores na cidade a mais de três anos, e não tinham a oportunidade de se efetivarem naquele espaço público, gerenciado pela entidade em parceria com a prefeitura.

      Por conta disso, num grupo de artesãos decidimos pela criação e fundação do Sindicato dos Artesãos de Florianópolis. Convocamos a categoria e passamos a discutir e a elaborar o estatuto daquele que seria o sindicato da categoria.

 

 Eis que no dia 05 de abril daquele ano de 1989, em assembléia geral, ali mesmo na Praça XV de Novembro, nós fundamos o Sindicato dos Artesãos de Florianópolis (Sindart).

      A princípio pareceria que teríamos a unanimidade natural diante do acontecido histórico, mas estávamos enganados. O Sindicato dos Artesãos iria “mexer” com interesses particulares de funcionários públicos e de trabalhadores artesãos, que há anos freqüentavam e usufruíam de forma privada os benefícios públicos existentes em projetos direcionados ao fomento da nossa atividade.

      Contrariado com o que estava ocorrendo e o que havia “descoberto”, eu passei a buscar contatos na esfera estadual que coordenava o setor da nossa atividade.

      Era comum em várias partes do Brasil, e, acredito que em outras categorias também, que um grupo de artesãos mantinha a sete chaves as informações sobre vantagens e convênios existentes. De início éramos recebidos com uma aparente formalidade. Mais a frente…

      Depois de fazer alguns contatos com os coordenadores do setor estadual que gerenciavam os projetos e verbas voltadas ao fomento da categoria, eu comecei a “desatar um nó” que já era de conhecimento de muitos artesãos.

      Por muitos anos desde a Ditadura Militar, os artesãos viviam numa política de quase tutela ou assistencialismo do estado.

O Ministério do Trabalho havia reconhecido a categoria no ano de 1978, e estaria eternamente debatendo a regulamentação da profissão até os dias de hoje?

No Congresso nacional, tramitavam a alguns anos vários projetos que propunham esta regulamentação.

       Aqui no Estado de Santa Catarina não era diferente. A Fundação Catarinense do Trabalho (FUCAT) dispunha de verbas e projetos que fomentavam a atividade do segmento, que, incluía a participação de um seleto grupo de artesãos em eventos nacionais e estaduais.

       Com o surgimento do Sindicato, nós passamos a pleitear a participação igualitária de todos os artesãos nesses eventos que vinham acontecendo de forma “privada”, apenas para os seletos, “amigos da corte”.

      Como já é histórico, toda vez que os “privilegiados” são cutucados criam um alvoroço desproporcional aos fatos, neste caso também não foi diferente.

Os “ratos dos porões” ficaram alvoroçados com a nossa investida atrás de informações.

Toda vez que tocávamos no assunto sobre verbas as portas se fechavam. Afinal, até aquele momento não havia quem os fiscaliza-se, não era por menos…

       Nós descobrimos que a coordenação da unidade de artesanato utilizava parte do dinheiro que deveria ser aplicado no fomento da atividade para a compra de passagens de avião e hospedagens.

A alegação era de que os contatos eram mais rápidos e necessários para a organização dos eventos.

       Mas perai (sic), ir de Florianópolis a Curitiba de avião, de Florianópolis a Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro hospedando-se em hotéis acima de duas estrelas era uma necessidade do setor?

 Eu penso que sendo funcionários públicos, estes deveriam ter uma diária separada do orçamento destinado aos artesãos, ou seja, uma verba específica semelhante à de outras secretarias de estado.

      Conversamos internamente no Sindicato e chegamos à conclusão de que aquilo se caracterizava como uso abusivo do dinheiro destinado a categoria.

Na verdade aquilo se tornou uma fonte de mordomias para um grupo seleto de funcionários públicos que mantinham um grupo seleto de artesãos participando nos eventos.

       A possibilidade na emissão de notas fiscais frias ou majoradas era uma possibilidade concreta. Essa coincidência dos “mesmos” agentes participantes tinha o objetivo (assim entendíamos) de calar a boca de eventuais contestações.

       Por várias vezes tentamos nos aproximar da coordenação da Unidade de Artesanato da FUCAT e éramos rechaçados sumariamente como se fossemos verdadeiros intrusos.

 

 Eles criavam todos os tipos de dificuldades, desde o não reconhecimento do Sindicato, até a falta de legitimidade da nossa representatividade.

    

      Do ponto de vista legal, nossa entidade atendia todas as exigências jurídicas e a legislação pertinente ao setor, assim como CNPJ, registro no Ministério do Trabalho, Estatuto próprio, publicação de atas etc.

      Enfim, eles apenas não queriam que nós metêssemos o “bedelho” onde não éramos chamados

      Desde a fundação do Sindicato dos Artesãos, até aquela data, nós tínhamos sindicalizado cerca de 140 artesãos que viviam em Florianópolis. Isso não nos impedia de sindicalizarmos os integrantes de outras associações.

      Na verdade nosso projeto de fundação era dar legitimidade a categoria junto ao setor privado e estatal, de forma que fossemos regulamentados como uma categoria profissional. Algo diferente da condição de sermos apenas reconhecidos.

      Para a FUCAT, nosso critério não era aceito porque teríamos que nos submeter às provas de qualificação dentro do próprio órgão.

    

       Eis ai um dos fatores que tumultuaram por muitos anos os entendimentos e o relacionamento entre a categoria e o governo.

Desde os anos de 1970 na gestão de Arnaldo da Costa Prieto no Ministério do Trabalho, que o segmento era tutelado pelo estado.

       Algumas regras eram definidas pelos estados, mas isto não tirava a legitimidade da categoria em gerir as suas próprias regras que qualificavam o artesão para aquilo que realmente consideramos artesanato.

Do ponto de vista estatal, este entendimento é muito genérico tornando um produto qualquer, apenas feito com as mãos, como se fosse simplesmente artesanato.

      Algumas mudanças foram sendo efetivadas com a ascensão de Almir Pazzianoto no Ministério do Trabalho. Neste sentido, começamos a enxergar uma luz no final do túnel, era assim Brasil afora.

Essas pequenas mudanças levaram a categoria em nível de Brasil à possibilidade concreta de poder sonhar com a criação da UNA (União Nacional dos Artesãos).

      Imediatamente, nós do Sindicato dos Artesãos de Florianópolis aderimos àquela proposta.

       Na verdade, nossos critérios sempre levaram em conta a criatividade, os materiais utilizados e as técnicas de produção aliadas ao ambiente da produção.

Normalmente são matérias primas naturais, não caracterizando uma origem industrializada. O coletivo nacional de formação da UNA já vinha criando algumas diretrizes que aplicávamos nos estados.

       Para o governo, esses critérios poderiam não ser os mesmos. Enfim, tínhamos este embate nas origens de nossa atividade e precisávamos superá-los.

       Como comentei mais acima, a minha militância permitiu-me chegar sem dificuldades ao Superintendente da FUCAT que recentemente havia sido empossado.

       O Sergio Entre – Filhos, que era irmão do Vereador Otto Entre – Filhos/PMDB recebeu a diretoria do SINDART em uma audiência agendada com o objetivo de conhecer a entidade.

      Colocamos ao Superintendente os nossos projetos e as dificuldades que estávamos enfrentando em fazer valer os direitos dos demais artesãos (sindicalizados ou não), que não tinham a possibilidade de participar daqueles eventos programados por aquela fundação.

      Levamos ao conhecimento do novo Superintendente os empecilhos que um dos coordenadores da Unidade de Artesanato apresentava ao Sindicato quando pleiteávamos nossa participação.

 

 A alegação do coordenador de nome João Luis era de que já tinha gente demais participando.

      Mas eis que levantamos a lebre ao pesquisarmos na própria Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado o recebimento de uma verba no valor de 300 mil dólares.

      Esta verba foi doada por uma ONG que a coletava junto às empresas multinacionais alemãs para fomentar o intercambio através da qualificação e produção de artigos artesanais aqui no estado.

Nós investigamos e constatamos que uma quantia de mais de U$ 50 000 (cinqüenta mil dólares) foi utilizada apenas para a confecção de folders.

     Ora, o governo do estado já dispunha de uma política de divulgação de produtos do setor há vários anos.

      Outra parte do dinheiro foi utilizada para a formação de mão de obra que iria produzir juntamente com os profissionais existentes uma grande quantidade de chapéus mexicanos direcionados aquele país.

 O dinheiro (argumentaram) foi aplicado, mas a produção foi um fracasso.

      Na verdade mesmo, aquela “grana” tinha saído pelo ralo do peculato (sic). O total da quantia destinada foi totalmente diluído do nada para o nada, servindo apenas para o “deleite” dos administradores daquela doação.

       Na nossa avaliação, os valores destinados a categoria eram suficientes para a implantação de várias oficinas/escolas comunitárias espalhadas pelo estado que disponibilizariam o aprendizado e as matérias-prima de forma cooperativada para a categoria.

      Eu questionei algumas vezes o uso daquele dinheiro, e solicitei informações ao órgão do estado.

      O funcionário público João Luis (coordenador da Unidade) disse-me que a multinacional tinha exigido que a categoria fosse representada por uma entidade jurídica privada.

      Em Florianópolis havia várias entidades jurídicas legais da categoria, incluindo ai a própria ASSOCIART XV, a Associação dos Artesãos da Grande Florianópolis, a Associação dos Artesãos do Sul da Ilha, além de várias outras existentes pelo interior do Estado.

      Ora, por se tratar de uma fundação, a FUCAT que tinha CNPJ se apresentou como tal.

      Mais uma vez na minha vida eu tive que assistir a um ato de manipulação que retirava a legitimidade de um segmento social, de forma descarada, a serviço de interesses privados.

      Lembrei-me da ONG CAPROM que se tornara especializada neste quesito “social coletivo”.

      A prestação de contas estava ao encargo do coordenador da Unidade de Artesanato da Fundação que me disse: Nós prestamos as contas dentro daquilo que estava previsto na assinatura do compromisso com a ONG alemã.

       Aqueles fundos tinham o objetivo de tornarem-se um investimento nas áreas sociais dos países do terceiro mundo, neste caso, o Brasil era um deles.

      Ao tomar conhecimento dos fatos, o novo Superintendente da FUCAT afastou o funcionário João Carlos que coordenava a Unidade de Artesanato daquela fundação.

    No Sindicato, nós passamos a encaminhar os artesãos sindicalizados para que se submetessem aos testes exigidos pela FUCAT.

       Após o cumprimento das exigências do órgão, nós fomos convidados a participar dos eventos por tantas e quantas vezes fossem necessárias a demanda da categoria.

       Mesmo após esta conquista, nossa luta continuava de forma feroz nos bastidores da praça XV. Tínhamos de vencer algumas barreiras internas, e uma delas foi a de tentar trabalhar conjuntamente com a ASSOCIART XV a problemática da feira e, isso não foi possível por conta da relação umbilical de membros da associação com a Prefeitura.

       Toda vez que tentávamos discutir os problemas internos da feira, principalmente os relacionados ao aumento dos espaços, a entidade fechava fileiras com a fiscalização.

      Os critérios de acesso a feira eram definidos pela simpatia e não pelo direito de fato.

Na verdade aquilo ali era uma verdadeira “panelinha” e entravam na feira apenas os artesãos “amigos da corte”.

        Eu havia tentado inúmeras vezes fazer valer a presença do sindicato nas decisões referentes a aquele espaço, afinal, parte da diretoria da entidade era formada por artesãos trabalhadores da Praça XV.

  Mas quem disse que conseguiríamos facilmente? Eu pensava que isso seria possível, mas sinceramente, estava enganado. Nossa proposta na verdade, não era substituirmos a Associart XV, mas simplesmente abrir a feira para novos expositores.   

   Fizemos isso durante o ano de 1989 e 1990 sem muito sucesso, mas sinceramente, foi uma verdadeira “barra” que enfrentamos e, aquilo ali era um verdadeiro circuito fechado.

Eu me lembro que quando pleiteei o meu espaço, fui barrado por uma cara que era de Porto Alegre que fazia parte da Diretoria da feira.      

 O Carli não se lembrava de mim. Ele chegou pra mim e disse: Cara, isso aqui não é as Areias do Campeche, aqui em Florianópolis é diferente da tua terra!

      Pasme, eu conheci este cara quando ele usava aquelas calças jeans apertadas nos tornozelos que eram conhecidas como “cocotinhas”.

Eu disse pra ele: Carli, eu me lembro de ti lá na Rua da Praia em “Portinho” mexendo com as guriazinhas que passavam, e agora você vem com esse papo furado? Você não é de Floripa, eu me lembro de ti lá da Rua Orfanatrófio há muitos anos atrás, e tua família vive lá, te liga cara, ta me tirando? Comecei a rir e ele ficou me olhando sem jeito, e remendou dizendo que eu entraria na feira sem problemas.

       Minha entrada definitiva na Feira de Artes e Artesanato da Praça XV de Novembro ocorreu naquele ano de 1989.

Vale lembrar que antes disso, eu já tinha passado por Floripa e trabalhado naquele espaço ainda no ano 1976 quando de meu retorno da República Argentina. Naquela época não havia espaços demarcados.

Os artesãos hippies chegavam e armavam os seus “panos” no chão em baixo da figueira centenária sem nenhum problema.

      Nos anos 90 nós tivemos fortes embates iniciados na administração popular que eu ajudara a chegar ao poder.

Este assunto eu retomarei mais a frente durante minha narrativa na escala do tempo desse escrito biográfico       

 

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ONG CAIXA 2 OU PARTIDO POLITICO?

 
   
  Eu nunca vou esquecer o despejo que ocorreu em São Paulo na Vila Socialista de Diadema, durante um governo petista na cidade em dezembro de 1990.     

 

 Aquela comunidade foi um grande exemplo de organização e luta política. Jamais vou esquecer os acontecimentos durante aquele enfrentamento. O governo de São Paulo lançou cerca de 500 policiais militares do Batalhão de choque, da Rota, e de outras guarnições que selvagemmente avançou para cima dos moradores.

       O camarada Boni que era vereador eleito pelo PT da cidade, era o líder da resistência e fazia parte do Comitê Central do POR (Partido Operário Revolucionário) uma fração Trotskista (hoje no PSTU) que naquela época compunha a esquerda do partido de Lula.

      Nos enfrentamentos morreram dois moradores e houve vários feridos. Durante a resistência, o camarada Boni organizou a comunidade para aquilo que seria o dia fatídico para todos. Na expectativa de baixas foi construída uma enfermaria que armazenava medicamentos para pronto atendimento dos eventuais feridos.

      Foram produzidas várias armas rudimentares (Tacapes com pregos na ponta, bombas caseiras com massa Epox e pregos, estilingues, boleadeiras, facões e coquetéis molotov para a defesa da comunidade da Vila socialista. Estas armas caseiras tinham o objetivo de tentar retardar o avanço das tropas e proteger as moradias que tinha ordem de despejo e demolição emitida pela justiça paulista.

      Na estratégia de defesa, foram feitas três linhas de moradores. Na primeira os mais jovens que manuseariam as armas, na segunda linha os homens mais velhos, e na terceira e ultima linha ficaram as mulheres e as crianças.

      A policia militar entrou atirando com armas letais e não letais. Houve uma resistência feroz que culminou com dois mortos e vários feridos. Muitos foram presos, e a comunidade foi tomada pela policia troglodita do governo de São Paulo. O camarada Boni perdera nos enfrentamentos uma mão que fora decepada por um explosivo. Jamais vou esquecer que o prefeito da cidade de Diadema era do Partido dos Trabalhadores que se recusara a negociar com os moradores e solicitava a terra na justiça.

      Como poderíamos acreditar num partido que se utilizava da justiça burguesa para cometer tamanha injustiça contra os Trabalhadores e Sem Tetos? A demagogia de suas lideranças ficou gravada anos depois quando Lula havia dito numa entrevista: Entre o legal e o legítimo, eu fico com o legítimo. Esse discurso demagogo foi em alusão ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ao ocuparem áreas improdutivas.

 

Eis aí a demagogia que pavimenta os períodos pré-eleitorais.

…De fato, a história tem comprovado que a aliança petista com os setores ditos progressistas da Igreja Católica está a serviço do pensamento burguês.

      Este fato aconteceu no ano de 1989 ou 1990 se não estiver enganado. Naquele momento eu estava atento para os acontecimentos nacionais.

      Eu já tivera uma pequena experiência quando assessorei um grupo de moradores de uma comunidade de Cabo Frio durante uma das minhas passagens por aquela cidade. Tratava-se de uma ocupação que ocorrera na localidade de Baixo Grande, um pequeno bairro nos limites de Cabo-Frio e Búzios. Ali, um grupo de moradores estava enfrentando uma forte pressão da policia militar que pretendia ficar com a área.

     

      Não fiquei até o final, estava em fuga, mas das reuniões que participei, minhas propostas foram aceitas e colocadas em prática. Soube mais tarde que saíram vencedores. Uma dezena de famílias fechou um acordo e permaneceram na área. O processo de organização foi fundamental.

      Em Florianópolis nos acirrávamos as estratégias de luta em direção a uma possível vitória que culminasse com a desapropriação da área que ocupávamos na comunidade de Areias do Campeche. Os moradores sabiam que nem tudo que a família do Advogado Henrique Berenhausen exigia era de sua propriedade. Principalmente as áreas de dunas pertencentes à união e que também as reivindicava como suas em áreas contíguas.

        Na verdade, a área reclamada era de 254.000m² sendo que ocupávamos de fato apenas 30.000m². O processo ocorria numa das varas cíveis da Comarca da Capital desde o ano de 1984. Quando recebi a visita de oficiais de justiça que estava fazendo a notificação dos ocupantes não me preocupei, afinal, precisávamos criar uma pendenga jurídica para gerar uma negociação que culminasse ou não com a desapropriação das terras em questão. Esta possibilidade era a única alternativa que nos interessava.

       Era fácil imaginar que a ocupação não se daria de forma despercebida. Viviam ali mais de 70 famílias que totalizavam cerca de 350 moradores, isto em 1987. Havia muitas crianças. A comunidade era formada inicialmente por famílias de artesãos e de trabalhadores informais, a maioria realmente de migrantes. Mas ambos estavam ali sem nenhuma orquestração organizada.

       A área era completamente abandonada pelo poder público. Nós morávamos em casebres e barracos construídos com restos de madeiras da construção civil. A água nós tirávamos de poços feitos com ponteiras de plástico enrijecidos numa profundidade de pouco mais de 6 metros, em alguns casos.

       A água inicialmente era salobra, mas, com o tempo, aprendíamos a perfurar com mais profundidade melhorando a sua qualidade. A maioria das moradias não dispunha de banheiros ou fossas sépticas. Eu cheguei a morar mais de oito meses numa casa sem assoalhos, apenas em areia pura mesmo. Quando cheguei ali em 1987 não havia energia elétrica. Nossa iluminação era com velas ou lampiões a querosene ou a óleo de cozinha já utilizados embebidos em trapos de pano.

       Quando percebemos que ocupávamos apenas uma parte ínfima daquilo que nos acusavam, decidimos em assembléia de moradores que toda a área reclamada seria literalmente ocupada por famílias.  Seguindo no nosso processo de organização, eu passei a pesquisar junto aos órgãos públicos a estrutura fundiária do sul da ilha, mas, principalmente no Campeche. Ficou evidente que havia várias áreas tidas como privadas, mas que na realidade pertencia a união federal.

      No sul da ilha e principalmente no Campeche era visível este contraste pelo fato das áreas estarem junto daquelas tidas como de preservação permanente.

        Um pouco mais ao centro da praia do Campeche havia um bar que se estabelecera em cima das areias da orla, na verdade, parte no espaço utilizado por banhistas e outra na Área de Preservação Permanente pertencente à união federal. Este bar pertencia ao seu Chico que era o pai de um economista, funcionário do tribunal de contas do estado.

        Este cidadão fazia parte da diretoria da AMOCAN (Associação dos Moradores do Campeche), na verdade era o secretário da entidade. Durante muitos anos esta entidade lutava nos bastidores, (por vezes escapava na mídia) para que a prefeitura limpasse das dunas as moradias de baixa renda ali estabelecidas.

      Muitos nativos e pescadores haviam vendidos partes das áreas da união para os chamados “forasteiros” (aqueles que vinham de outros estados) e a posterior fechavam fileiras pedindo a sua retirada. Era como vender, tomar o dinheiro e após, pedir que o poder público tomasse as terras, agiam dessa forma, numa pressuposta preocupação com o meio ambiente.

       Numa reportagem feita pelo jornal local Diário Catarinense (do Grupo RBS de SC) O economista e funcionário do Tribunal de Contas do Estado, Lázaro Daniel, havia declarado que os ocupantes das dunas do Campeche deveriam ser retirados. O contraditório estava no fato de defender a permanência de seu pai que estava na mesma condição. Vale lembrar que o seu pai naquele ano, só estava começando naquela atividade.

      Recentemente (após 20 anos) o bar foi demolido por ordem judicial. A comunidade inteira fez pressão pra impedir. O Advogado que defendia a família era o mesmo que defendia a comunidade de Areias do Campeche. Pessoalmente acho que foi uma atitude desnecessária, já que desde aquela época ele tornara-se um ponto de encontro da juventude que periodicamente ali realizavam os Luaus.

      Comentários de moradores e do meio político davam conta de que o inicio da ação judicial fora promovida pela ex-prefeita Ângela Amim (gestão 1996/2000) que pretendia atingir o então vereador Lázaro Daniel PT (aquele que havia declarado em 1987 ao DC (Diário Catarinense), que era favorável a retirada dos moradores que ocupavam as dunas). Tal feito foi desconsiderado por ele e pelo CAPROM quando chamaram a atenção da cidade na ocupação de um ano após.

       Ajam contradições e oportunismo, na verdade, este fato se caracteriza como uma ação política para fins eleitorais planejados. Pretenderam e executaram aquele assentamento provisório, como uma espécie de lançamento da entidade como agentes políticos a serviço do PT. Sua plataforma seria na incursão política nos movimentos sociais com finalidades eleitorais.

      A estrutura financeira da entidade tinha parcelas do dinheiro público. Eis aí a imoralidade no achaque do erário para fins privados. No meu entendimento, os meios não justificam os fins, até porque, de ideologia do socialismo de classe, tudo não passava de um engodo.

      

      Essa organização privada propunha inicialmente uma ação assistencialista para a migração que afetava a cidade. Inicialmente agia desta forma e, para isso ocupava algumas salas que pertenciam ao estado. Seu quadro pessoal era formado por “voluntários”, Ongueiros carreirista, e funcionários cedidos pela prefeitura municipal.

     Quem não conhecia o CAPROM há mais tempo poderia ter a idéia de se tratar de um órgão municipal, tal qual a estrutura que ali era empregada. Na prática se tratava de uma ONG (Organização Não Governamental).

      Esta ONG era comandada pela professora Ivone Perassa (conhecida por irmã Ivone) e tinha como um dos seus apoiadores mais diretos o Padre Vilson Groh pároco da igreja situada no morro do Monte Serrat. De fato, as propostas eram muito boas, principalmente a referente ao resgate social dos migrantes, mesmo que paliativas frente ao estado de miséria que muitos viviam.

      A partir da inserção da ONG nos movimentos sociais, iniciados também pelo assentamento provisório de moradores de rua, outras iniciativas foram sendo desenvolvidas.

      Desde o nosso primeiro contato com esta entidade privada, eu tinha ficado com uma boa impressão. Aqueles que ali aportavam com dificuldades eram prontamente encaminhados para a solução dos seus problemas. Essa ajuda vinha principalmente na retirada de documentos, encaminhamento médico, passagens de ônibus pra retornarem para seu local de origem, cestas básicas, cobertores, e doação de roupas, também existia a possibilidade concreta de encaminhamentos para alguns tipos de empregos.

       O CAPROM funcionava como um órgão assistencialista de cunho político, que fazia a ponte entre o migrante necessitado e o poder público. Também mantinha uma relação umbilical com o Partido dos Trabalhadores e seus parlamentares. Isso também possibilitava a elaboração de políticas partidárias voltadas para a questão urbana. Os conflitos existentes em algumas comunidades da periferia e dos morros de Florianópolis passaram a ser de interesse da ONG que buscava se aproximar das lideranças desses locais.

      A partidarização da entidade ficou mais evidente quando decidiram fazer campanha para o Lula. No interior da sede da entidade havia algumas fotos de Lula na parede desde o ano de 1988, ou seja, um ano antes das eleições para a presidência da         República. Praticamente desde a sua criação.

       Em curto espaço de tempo eu passei a observar a sua estrutura, que de fato, tinha uma demanda social maior que sua capacidade. Os esforços que faziam eram merecedores de aplausos. A irmã Ivone se mostrava entusiasmada com os avanços planejados.

      O tempo ia passando de forma veloz em relação ao desenrolar dos fatos ligados as questões litigiosas das áreas ocupadas. Coincidentemente a ONG ia se tornando um ancoradouro para várias comunidades que passaram a serem assessoradas politicamente, ou seja, havia uma tendência de encampar politicamente os problemas para um encaminhamento conjunto das questões urbanas.

      Alguns partidos como o PDT e o PV preferiram direcionar apoio a ONG a trabalharem diretamente com as entidades comunitárias associativas.

       Pessoalmente eu nunca fui contra esta tendência de luta planificada.

    

       Sabemos que a unidade na luta fortalece o conjunto na obtenção dos resultados almejados por todos. Mas pra mim ficava evidente a tomada da legitimidade que estava ocorrendo por conta do fluxo de verbas e de apoio político que fortalecia as ações da ONG CAPROM.

      Eu me lembro que um dia procurei a vereadora Jalila El Ackar do PV solicitando verbas de gabinete para nossa entidade e, ela me disse que faria isso somente ao CAPROM.

      Pra mim suas palavras foram uma demarcação de espaço político para nossa entidade. Eu me senti avexado pelo que acabara de escutar.

     A associação dos Moradores da Praia das Areias é uma entidade de utilidade pública (Lei Estadual nº 7.602/89), tinha sido fundada em 29 de fevereiro de 1984, na verdade a segunda mais antiga de Florianópolis (se não estiver enganado). Se a vereadora tivesse dito que não tinha como ajudar, certamente eu entenderia da melhor forma possível.

        Mas enfim, percebi ali naquele momento que estavam tentando tomar nossa legitimidade enquanto entidade representativa e, agentes sociais de fato.

      Aquela situação ridícula de tentativa de estrangulamento financeiro das associações dos moradores, que, politicamente, e ilegalmente estava sendo substituída por uma ONG, não entrava no meu entendimento como uma luta política planificada e legítima. Por muitas vezes os moradores de nossa comunidade se mobilizavam criando um fundo de contribuição para que pudéssemos seguir avante em nossa luta.

     

      Certo dia eu entrei numa das salas do CAPROM sem me anunciar e cheguei a escutar que precisavam nos desmistificar. Estavam reunidos na sala quase todos os diretores da ONG, incluindo ai o Padre Vilson Groh e a Ivone Perassa. Fingi não ter escutado, entrei cumprimentando-os. Esse comentário era em alusão a nossa inserção na mídia que começava a incomodar.

       Eu vi durante vários eventos políticos que se sucederam a quem verdadeiramente serviam.  Eu ficava pensando, como pode uma ONG ser bancada financeira e materialmente pelo poder público para interesse privado? O município de Florianópolis fornecia funcionários e pagava os seus salários.

      

       Do ponto de vista político pareceria ser uma solução sem maiores compromissos, ou seja, enquanto a ONG estivesse focada no seu projeto político específico, a classe política da cidade focava os seus próprios interesses. Sendo assim, era mais fácil abrir o caixa do que ser cobrado por ações não executadas. A imagem que a ONG CAPROM passava era a de uma “bateria de mísseis” apoiadas nos movimentos sociais do qual já estava se infiltrando.

      Na oposição havia um vereador do PT, um do PCdoB, um do PDT, um do PV e um do PSDB e outro do PMDB. Atuavam a favor das comunidades apenas o PCdoB, PT, PSDB, PMDB.

      Pra minha alegria, aquela burguesinha vereadora não se re-elegeu nas eleições municipais de 1992.

       Eu soube mais adiante pelos dirigentes da ONG de que já tinham tentado eleger um vereador pelo PT na eleição passada. Este cidadão ficou a poucos votos de se eleger, havia a questão de legenda que dificultou um melhor desempenho. Anos mais tarde, o ex-candidato e líder na comunidade do Monte Serrat, foram expulsos da comunidade (ele e sua família), por ter se tornado desafeto de um menor envolvido com o tráfico de drogas na região. Saiu de mudança definitivamente após sua residência ter recebido uma saraivada de tiros, isso ocorrera por volta dos anos 95/96.

      Ainda no ano de 1988, nosso processo de organização ia se afirmando cada vez mais, tínhamos uma diretoria que sentava e discutia exaustivamente os problemas do litígio.

      Na verdade estávamos sempre de orelhas em pé (sic) com a possibilidade de despejo. Aquele assentamento ocorrido meses antes tinha chamado a atenção da mídia e da administração que assumiria em janeiro de 1989 (Esperidião Amim/Bulcão Viana, gestão 1989/1992). A que estava saindo, já nos tinha incomodado suficientemente, mas até ali, estávamos senhores da situação.

      Mesmo eu estando filiado ao PMDB, só fui entender a dimensão do conflito com a comunidade, apenas quando assumi a gestão na associação. Vale lembrar que o PT e o PMDB eram aliados, tendo os petistas como integrantes de sua administração naquilo que chamamos de fisiologismo, pasmem.

       Na gestão seguinte do antigo PDS, havia essa ligação da entidade ocultada pelos conflitos, mas que publicamente eram adversários. Houve momentos em que eu não conseguia entender o seu relacionamento quase umbilical e de forte intimidade que havia entre a ONG e a administração municipal comandada então, por aquele que fora o representante mor da ditadura militar no estado.

      Tratava-se na verdade do ex-prefeito Espiridião Amim (Também ex-governador), nomeado pelos generais, e que governava a capital após sua vitoria nas urnas naquele ano de 88. Em se tratando de uma Organização Não Governamental (ONG), com bandeira petista, eu ficava intrigado com esta ligação.

     

      Depois deste primeiro contato a partir daquele assentamento provisório no ano de 1988, nós passamos a ver a entidade como um ponto de apoio para alguns migrantes que haviam chegado à nossa comunidade.

      No verão de 1988, um fato me chamou a atenção, era um entardecer, já quase noite, e uma Toyota encostou á frente do terreno que eu ocupava, Na verdade naqueles dias, não havíamos ocupado toda a área. No terreno a minha frente tinha uma estradinha cercada por mato, mas havia um descampado onde estacionara aquele veículo.

      Neste momento desce uma cara com várias caixas e as amontoa feito lixo. Vai tirando do veículo e empilhando, eram roupas semi-novas, objetos de maquiagem, roupas íntimas de mulher, quadros de pinturas, quadros de fotos, e uma quantidade impressionante de fotografias.

      Fiquei horrorizado de ver diante de meus olhos aquela cena. Ele havia colocado fogo naquilo. Eu me aproximei e perguntei para o sujeito que conhecia há vários anos ele tinha sido artesão no final dos anos 70. O Toni vivia com sua família na lagoa do Peri, na verdade estava tentando ganhar na justiça a posse de uma casa que pertencera à outra família que o havia deixado morar lá, Ele tinha dois filhos, sendo que um terceiro tinha morrido com um tumor cerebral. Sua família foi ajudada pelo então governador Esperidião Amim.

      O Toni e sua mulher Elaine tinham uma relação estreita com a “dinastia” por conta da fatalidade acontecida. Eu perguntei: hein Toni, porque você esta queimando isso? Ele me respondeu: Isso aqui e daquela vagabunda da Daniela que não está pagando aluguel na casa do Álvaro.

      Você sabe que eu sou caseiro das propriedades dele. Ela saiu há um mês e fechou tudo, e ainda não apareceu para pagá-lo. O Álvaro me mandou sumir com tudo. Eu olhei para a montanha que estava pegando fogo e visualizei centenas de fotografias e uns dois álbuns grandes que continha fotos dos índios Kaygangs e dos Xocklengs.

       A Daniela era uma acadêmica da UFSC do curso de Sociologia. Vi rapidamente as fotos que ela havia tirado durante um trabalho acadêmico de campo junto aquelas comunidades indígenas.

       Provavelmente era para a elaboração de uma TCC na área de antropologia. Imediatamente eu atirei um dos álbuns para dentro do mato, o Toni correu para pega-lo de volta e saiu gritando que eu não poderia fazer aquilo, que não teria que me meter onde não era chamado.

        Eu consegui esconder rapidamente um quadro com uma fotografia onde a estudante aparecia grávida, nua, mas artisticamente posicionada de foram sensual comendo uma maçã. Estava sentada protegendo sua intimidade. Foi com essa foto que eu a reconheci, tinha-a visto uns dois meses antes. Ela se vestia quase como uma hippie, às vezes usava bolsas e saías colorida.

      Ela estava grávida quando este fato aconteceu. Eu não pude fazer mais nada, o Toni ficou em volta da fogueira jogando com uma madeira para dentro do fogo as partes que não estavam sendo queimas, ficava o tempo todo manuseando o fogo até ter certeza de que tudo havia sido consumido. Imediatamente saiu do local e disse pra mim: Você não viu nada.

      Claro que eu tinha visto, no outro dia comentei com alguns artesãos o que tinha acontecido, na verdade tinham visto o fogo, mas não se aproximaram pensando tratar-se de lixo apenas.

      Um artesão (já falecido) de nome gauchinho (na verdade era paulista de Estrela do Oeste), que eu conheci em Porto Alegre quando iniciei no artesanato hippie, me falou: Carlão, você pode me dar o quadro da Daniela? Eu pretendo entregar a ela e vou contar o que fizeram com os seus pertences. Bem eu disse, é todo seu, e, por favor, conte exatamente o que o Toni e o Álvaro fizeram.  

       A Daniela ficou sabendo do acontecido e registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia do Distrito do Pântano do Sul. Todo o seu material de estudos feitos com sacrifício durante mais de um mês de pesquisas e convivência que fizera estando acampada com os índios, viraram cinzas nas mãos daqueles criminosos.

No verão do ano de 1989 acontece outro fato envolvendo o Toni e sua esposa.

       Um casal de artesãos, ele se chamava Gelson e ela Meri alugaram a mesma casa que pertencera a Daniela no ano anterior. O Gelson pagou um ou dois meses de aluguel adiantado e depois se complicou para pagar o mês vencido. Não deu outra, o Toni imediatamente iniciou o despejo do casal. Eu fiquei sabendo pelo Gelson (conhecia-o desde que havia passado por Florianópolis em 1978), que ele seria despejado pelo Toni.

       O Toni tinha recebido ordens expressas do Álvaro para fazer a desocupação da casa. O Gelson estava apavorado, na verdade o Toni estava pressionando-o diariamente para que procurasse outro local e desocupasse a casa porque ambos precisavam alugar na temporada.

      Como é sabido de todos, nos verãos a cidade de Florianópolis é tomada por turistas que buscam as praias como seus locais prediletos na cidade. Ali no Morro das Pedras não seria diferente. O Álvaro não perdia a chance de ganhar uma grana, mesmo estando lutando pela posse da terra. Na verdade o Álvaro não residia no local, apenas se fazia presente periodicamente, e tinha no Toni o seu “capataz” que administrava o local.

       Havia ali umas três ou quatro casas, todas de aluguel. O Toni mantinha uma delas ocupada por sua família, enquanto isso lutava pela posse de outra na Lagoa do Peri.

      Certo dia pela manhã o Gelson me procurou dizendo que o Toni tinha colocado os seus moveis numa Toyota e os levaria para qualquer lugar. Pediu-me ajuda, disse que não tinha para onde ir. Na verdade o Gelson vivia com sua mulher e um filho pequeno.

       Eu prontamente me coloquei a disposição dele. Ofereci um barraco que estava desocupado há uns três meses. O barraco pertencia a um cara que era amigo de outro chamado de “Jair da Dinamarca”. Este por sua vez era também amigo do colunista do Diário Catarinense Claudio de Menezes (Cacau Menezes).

       Ora, diante daquela situação eu não pensei duas vezes. Espiei pra dentro do barraco, vi que não tinha nada dentro, meti os pés na porta abrindo-o. Em seguida procurei o Gelson e disse a ele: Vai lá à comunidade que eu te consegui um barraco. Ele é pequeno, mas vai te servir por algum tempo. Tem uma cara que se diz dono, mas a nossa área é de litígio, sendo assim, só consideramos aqueles que moram ali efetivamente. Você terá todo o nosso apoio.

       Neste meio tempo, o Toni já havia colocado as coisas do Gelson na Toyota, outra parte já estava fora da casa que tinha sido lacrada. A família fora literalmente despejada por aquele que no passado fora um artesão, lutava por uma posse de terra e ainda desempenhava o papel de um quase jagunço.

      Mas as coisas não pararam por ali (sic), dois dias após o Gelson estar na casa chegou o dito que se dizia dono. Era um jovem de uns 25 anos, ele veio acompanhado de mais quatro caras, um deles estava armado com uma pistola automática. Eu também conhecia este cara, Na verdade ele fora o primeiro jagunço do Álvaro durante as escaramuças ocorridas no ano de 1982 com o grupo Ilhas do Sul.

       Dani era um uruguaio que eu havia conhecido em Porto Alegre logo que me tornara artesão lá nos anos de 1975/76. O Dani era um exímio artesão, extremamente profissional, uma espécie de ourives. Quando eu o conheci ele trabalhava com prata e ouro. Na ultima vez que eu o havia visto, foi na praia de Tramandaí durante uma de minhas andanças pelo litoral gaucho ainda nos anos 70.

       Dani tinha me oferecido uma mala com vários artesanatos, como não podia comprar (não tinha dinheiro suficiente) fiquei apenas com algumas pulseiras bem trabalhadas com pedras semipreciosas e prata. Ele vendeu quase tudo ali naquela que anos depois se tornaria uma feira referencia do litoral gaucho.

      Dani sacou a arma e apontou pra mim, num primeiro momento não se lembrava que me conhecia, afinal, passara vários anos da ultima vez que nos tínhamos visto. Ele gesticulava bem alto para o Gelson e gritava: Tira tudo ai de dentro deste barraco que é nosso.

      O Gelson também o conhecia, sabia que ele tinha fama de violento, uma espécie de bandido que se tornara em Florianópolis, vivia ali há vários anos. Ele seguiu gritando e falou mentirosamente, eu sou policial, sou ex-militar e se não sair eu te dou uns tiros aqui mesmo, vai desmontando tudo ai e jogue pra fora imediatamente.

      Os que estavam com ele (Jair da Dinamarca, Montanha, e outros) nos cercaram. Dois dos nossos estavam com paus na mão e ficaram firmes sem demonstrarem medo. Eu disse para ele: Eu também sou ex- militar, e não tenho medo de ti, e falei: Dani, eu te conheço, lembra de mim? Mas peraí (sic), ele ficou me olhando e começou a ficar sem graça, baixou a arma e a guardou nas suas costas, e falou: Lembro sim Carlão, me respondeu com respeito, este barraco é de meu amigo e vocês não poderiam ter invadido. Eu disse pra ele: Dani, aqui na comunidade só é dono de barraco aquele que nele mora, e este não são o caso do teu amigo, nós não aceitamos veranistas. Acho melhor você desistir.

O Gelson você conhece, tem família e precisa da terra. Nós não estamos lutando pela posse da terra para favorecer quem dela não precisa como local de moradia.

      Dani foi embora e nunca mais retornou ao local. Encontre-o por várias vezes na cidade, conversamos em outras ocasiões. Ele tinha construído uma família e estava lutando para se naturalizar brasileiro. Vivia no Brasil há muitos anos. Ele também fora um dos perseguidos pela ditadura uruguaia, mas estranhamente estávamos em lados opostos. Eu imaginava que tinham pagado a ele para ir até o local.  Ele tinha respeito por mim, sabia das minhas lutas pelos artesãos. Vale lembrar que a comunidade de Areias do Campeche está localizada em frente para o mar.

       No outro dia eu retornei ao Morro das Pedras para falar com o Toni. Disse a ele: O Gelson está bem, apesar de tê-lo despejado e, mesmo Dani tendo ido até lá. Comentei que eu sabia que tinha sido ele que chamara Dani e avisado o cara que se dizia dono do barraco.

       O Gelson e sua família ficaram na casa alguns meses, até que o mesmo resolveu vender e ir para outro bairro.

      Algumas vezes eu o questionei porque fazia tudo aquilo pelo Álvaro, afinal, ele tinha uma posse do qual ainda lutava, e por outro lado favorecia aqueles que exploravam os pobres. Ele me dizia que precisava sustentar a sua família e ponto final.

      Durante aquele período, o Toni vendeu as suas ferramentas de artesão para a ONG CAPROM. Eu fiquei sabendo desse fato alguns meses a posterior. O CAPROM tinha comprado suas ferramentas e doou-as para um artesão chileno.

       A ligação do Toni e da Elaine com a Ivone já vinha desde o período que sofreram com a perda de um filho que teve um tumor cerebral, esse fato me foi contado pela própria Elaine e por seu companheiro Toni.

       A Ivone Perassa era amiga do casal desde aqueles dias e ambos mantinham uma relação de admiração e cordialidade com o ex-governador Esperidião Amim que os ajudara naquela circunstancias.

      Essa posição ficou definida pra mim quando a Ivone Perassa comentou alegremente aquele fato, e outros que ocorreram durante uma manifestação dos professores. Segundo ela me disse, o então governador Esperidião Amim usou as suas costas como apoio para assinar um compromisso com a categoria. Ela contava aquilo com o orgulho de ter se aproximado daquele que era o governador do estado.

       Para o Toni, o que importava mesmo era a sua sobrevivência e nada mais, por este motivo tornara-se o jagunço do Álvaro.

      O Álvaro era um engenheiro civil e tinha se tornado o único remanescente ali no Morro das Pedras daquela ocupação que culminara em negociação com os representantes da família de Henrique Berenhausen. O Grupo Ilhas do Sul continuava tentando tira-lo daquele local.

      O processo se arrastava há vários anos. O Álvaro vivia com uma professora e ambos lutavam para permanecerem com aquelas posses. A Área em questão estava defronte ao local mais nobre da região, a praia do Morro das Pedras. No local onde haviam resistidos os antigos ocupantes, fora construído um Hotel turístico e vários condomínios residenciais.

       Ligeiramente após a saída dos ocupantes, a área recebeu escrituras públicas.

       Aquela área remanescente dos ocupantes tinha sido objeto de escaramuças no ano de 1982.

     Segundo foi registrado nos jornais da época, um grupo de jagunços (que se passava por seguranças) contratados do Rio de Janeiro pelo Grupo Ilhas do Sul (de São Paulo) iniciou ateando fogo em mais de meia dúzia de barracos dos ocupantes.

       Eles portavam armas de grosso calibre, tais como escopetas calibre doze e submetralhadora. O então vereador Sergio Grando (PMDB/PCB) e a então vereadora Clair Castilhos (PMDB/PSDB/PCdoB) foram ao local e tomaram providencia, não deixaram se intimidar pelo forte aparato criminoso ali presente.

       A presença dos Vereadores foi fundamental para cessarem as investidas dos jagunços contratados. A polícia foi chamada, mas misteriosamente, nenhuma arma foi apreendida. Os caras sumiram do mapa, e o acontecido felizmente ficou registrado na imprensa da época.

      O Sergio Grando (ex Deputado Estadual/PCB/1990/91 e ex Prefeito de Florianópolis/1992/96) me contou essa história várias vezes. Militamos juntos no PCB desde o ano de 1989. Embora como marxista eu fizesse parte desde a ditadura militar, eu permaneci no PMDB desde o Rio Grande do Sul, como um instrumento de sobrevivência ideológica.

       Muitos militantes fizeram o mesmo. Durante o Bi-Partidarismo as forças de esquerda que existiam no Brasil se abrigavam no antigo MDB que era o navio-capitânia dos movimentos sociais organizados. O MDB abrigou várias lideranças de muitos partidos da hoje base governista dos governos Lula/Dilma.

      No meu entendimento houve uma grande mudança no perfil ideológico do PMDB a partir das eleições de 1989

      Ainda no ano de 1982, a família de Henrique Berenhausen sob a representatividade do Grupo ilhas do Sul, contrata maquinas de terraplanagem e nivela o terreno naquilo que são dunas e Área de Preservação Permanente (APP), fração de terras, essas que são protegidas pela legislação federal como pertencentes à união.

      Esta façanha criminosa é escandalizada pelas noticias que saem em todos os jornais que circulavam na época. O Diário Catarinense não existia no estado de Santa Catarina.

      Para a confirmação dos fatos, durante o ano de 1989 eu fiz uma profunda pesquisa sobre o assunto e constatei nos jornais “O Santa Catarina” (com sede em Blumenau), no Jornal “A Noticias” (com sede em Joinville) e no Jornal “O ESTADO” (com sede na capital).

      Seguindo nas minhas pesquisas que se iniciaram na biblioteca da Assembléia Legislativa do Estado, eu constatei que a comunidade de Areias do Campeche vinha sofrendo ações de derrubadas de casas desde o ano de 1984.

      O Ano de 1989 pareceu-me ser o que mais marcou a minha vida em Florianópolis.

       Como presidente da Associação dos Moradores, eu passei a colocar em prática nossos projetos de consolidação no bairro. Nossa comunidade passou a ser um ponto de referencia na resistência contra as ações de despejos que vinham sendo imposta pela justiça, e também pela prefeitura da cidade.

      Nós contávamos com o apoio político de vários parlamentares de diferentes partidos e também de sindicatos de trabalhadores. Tínhamos conseguido uma projeção na cidade que atraiu outras entidades comunitárias interessadas em nos ajudar. Uma delas foi à recém fundada UFECO (União Florianópolitana de Entidades Comunitárias) que congregava mais de uma dezena de entidades associativas.

      Logo que saíram na mídia os primeiros enfrentamentos com a administração municipal, fui procurado pelos diretores da UFECO para participar de algumas reuniões onde poderíamos colocar a questão numa discussão em nível de cidade. Bem, eu não via nenhum tipo de problema nesta participação, neste caso, sem saber o que estava oculto, minha decisão provocou a ira do CAPROM.

      

   – Neste adendo, eu gostaria de esclarecer que ambas as entidades haviam sido fundadas no ano de 1987.

      Do ponto de vista político não há nenhuma diferença entre ambas por estarem no mesmo arco eleitoral e ideológico do pensamento burguês.

      Embora os fundadores do CAPROM daquela época se mantenham atuantes, com outra estrutura e, em outras ONGs, ainda assim representam a matiz ideológico majoritária do PT.  São elementos vetores da social democracia incrustados nos movimentos sociais presentes.

      Enquanto partido político, o PT governa e gerencia com maestria os contraditórios sociais dentro do marco capitalista da exploração de classe, tornando-se dessa forma, o representante maior do pensamento burguês com as mãos no capital do país.

E, por favor, não venham querer confundir a social democracia do início do século passado com a social democracia do século presente.

Continuando…

       No meu entendimento, aquela ONG tinha um projeto político eleitoral já definido que incluía o encampamento de todas as entidades comunitárias ou comissões de moradores em áreas de litígio pela posse da terra, e que, não permitia a participação de outras, senão com a sua benção.

      Considerei aquilo um absurdo, e, não estava convencido de que aquela questão se fazia por critérios “ideológicos” conforme propagava e dissimulava. Na verdade, a ONG se comportava como proprietária de um tema social delicado que envolvia a vida de centenas de famílias das periferias de Florianópolis. Enquanto buscávamos uma solução definitiva, esta agia no sentido de provocar impasses que lhes rendessem dividendos políticos e eleitorais.

      Tanto foi verdadeiro que, enquanto defendíamos nossa permanência no local que ocupávamos, os ideólogos desta se limitavam a defender uma política habitacional para a cidade como se estivessem em sintonia com os anseios da própria UFECO que combatiam. Talvez ai sim estivesse o seu calvário.

      Alguém do campo popular e democrático consegue imaginar um governo de extrema direita (ideologicamente falando), gerando uma política habitacional para famílias de baixa renda, ou desapropriando áreas urbanas para fins sociais?

      

      Se do ponto de vista eleitoral, os ideólogos da ONG pensavam assim, nós tínhamos uma posição histórica de resistência e lutávamos unicamente pela nossa permanência no local onde vivíamos. Pra mim já estava ficando mais do que visto a intenção eleitoral de ação da ONG CAPROM, principalmente após já alguns meses iniciarem uma discussão sobre mandatos populares, enfim, já estava surgindo uma definição que mostrava para o que tinham vindos.

       Essa entidade privada, desesperadamente tentava barrar a participação de outras entidades comunitárias que eventualmente quisessem se aproximar desta temática.     

        Lembro de uma reunião dentro da sede da ONG, onde eu coloquei a questão do convite e fui bruscamente desautorizado a participar em qualquer ação que envolvesse a UFECO.

      Quando escutei os comentários que faziam referentes à entidade, percebi claramente o engodo.  A estratégia de manipulação que faziam era para desmistificar a chamada concorrência ali estabelecida, e se apresentarem como a única solução plausível.

      Desde aquele dia, percebi um patrulhamento nas minhas palavras e nas minhas posições, que, mesmo estando de acordo com os seus projetos, ou fossem inovadores aos avanços sociais, seria barbaramente combatida. Eu não deveria ser o autor de idéias “revolucionárias”, isto lhes incomodava.

       Precisavam me desmistificar a qualquer custo. Cheguei a escutar um comentário irônico entre o Lázaro e a Ivone que dizia: Ali vem a UFECO… Achei aquilo um absurdo imensurável, uma ação de caráter fascista com embuste de luta social.

       Sinceramente, naqueles dias comecei a sentir um “medo” diferente, comecei a sentir no ar alguma coisa meio estranha. Não sei por que, logo após eu ter “detectado” as primeiras contrariedades no meu modo de pensar, eu passei a perceber que a Ivone Perassa me olhava de um jeito “metálico”.

       Sempre que conversávamos, seu comportamento já não era mais o mesmo, desde quando nos havíamos conhecidos durante aquela ocupação no ano de 1988 nas “Dunas do Campeche”. Ela agia de maneira politicamente repetitiva, suas propostas eram como se estivesse andando numa direção do qual não poderia desviar por nada no mundo, e não tinha mais aquela humildade aparente daqueles dias. A Ivone demonstrava atitudes mecânicas, eu diria, sempre que me avistavam, seus olhos “vidravam” com a minha presença. E, confesso, comecei a sentir aquele medo diferente, algo não estava claro diante de meus olhos.

       

      Mais a frente também havia percebido que buscavam explorar em mim algum fator, ou mesmo um comportamento que lhes pudessem servir de argumentos para este fim.

   Para deixá-la despreocupada, certo dia eu comentei para a Ivone que tinha tido problemas com o exercito, e que não estava me sentindo bem em aparecer na mídia como vinha se sucedendo.

       Após os primeiros enfrentamentos ocorridos no dia cinco de março e no mês de abril, houve uma pausa enquanto discutíamos a questão. No mês de maio aconteceu uma greve no transporte coletivo da capital e eu me fiz presente naquelas manifestações.

      Em meio ao entrevero com a Polícia Militar e os grevistas, havia também a presença de vereadores e líderes comunitários que apoiavam a greve. Eu não sabia que tinha aparecido novamente na mídia. E, não era por menos, não havia televisão na minha casa.

   Tempos depois é que fui entender que era na verdade o seu projeto eleitoral que estava sendo ameaçado. Eles trabalhavam focados neste objetivo, e nós tínhamos nos tornado uma vertente social que lhes daria esta possibilidade. No meu caso, porém, a ONG tinha a preocupação que eventualmente minhas ações pudessem ser usadas contra os seus interesses eleitorais.

       Na verdade mesmo, em meio às reuniões, numa delas a Marta Reis Gobatto havia comentado maldosamente que eu seria candidato a vereador. Nossa diretoria já vinha tendo desentendimentos com ela por conta de alguns encaminhamentos que discordava, mas que a tornava voto vencido.

       Ela havia lembrado-se que eu tivera um comentário semelhante com o ex-presidente da nossa Associação, o companheiro Shao-Lin, quando comentei que se ele fizesse um bom trabalho teria essa condição.

     Certo dia, comentei numa reunião que havia participado de um jantar no Clube dos Engenheiros de Florianópolis, onde fui apresentado para outras entidades, e ali debatemos a questão da luta pela posse da terra. O pessoal da UFECO tinha nas suas discussões o mesmo projeto de uma política habitacional semelhante ao da ONG CAPROM.

       No meu entendimento, a questão de participar ou não de outros fóruns de debates, não tinha nada a ver com ideologia, era na verdade, no sentido de buscar e de unir forças, de discutir com outros segmentos da cidade, o que a todos interessava, ou seja, uma ação de justiça social efetiva, mas que no fundo mesmo, respeitasse os objetivos de nosso coletivo de moradores.

       E, sinceramente, nós não tínhamos nenhum contrato firmado com exclusividade com aquela entidade privada de interesses particulares. Até aquele momento, eu ainda resistia em absorver o entendimento de que aquilo que estava percebendo fosse realmente uma verdade imensurável. Não conseguia entender que diante das ações sociais que tinham praticado, havia outro interesse senão este.

      Se ao menos fossem socialistas de verdade, talvez eu tivesse tido uma compreensão diferente. Eu não conseguia digerir a presença de elementos nefastos aos pobres que compunham a diretoria daquela ONG, neste caso, a presença da Elaine (aquela que fazia despejos para o Álvaro), que transitava entre as comunidades com a confiança e o aval da Ivone Perassa.

       Qual a vantagem ou dividendo político para a ONG? Nenhum, exceto no sentido negativo de terem em seus quadros um péssimo exemplo de ética, de moral, de cidadania e luta social.

        Eu aproveitei minha ida ao CAPROM durante uma tarde e relatei para a Ivone Perassa o que a Elaine e seu marido tinham cometidos ali no Sul da ilha. Na verdade, não entrava na minha cabeça aquela convivência quase forçada pelas circunstancias. Ela disse que tomaria alguma providencia sem me dizer qual seria. Enfim, pensei comigo, acho que vai ficar melhor sem a Elaine junto às comunidades.

Diferente do que imaginei, a Elaine nos acompanhou (pela 1ª vez) como representante do CAPROM numa reunião que tivemos com o prefeito Esperidião Amim.

       Sua presença era na verdade uma ação do seu fortalecimento junto à diretoria do CAPROM. A opção da Ivone já estava clara diante daquilo que eu havia levado ao seu conhecimento.

       Eu cheguei a imaginar que a Ivone tomasse providencias verdadeiras, ma isso não aconteceu, aliás, ingenuidade de minha parte. Imagine uma ONG do pensamento burguês penalizando os seus quadros?

       A ONG se esforçava em convencer-nos que a administração do prefeito Esperidião Amim teria de criar uma política habitacional para a cidade, e, que haveria de construir casas populares etc.

      Na comunidade, esse interesse ia contra a nossa vontade, que de verdade mesmo, não acreditávamos naquela administração. Víamos aquele assunto como demagogia política de efeitos psicológicos.

      Na periferia, algumas comunidades já mostravam resistência aquela idéia, e no nosso caso, o que fizemos, foi planejar o nosso afastamento na mesma velocidade que a procuramos, quando o tema já estava indo naquela direção. E, eles já estavam percebendo levando em conta nossa ausência em algumas reuniões. Ainda assim, nos convidavam freqüentemente. A Ivone dizia: Se alguém da diretoria de vocês não puder comparecer, então enviem apenas um ou dois moradores pra que possam repassar nossas posições…

       Na comunidade nós já vínhamos analisando os rumos que o movimento tomava. Não que fossemos contrários ao CAPROM. Se “ingenuamente” estávamos apoiando-os no fortalecimento de um movimento amplo, por outro lado estávamos preocupados com o sectarismo demonstrados em suas ações em prol daquele famigerado projeto habitacional que tanto defendiam.

       Pareceu-me mais a frente, tratar-se de uma visão ou opinião acadêmica eqüidistantes da nossa realidade. Era algo semelhante a uma cartilha a ser seguida e que ninguém deveria tentar modificá-la. Sinceramente, aquilo se tornara uma situação ridícula dentro de um contexto diferenciado.

       De todas as entidades ali reunidas, nós éramos uma das poucas que dispunha de uma estrutura jurídica legal (CNPJ, estatuto registrado, registro em órgãos estaduais, livros de atas, caixa, convênios, etc.)

       Com a estrutura jurídica que dispúnhamos, tínhamos condições de fazer valer nossos direitos junto a alguns órgãos do município, do estado e do governo federal, ao menos eu pensava desta forma. Precisávamos nos articular melhor e fazer valer nossos propósitos. A impressão que eu tinha era de que o CAPROM não estava preparado para lidar com uma situação “sui generis”, semelhante à de nossa entidade.

       Na verdade, não estavam nos levando a sério enquanto entidade jurídica legal e representativa do nosso coletivo, e muito menos enquanto líderes comunitários.

       Aquele grupo de pessoas, abrigados dentro de uma ONG, representavam setores progressistas da igreja católica (Teologia da Libertação), do Partido dos Trabalhadores, e estavam preparados para passar um “rolo compressor” em cima de comissões de moradores dentro daquela temática do litígio urbano pela posse da terra.

      Aquilo ali era uma ONG que nascera para trabalhar a questão de uma candidatura a vereador para o PT e fazer valer os seus ideais enquanto entidade privada.

       De resto mesmo, o oportunismo e, o despreparo diante daquele “fato novo” chamado “Areias do Campeche”, este sim eu tenho a convicção de que não estavam preparados para encampar. Mais a frente, isso os levaria a cometerem um atentado.

       Era como se nossa resistência em não absorver os seus objetivos fosse semelhante ao de tirar um pirulito das mãos de uma criança, ou, pior ainda, como se tivéssemos traído-os sem ao menos saber quem eram. Ficaram revoltados e vingativos. O ego dos seus criadores tinha sido atingido em cheio, sem que ao menos nós conhecêssemos esta realidade.   Eu diria mais ainda, é como ter traído uma companheira sem nunca a ter conhecido como tal…

        Eu posso imaginar que sem querer, ou melhor, sem ao menos ter “tramado” uma resistência forçada contra aquela ONG, eu tinha impedido que o “futuro” candidato das “cartas nas mangas” que de fato tinha uma forte atuação comunitária na sua associação (AMOCAM) e não obtivesse o controle político da nossa comunidade conforme o “projeto eleitoral” do CAPROM.

      Como pessoa, o economista e funcionário do Tribunal de Contas do Estado, Lázaro Daniel Bregue (nativo do Campeche), é um sujeito humildade, com uma inserção social e familiar no bairro, ao menos foi à impressão que tive durante as pouquíssimas vezes que conversamos de banalidades. De política mesmo, esta característica não se apresentava, ou seja, era dono do “entendimento” e pronto.  

      Após “centenas” de fatos, de anos à frente, eu fico pensando: Se aquele pessoal tivesse nos chamado em particular, ou melhor, se tivessem nos procurado e conversado de igual para igual, se tivessem nos tratado com respeito de fato, como agentes sociais daquele momento, como líderes comunitário legítimos, possivelmente tudo aconteceria diferente naquela conjuntura.

       Enquanto agentes sociais e como líderes comunitários, nós tínhamos o compromisso histórico de fazer valer os anseios da nossa comunidade, do lugar onde vivíamos com nossos filhos, com nossas famílias.

      Muito diferente de compromissos políticos “genéricos” de muitas ONGs, nós tínhamos a representatividade do nosso segmento social, e somos frutos do meio, historicamente discriminados, e empobrecidos.

       Como comentei no capitulo inicial desses escritos, eu venho de uma infância dura e sofrida, de uma vida que eu diria hoje, sem um berço familiar de fato, “sem eira e nem beira” popularmente falando.

      Aquela ONG veio com tudo para cima das comunidades com a intenção clara de fazer valer os seus propósitos. Em nenhum momento tentaram saber dos problemas individualizados das lideranças emergentes, e também, em nenhum momento deram a mínima para os seus problemas, exceto os de caráter político eleitoral que era o que lhes interessava.     

       Paralelamente a estes embates políticos que nos envolviam no campo “popular e democrático”, nós ainda estávamos convivendo com outro drama social advindo do inchaço da comunidade que aumentava dia a dia a quantidade de moradores. Se por um lado a Prefeitura pretendia “congelar” o número de moradores cadastrados, por outro, nossa entidade tentava sempre que possível manter aquela listagem atualizada.

      O CAPROM tinha uma linha semelhante ao da prefeitura, ou seja, defendia uma única lista de moradores e não importava se o número de moradores havia aumentado ou não.  Politicamente agia como uma ONG preocupada com os problemas sociais, mas por outro lado defendia a sistemática municipal de congelamento do cadastro. Ora, como poderíamos estar atendendo aquela exigência se constantemente estávamos sendo atacados pelo poder público? Volta e meia os fiscais apareciam na comunidade e derrubavam uma casa. Enquanto isso, nada de desapropriarem para fim social, a área que ocupávamos.

       Mas eu sempre pensava comigo: Congelar o número de moradores cadastrados? Como assim, fechar a entrada da cidade para os migrantes que aportavam?

        Eu chegava a achar ridícula a dubiedade na interpretação da ONG quando o assunto era cadastro de moradores…

      Bem, eu deveria estar pensando que, como já tinham alcançado uma inserção política junto a algumas comunidades, e também “respeito” em alguns setores políticos, eles poderiam mostrar as caras…

      Esta política já vinha sendo aplicada em algumas comunidades que sofriam a influencia da ONG e era parte do acordado com municipalidade.

       Eu nunca esqueci as vezes que a Ivone Perassa me dizia: Esta área (Areias do Campeche) frente para o mar a prefeitura nunca vai desapropriar. Ela vale alguns milhões e vocês vão sair daqui mais hoje, mais amanhã. Você tem de negociar outra área porque esta aqui o Amim não vai desapropriar, ali existem os projetos de condomínios fechados.

      Com esta colocação ficava evidente pra mim que o CAPROM agia conforme uma cartilha partidária ou igrejeira, e em sintonia com as forças ocultas que governavam a cidade, ou, simplesmente estava fora de nossa realidade, completamente desinformada ao nosso respeito.

      Eu tinha o compromisso pessoal do ex-deputado Sergio Grando, que se eleito prefeito (era o nosso projeto no Partido Comunista Brasileiro-PCB), iria desapropriar para fim social, a área ocupada. Tinha também o apoio do Senador Nelson Wedekin, e Inclusive do governo do Estado, de que não sofreríamos um despejo sistemático. Eu nunca tinha comentado isso com a Ivone, afinal, alguma coisa ali no CAPROM tinha uma direção política diferente da nossa.

      Eu também sentia o seu desagrado quando fiz um documento de agradecimento aos integrantes do governo do estado, aos diretores da CELESC e em especial ao senador Nelson Wedekin quando foi edificada a rede de energia elétrica na comunidade. Este documento eu coloquei num mural existente no interior da ONG. O meu objetivo era apenas enaltecer as pessoas envolvidas naquela luta histórica que marcou a nossa comunidade.

       Muitas vezes ela tentou me convencer a aceitar a permuta de nossa área por outra no bairro da Tapera/Carianos que num dado momento tinha nos sido oferecida pela administração pública. Por outro lado, assim que esta noticia ganhou a cidade, a comunidade do bairro Carianos soltou uma nota na imprensa dizendo-se contraria a nossa eventual transferência.

      Alegavam os lideres daquele bairro que a prefeitura não dava conta da demanda de esgoto, de água, de transporte etc. como pretendia atender aquele acréscimo de moradores? Na verdade eram duas áreas, uma no bairro Carianos e a outra no bairro da Tapera. E, eles tinham a total razão.

       Mas afinal de contas, quem disse que os moradores da comunidade de Areias do Campeche aceitariam esta proposta? O CAPROM batia firme nesta idéia, a prefeitura usava a proposta pra tentar nos desmoralizar no sentido de que estávamos apenas fazendo política. Nada disso era verdade.

      Primeiramente as áreas propostas estavam em locais impróprios para moradia, o do Carianos estava em cima de um mangue. O da tapera estava dentro de uma APP e também em área de mangue. Enfim, de fato o município não tinha nada a nos oferecer.

      Esta vontade de permanecer no nosso local de moradia era o que mais contava para todos nós. Às vezes em que a Ivone Perassa insistia para que negociássemos me levava a interpretar que buscava algum resultado político que apenas atenderia a vontade de sua ONG, ou seja, precisava de um resultado ali nas Areias do Campeche para ser apresentado como um troféu de vitória.

Meu D´us como estava distante da nossa realidade…

A história se repete.

      Não há sabedoria maior do que a sabedoria popular. Por conta disso, a ONG CAPROM lentamente foi absorvendo a vontade de algumas comunidades que resistiam ao seu projeto de lutarem por uma política habitacional fictícia para o município de Florianópolis.

       Houve um momento que comecei a fazer a leitura quase perfeita da ONG. Pra mim, parecia que o CAPROM estava fazendo da nossa causa um laboratório político onde experimentavam vários remédios para obtenção de efeitos e causas (sic).

     Permanecer no seu próprio local de moradia, é o desejo de qualquer comunidade que esteja num embate político, ideológico e jurídico na luta pela posse da terra.  Que outro sentido haveria?

      Depois de algumas semanas nos foi proposto que as reuniões (que ocorriam à noite na sede do CAPROM) se dariam numa sala específica que ficava no interior da catedral metropolitana da cidade. Ali se fizeram presentes várias entidades comunitárias, comissões de moradores, e alguns militantes avulsos da própria ONG.

      Eu diria avulsos, no sentido de que estes apareciam esporadicamente aos encontros. Esta participação se dava conforme os avanços nas estratégias de luta que iam acontecendo. Conforme a temática, ou os rumos do encontro, a direção da ONG os comunicava. 

      Homem inteligente de visão social imensurável, religioso e solidário de personalidade forte, na verdade, mais político do que religioso, o Padre Wilson Groh passou a dirigir e a se fazer presente em todas as reuniões ali na Catedral Metropolitana. Definitivamente estávamos sendo encampados conforme o projeto inicial da ONG que representava a Teologia da Libertação e trabalhava conjuntamente como um braço social religioso do Partido dos Trabalhadores.

      Eu posso dizer nos dias de hoje que, aquela experiência ali vivida juntamente com aquele grupo de “estranhos” politicamente falando, trouxe-me um aprendizado diferente de tudo aquilo que eu tinha vivido até aquele momento.

Eu diria que, se por um lado havia por parte “deles” um objetivo diferenciado do nosso, por outro era um exercício forçado de mudanças de estratégias que iam acontecendo conforme a conjuntura ali estabelecida.

      Por muitos momentos eu fiquei em dúvidas diante daquela situação. Se havia uma expectativa de avanços nas negociações com a prefeitura, de outro modo, eu tinha preocupações em ter de partilhar nossos problemas comunitários com aquele grupo ávido por resultados eleitorais, que no fundo mesmo, estava nos tirando à legitimidade enquanto agentes sociais de fato.

      Na verdade mesmo, “eles” estavam focados unicamente em catapultar um “mandato popular” alicerçado no nosso problema social. Este fato veio a se comprovar anos mais a frente.

      A participação de integrantes das CEB´s (Comunidades Eclesiais de Base, formadora de lideranças), e de Teólogos, deixou claro os rumos ali tomados. Por outro lado, moral e eticamente falando, aquele conjunto ali reunido era parte do dinheiro público catapultado a serviço do pensamento burguês e do capitalismo religioso também configurado. 

Nasce uma comunidade chamada “Praia das Areias do Campeche”,

 

 

 

Bem, chegando a Florianópolis me estabeleci primeiramente em um hotel no centro da cidade. Dois dias após, já estava morando no sul da ilha, precisamente na praia das Areias do Campeche.

 

      Nunca poderia imaginar que uma vez tendo escapado praticamente incólume durante o período mais obscuro da ditadura militar, eu estaria sendo vítima daquilo que chamo de resquícios da mesma prática criminosa usada pelos ditadores, ou seja, atentar contra a vida de militantes contrários ao seu modo de pensar. Valia tudo pela supremacia das suas estratégias de crescimento político e eleitoral, ideologicamente falando.

 

      No primeiro sintoma político de repercussão social que fora projetado na mídia, e que, envolvia as questões litigiosas na periferia, ali se fizeram presentes as chamadas ONGs com seus projetos de incursão nos movimentos sociais. O oportunismo criminoso trouxe no seu bojo, projetos privados com o objetivo de plantar e eleger candidatos comungados do seu próprio meio político, vindos de cima, num pára-quedismo pirotécnico.

 

      O que aparentava ser normal diante das disponibilidades de ajuda, no fundo mesmo eram estratégias políticas e eleitorais de cartas marcadas.

 

       Era um grupo de pessoas abrigadas numa estrutura jurídica, sob a “pecha” (sic) de uma ONG preocupada com as questões sociais que afligiam mais de uma dezena de comunidades. Essas, diante do agravamento dos conflitos urbanos se tornaram o prato cheio do projeto eleitoral fundamentado na criação da própria ONG.

 

      É obvio que para as comunidades é sempre bem vindo qualquer ajuda, jurídica ou política que possa mesmo que paliativamente sufocar o sofrimento pelo qual viviam.  

 

      Nascidos na pós-ditadura, centenas de ONGs sobrevivem do dinheiro público travestidos de mandatos populares e de convênios estatais para os seus interesses privados.

 

Na verdade, de forma indireta manipuladas pelas entranhas estatuaria do chamado 3º setor, tornam-se um lavatório dissimulado do dinheiro público para financiamento de campanhas eleitorais. Eis aí os autênticos caixas dois dos partidos representantes do pensamento burguês.

 

       Não existem estratégias políticas alicerçadas em artimanhas jurídicas, de resultados eleitorais, com custos financeiros mais perfeitos do que este. É o verdadeiro conto do vigário colocando a mão no erário público com a bandeira das causas sociais.

 

       Trata-se na verdade do enriquecimento ilícito de Ongueiros carreiristas, verdadeiros apêndices do sistema capitalista a serviço de seus partidos políticos.

       Os tempos são outros, mas aqueles personagens de outrora continuam incólumes como se nada tivesse acontecido.

 

      Não adiantou fazerem um esforço gigante na tentativa de dissimularem seus reais propósitos a cerca de 20 anos atrás, por aquilo que nos dias hoje, qualquer um faz a leitura perfeita do que sempre foram.

 

      Tudo começou com a minha inserção política nos problemas da comunidade de Areias do Campeche, que mais a frente eu viria ajudar a organizar.

 

      Quando ali cheguei, eu havia recebido um pequeno pedaço de terra com cerca de 200 metros quadrados. Na verdade eu havia recebido de um artesão que vivia ali a uns dois ou três anos. 

 

 Passado cerca de um mês após já estar morando naquilo que transformei num barraco (eram sobras de madeiras de construção), passei a entender o que realmente se passava naquele embrião que viria a ser uma grande comunidade.

 

      Após conversar com alguns moradores sobre a possibilidade de fundarmos uma associação de moradores, fomos informados por um casal que era remanescente da outra parte da comunidade, que havia negociado sua saída da área onde ocupavam que, desde o ano de 1984 havia uma associação, e que após os últimos acontecimentos estava inoperante.

 

       Fomos informados ainda que os documentos possivelmente estivessem nas mãos de um pessoal que já não estava mais ali. Eu tratei de saber o nome da entidade, que de fato se chamava Associação dos Moradores da Praia das Areias do Morro das Pedras e Campeche.

 

      Essa entidade foi fundada em 29 de fevereiro de 1984.

 

      Após várias pesquisas com moradores mais antigos da região, conseguimos localizar o livro de atas da entidade. Continuamos a pesquisar, e coube a mim a tarefa de ir atrás de eventual CGC (atual CNPJ). Procurei na Delegacia da Receita Federal e ali não havia o registro desta entidade. Seguindo na pesquisa, eu entrei na biblioteca da Assembléia Legislativa, e encontrei após uma exaustiva pesquisa, a ata de fundação da entidade e o extrato dos estatutos publicados no Diário Oficial do Estado.

 

      Já tínhamos o embrião da fundação da entidade, sabíamos quem eram os antigos diretores (com mandatos vencidos a mais de dois anos) e tratamos de contatá-los.

 

       Essa tarefa se tornaria difícil, alguns já não estavam mais em Florianópolis, outros não moravam no bairro desde os tempos da negociação com os representantes do Grupo Ilhas do Sul, empresa do ramo imobiliário que era associada aos empreendimentos da família de Henrique Berenhausen (Advogado já falecido).

 

      A história da comunidade de Areias do Campeche tinha nascido no inicio dos anos 80.

 

      Tudo começou com a ocupação de uma área frente para o mar e que era pretendida pelo tal grupo Ilhas do Sul que tinha sua sede em São Paulo. Segundo me contaram alguns moradores, o ex-Deputado Sergio Grando e a ex-Vereadora Clair Castilhos, um grupo de seguranças particulares fortemente armados, iniciaram suas ações sujas colocando fogo nos barracos dos posseiros, com o intuito de expulsa-los pelo medo.

 

      Naqueles dias houve a intervenção dos então Vereadores Sergio Grando PMDB e Clair Castilho PMDB que no decorrer dos fatos aconteceu à retirada negociada mediante uma permuta de área proporcional a aquela que os posseiros ocupavam.

 

      Os representantes da família de Henrique Berenhausen se comprometeram a pagar o frete, a construção das casas no novo local e a substituição de materiais eventualmente quebrados durante a transferência dos moradores para a nova área.

 

      Tudo ocorreu conforme o acordado entre a associação dos moradores, os vereadores e a outra parte.

 

      Após estes acontecimentos a Associação dos Moradores que contou com a participação de Sergio Grando como um dos fundadores, ficou inoperante até a data em que a resgatamos, e a regularizamos. Era dezembro de 1987, eu comecei convocando uma assembléia de moradores, e a seguir, elegemos uma diretoria. Eu fiquei como 1º secretário, o presidente que indiquei (sic) Foi o José Wilmar Vengner Ribeiro conhecido por nós com Shao Lin. Minha idéia era ficar por trás, nos bastidores fazendo uma assessoria para que tivéssemos sucesso.

 

     Lembro que no dia da posse do Shao Lin, eu comentei com ele que se fizesse um bom trabalho, quem sabe até poderia ser candidato a vereador. A Marta Reis Gobatto estava presente naquele ato, e ficou me olhando pensativa. Até aquela data, tudo parecia normal. Mas, o meu amigo Shao Lin permaneceu poucos meses, não demonstrava afinidade com o cargo e renunciou.

 

       Em nova assembléia eu fui eleito o novo presidente. O meu amigo Manoel Francisco Inácio ficou de vice-presidente, a Marta dos Reis Gobatto (uma professora, funcionária pública, remanescente da outra área) ficou como presidenta do Conselho Fiscal. A partir dai passamos a dar um novo impulso na entidade.

 

      No ano de 1988 fomos procurados por integrantes de uma ONG que pretendiam assentar na região um grupo de moradores de rua e de migrantes. Concordamos prontamente, afinal, aquela era uma área em litígio pela posse da terra. Ainda havia ali remanescentes da outra área onde fora feito um acordo.

 

      O Sem Tetos que foram trazidos eram organizados pela entidade e assentados em cima das dunas do Campeche. O acampamento foi feito com lonas pretas e estacas de bambu. Aquele evento foi amplamente noticiado pela imprensa local que, destacava que as “dunas” do Campeche foram invadidas por famílias de Sem Tetos.

 

A repercussão foi tão grande que chamou a atenção das autoridades do estado e do município. Florianópolis não tinha um órgão municipal de meio ambiente.

 

      As famílias de Sem-Tetos permaneceram no local cerca de dois meses, sua manutenção alimentícia, de roupas, colchonetes e cobertores eram angariados com o apoio da ONG chamada CAPROM (Centro de Apoio e Promoção dos Migrantes), que os havia levado até ali.

 

       … Passado este período, os Sem-Teto foram removidos para outras áreas da cidade com o apoio da ONG. 

 

      Na verdade, a ONG CAPROM tinha sido fundada poucos meses antes, por volta do mês de dezembro de 1987. Seu objetivo político era trabalhar a questão da moradia para as famílias de baixa renda e posteriormente trabalhar a eleição de um candidato a vereador que já estava previamente definido por este setor ligado a Teologia da Libertação.

     

      Estas propostas foram sendo amarradas conforme iam sendo aglutinadas outras entidades ou comissões de moradores das áreas em litígios pela posse da terra.

 

       Nossa comunidade era entre as várias comunidades, a que mais tinha experiência no processo de organização e uma longa história de resistências. Este histórico era conhecido no meio político de esquerda e não contava com a participação do PT.  O PCB (Partido Comunista Brasileiro) e setores progressistas que ainda estavam no PMDB foram os pontos de apoio da comunidade nos primeiros enfrentamentos ocorridos a partir de 1982/83.

 

      A questão da moradia digna, e a luta pela posse da terra eram o dia a dia da comunidade que lutava contra várias tentavas de despejos. Vários deles promovidos pela própria Prefeitura de Florianópolis, inclusive na administração de 85/88, que na verdade era o chamado mandato tampão que pretendia escalonar as eleições em dois níveis, separando as municipais das estaduais e federais. O prefeito da cidade era o ex-Deputado Federal Edson Andrino.

 

… Com a saída programada do grupo de Sem-Tetos nós continuamos com nossa luta na busca de melhorias na comunidade e no aperfeiçoamento de nossas estratégias de luta.

 

       Ainda em 1988 ocorreram as eleições municipais. Neste período eu estava filiado ao PMDB. Durante a eleição eu apoiei a coligação PMDB/PCdoB, sendo os candidatos a Prefeito o Senador Nelson Wedekin, e a Vice-Prefeita, a Professora Anita Pires. O apoio que recebemos foi recíproco no pleito.

 

     Num encontro que tive com o Senador durante as eleições, eu coloquei as questões da nossa comunidade e pedi ajuda no sentido de buscar uma solução.  

 

      O Senador Nelson Wedekin se colocou a disposição da comunidade mesmo que não fosse eleito, até porque tinha mais seis anos de mandato como Senador da República.

 

      Como militante do PMDB eu participava das algumas reuniões do diretório municipal, do Estadual e das reuniões que eventualmente ocorriam no escritório local do Senador Nelson Wedekin, localizado no edifício APLUB no centro de Florianópolis.

 

       Nelson Wedekin representava a corrente mais a esquerda do PMDB. Junto com ele estava o Roberto Motta (Ex Deputado e preso político (PCB), o Dr. Darella, O Advogado Sandoval Barreto (sobrinho do ex Senador Jaison Barreto), O Ricardo Barattieri (ex-vereador PDT), O Murilo Canto (ex-Deputado e Sub-Chefe da Casa Civil do Governo do Estado com Pedro Ivo, Cassildo Maldaner) na gestão do PMDB. Além de outros nomes importantes do partido.

 

       Eu fora recebido em duas ocasiões pelo Cassildo Maldaner quando este tinha assumido o governo do estado logo após a morte do governador Pedro Ivo Campos.

 

      Numa ocasião, foi informalmente durante um acampamento que havíamos montado em frente ao Palácio do Governo. Cassildo Maldaner veio pessoalmente sem nenhum protocolo conversar com os acampados.

 

       A luta pela posse da terra era uma questão que muitos partidos tentaram explorar eleitoralmente, algumas vezes apoiando e em outras enfatizando que acabariam de vez com aquela ocupação. Contrariando a lógica propagada por setores populares, eu recebia apoio sistemático do PMDB estadual em todos os sentidos. Lembro-me de um debate na antiga TV BV, eu participei frente a frente com o prefeito Esperidião Amim. A torcida do PMDB foi fundamental. Acho que me sai bem.

 

      Nós entramos o ano de 1989 com força total nas estratégias de luta.

      O dia cinco de março daquele ano foi um dia tenebroso para a comunidade, a prefeitura fez uma incursão com um grupo de fiscais, e iniciou a demolição de várias casas. Naquele momento eu estava trabalhando na praça XV de novembro no centro da cidade. Desempenhava naqueles dias a profissão de artesão.

     

      Em menos de quarenta minutos eu fui avisado por um morador da região o que estava acontecendo. Imediatamente retornei de carona com o mesmo, a tempo de assistir a saída dos fiscais. O desespero foi grande para as famílias que tiveram suas casas demolidas.

 

      Nos jornais da cidade a noticia explode como um troféu para a administração.

 

     Florianópolis não era uma metrópole, no mais amplo sentido da palavra. A capital do estado tinha todos os aspectos de uma capital provinciana, de uma cidade do interior.

 

     Qualquer noticia repercutia com intensidade. Vimos nos canais de televisão e nos jornais o destaque que era dado ao acontecido.

       Vale destacar que a ação da prefeitura se estendera por toda a região sul do Campeche, incluindo aí residências fora da comunidade.

 

      Imediatamente após a retirada dos fiscais da SUSP (Secretaria de Urbanismo e Serviços Públicos), nós iniciamos a reconstrução das casas que se encontravam na comunidade.

     

     Num dos barracos demolidos havia uma família com nove integrantes. Juntamos um grupo de moradores e, foi reconstruído tudo “novamente” (anteriormente, aquela casa já tinha sofrido outra demolição). A participação da comunidade foi voluntária. A solidariedade entre os moradores sempre falava mais alto.

 

      Naquele mesmo dia eu reuni parte da diretoria para discutirmos sobre o acontecido.

 

     Aquelas ações pareciam orquestradas por parte da prefeitura. Periodicamente o município demolia uma casa aqui, outra ali, e assim ia aterrorizando varias comunidades na periferia da cidade. Eu sugeri a diretoria que deveríamos procurar a Comissão de Direitos Humanos da OAB.

 

       No meu entendimento estava ocorrendo uma grave violação dos nossos direitos a moradia. Não importava se o local estava sub-júdice ou não, a prefeitura declaradamente estava tomando as dores de um empresário local.

      Como poderia o município comprometer recursos humanos e materiais para descaracterizar uma comunidade em favor da família de Henrique Berenhausen?

 

       A questão ambiental não poderia ser o motivo maior, afinal, boa parte do Campeche estava edificada nesta condição. Áreas nobilíssimas da cidade estavam edificadas em Áreas de Preservação Permanente. Não que fossemos a favor de uma ocupação desordenada.

 

      Na verdade a questão da moradia é até os dias de hoje uma realidade que por enquanto nenhum governo apresentou uma solução plausível. Em muitos casos o Plano Diretor de Balneários virava um balcão de negócios privados da classe política e, estava se tornando uma verdadeira colcha de retalhos para atender as demandas dos currais eleitorais.

 

       Literalmente eram aplicados dois pesos e duas medidas.

 

      Naquele mesmo instante tramitava nas entranhas dos gabinetes do executivo municipal a aprovação de projetos de condomínios fechados na mesma área que ocupávamos, ou seja, enquanto a justiça não definia quem eram os verdadeiros donos das terras, a prefeitura agia como se essas deles fossem, mesmo estando naquela condição.

 

      Até os dias de hoje eu ainda fico remoendo no meu gene mental, se houvesse de fato moralidade naquela administração, a prefeitura ficaria de fora daquele entrevero político e jurídico, já que a mesma não apresentava solução definitiva para o caso. Ética e moralmente teria aguardado a decisão da justiça pra decidir pelo sim ou pelo não da aprovação dos condomínios fechados que antecipadamente aprovara.

 

     As aprovações da construção dos condomínios que estavam sub-júdice, mostrou claramente, anos mais à frente, que a administração da cidade era usada para interesses privado. A defesa que faziam dos empresários, eram dissimuladas através das ações demolitórias que executavam na comunidade.

 

       Por conta desta ação, a cidade se envolveria em débitos de milhões de reais para interesse privado. De verdade mesmo, este fato se caracterizou em uma ação de danos cessantes/perdas e danos, movidos pela família de Henrique Berenhausen, que se apresentava como prejudicada.

 

       A justiça catarinense também tinha no seu topo um integrante da família de Henrique Berenhausen. Tratava-se na verdade do Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, o Juiz Tico Brae Fernandes, casado com a juíza Lili Eufrida Fernandes, filha do ex-jogador de futebol do Figueirense, e médico, Laudares Capella Fernandes, que por sua vez era casado com a filha de Henrique Berenhausen, (acho que é isso mesmo).

 

       Podemos entender que era a justiça catarinense com as mãos na imoralidade, ao gerir direitos em causa própria.

 

      Para que se entenda melhor, a área está localizada frente para o mar e, era fruto de ocupações irregulares que fora adquirida durante a gestão do então advogado Henrique Berenhausen, quando este foi um dos Diretores do extinto IRASC (Instituto de Reforma Agrária de Santa Catarina).

 

      Enquanto presidente do órgão estatal apresentou um projeto de reflorestamento para aquela região arenosa. Algum tempo depois, as requereu como suas, após ter plantado milhares de mudas de eucaliptos e de pinu´s.

 

Segundo o comentário de moradores antigos, este fato ocorrera no final dos anos 1958/1962. Ainda conforme os comentários, o serviço foi executado com mão de obra carcerária.

 

       Boa parte da área requerida pelo grupo Ilhas do Sul e pela família de Henrique Berenhausen estão em Áreas de Preservação Permanente (APP) e, foram completamente descaracterizadas com a conivência do poder público, ou seja, foram literalmente tomadas da união federal com esta parceria ideológica.

 

      Na comunidade nos continuávamos apreensivos com os acontecimentos que estavam ocorrendo pela cidade. Num grupo de moradores fomos até a sede da OAB levar o acontecido. O Então presidente Paulo Henrique Blasi se comprometeu a dar uma solução jurídica para o caso.

 

      Saindo da OAB fomos ao endereço que tínhamos do CAPROM. Na verdade, desde os acontecimentos de 1988 que não tínhamos feito contato em nível de diretoria com aquela ONG.

 

     Fomos recebidos pela Ivone Perassa e colocamos em detalhes o acontecido e, as providencias que pretendíamos tomar. Sinceramente, eu tive a impressão de que já estavam nos esperando.

 

      Naquele mesmo dia nos reunimos com o Padre Wilson Groh e agendamos uma reunião com a ONG e outras comunidades atingidas por aquelas ações demolitórias.

 

      A primeira reunião aconteceu ali na sede da ONG, uma segunda se sucedeu no mesmo local.

      Eu me lembro que ao entrar na sede da ONG, me deparei com a Elaine esposa do Toni (que era o jagunço do Álvaro), pensei ser aquele encontro, uma mera coincidência.

 

      Ledo engano, a Elaine fazia parte da diretoria da ONG. Até aquele momento eu me mantivera calado frente aos fatos acontecidos meses antes, e que, envolviam ela e seu companheiro Toni.

 

      Eu pensava comigo: Como poderia uma pessoa que despejava famílias, que se envolvia em ações criminosas a serviço do seu patrão, estava ali supostamente defendendo aqueles que odiavam? Enfim, senti-me agredido com a sua presença.

 

      Passei pelo corredor da ONG e vi ali na parede duas fotos do Lula e apontei o dedo para um dos folders e, falei debochando em alusão ao seu amigo Esperidião Amim: Quem vai ganhar as eleições será “Paulo Maluf” (ambos do PDS), falei umas duas vezes e sai rindo. Eu vi claramente que tinha atingido o meu objetivo, ela tinha ficado completamente deslocada. Outros que ali estavam não entenderam o acontecido, mas enfim, deixei ali o meu descontentamento com a presença daquela mulher.

           

        Após uma reunião formal entre nossa entidade e a ONG, decidimos conjuntamente ampliá-la com a participação de outras entidades e comissões de moradores das áreas em litígios pela posse da terra.

      

       Coube a uma comissão formada por integrantes daquele coletivo, agendar uma reunião com a prefeitura municipal.

 

       Após um impasse no primeiro encontro com a prefeitura, foi formalizado um segundo mais ampliado, contando este, com a participação de órgãos do governo estadual e inclusive do federal, incluindo aí a CASAN, SEHAC, CELESC, COHAB, CEF, IPUF, SUSP entre outros.     

    

Enfim, era uma tentativa de tornar os encontros mais formais para a obtenção de resultados mais concretos (?).

 

       Semelhante a Comunidade de Areias do Campeche, outras comunidades viviam no escuro, não tinham saneamento básico, postos de saúde, creches, postos policial, nem vagas suficientes nas escolas existentes para os filhos dos moradores, além de iluminação pública, transporte coletivo e tantos outros direitos sociais.

 

      Este fato deu maior dimensão às discussões, que, teoricamente se desenvolviam num nível mais elevado (?).

           

…Não era nada disso, quanto mais se discutia, mais a prefeitura colocava obstáculos políticos para solucionarmos os problemas. Em alguns momentos alegava a questão jurídica dos litígios (não pensava assim com os empresários) e em outros a falta de projetos específicos na cidade. Jogava o problema para o legislativo municipal e assim a roda girava…

 

       No meu entendimento, aquilo ali já estava parecendo uma ação orquestrada com o objetivo de ganhar o tempo do nada…

 

       A ONG CAPROM continuava firme querendo abraçar o mundo local (sic) propondo a criação de uma política habitacional para o município.

Pense num engodo…

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        Com a promulgação da Carta Magna em outubro de 1988, eu havia recebido do Senador Nelson Wedekin mais de 200 exemplares originais da Constituição Federal aprovada. Meu primeiro passo foi distribuí-las na comunidade e nas imediações.

 

       Dois artigos da nova constituição me chamaram a atenção. O primeiro foi referente ao Habeas-Data (um direito do cidadão que obriga o estado a lhe entregar informações referentes à sua própria pessoa, caso este lhe negue. No meu caso, tenho a favor do processo referente ao meu nome de Carlos Alfredo…).

 

       O Outro foi “Mandato de Injunção” referente à igualdade de direitos de um cidadão que eventualmente lhe é negado pelo estado etc…

 

      Certo dia durante a estada do Senador em Florianópolis, fui ao seu escritório local onde coloquei a questão da energia elétrica na comunidade. Comentei com o Senador que a prefeitura dificultava nosso acesso a várias benfeitorias.

 

Lembrei a ele a questão do mandato de injunção que tinha visto na nova constituição, e ele disse que juridicamente havia uma possibilidade concreta de sua aplicação.

 

O Senador disse também que iria nos ajudar nesta questão. Enfim, sai de seu escritório convicto de que o nosso problema seria prontamente resolvido.

 

      Eu sempre tive a opinião de que alguns parlamentares ou personalidades públicas sentem-se muito bem quando são “cobrados” ou procurados para a solução de problemas de ordem coletiva. Neste caso, o Senador Nelson Wedekin, eu percebia que gostava de ser “exigido” nessas questões. Ele prontamente atendia os nossos pleitos que eram socialmente justos.  

 

          …Na comunidade, durante uma assembléia extraordinária, nós tínhamos tirado o indicativo dos moradores, de que nossa prioridade número um seria caracterizar a comunidade como legitima, no sentido de trazer todas as benfeitorias possíveis para nossa permanência definitiva.

 

       Nesse sentido, eu encabecei uma comitiva, e nos reunimos várias vezes com a diretoria da CELESC (Companhia Estadual de Energia Elétrica). Nosso primeiro encontro foi agendado pelo Senador Nelson Wedekin que circulava com extrema desenvoltura em todas as instancias da vida política do estado.

 

      O Senador Nelson Wedekin tinha assumido um compromisso pessoal comigo quando disse durante uma conversa: Eu vou colocar energia elétrica pra vocês na comunidade. Eu confiava no que estava dizendo. O Senador Nelson Wedekin tinha uma longa historia de lutas e resistência contra a ditadura militar.

 

O Senador foi preso político e defensor ferrenho dos perseguidos pelos militares. No estado de Santa Catarina, defendeu vários militantes tirando-os das garras da repressão em episódios conhecidos aqui no estado como “Operação Barriga Verde”.

 

      Ele também se comprometera a nos ajudar a construir a sede social da entidade e uma creche comunitária. Wedekin me passou informações importantes sobre as verbas disponíveis para entidades na extinta SEHAC (Secretaria Especial de Habitação e Ação Comunitária).

 

       Diferente dos dirigentes da ONG CAPROM, o Senador Nelson Wedekin nos dava uma atenção no sentido amplo da igualdade, ou seja, conversava e fazia as tratativas com extrema seriedade, com respeito a nossa condição de líder comunitário. Ouvia-nos e sugeria encaminhamentos sem muitas “milongas”.

 

      Discutimos o assunto na comunidade e elaboramos um projeto de construção de uma creche comunitária e da sede associação. Feito isto, entregamos ao Senador que solicitou ao governo federal, via Senado da República.

 

      O nosso projeto havia sido aprovado pelo governo federal, parte das verbas foi alocada, mas infelizmente a interferência do Prefeito Esperidião Amim impediu a liberação, já que estas teriam que passar sobre o aval do município. A área estava em litígio argumentou o filhote da ditadura. Essas informações nos foram passadas pelo Senador.

 

      Mas o engraçado, que para aprovar os projetos dos condomínios pretendidos pela família de Henrique Berenhausen, o entendimento do prefeito tinha sido outro.

 

Este “modus operandi” do representante mor do período da ditadura no estado, já era conhecido.

     

      Nossa luta por melhorias continuava. Depois de uma reunião com o ex Diretor Nogert Weist, fizemos outras reuniões com o Diretor de Planejamento e da Diretoria de Distribuição da empresa de energia, Dr. Mauro Candemil. Logo a seguir, já no campo das execuções da obra, reunimo-nos com o Superintendente Regional do Vale do Rio Tijucas (que engloba 16 cidades), o engenheiro Gazzola e com o engenheiro Sergio Prado. Ambos se empenharam no projeto de forma emergencial.

 

     Finalmente chegou o momento tanto esperado, porém, houve um impasse no tocante a uma das ruas do projeto. Nós havíamos sugerido aos técnicos da empresa que a rede entra-se por uma rua existente ao lado da comunidade. Essa rua pertencia de fato ao condomínio Araucária, um dos mais de uma dezena que haviam sidos construídos com a retirada dos moradores durante a primeira fase da ocupação. Esta rua era toda lajotada, porém não havia casas e nem energia elétrica. Para os donos do imóvel, os custos de uma rede seriam elevados.

 

      Imediatamente após percebermos este impasse eu convoquei uma assembléia extraordinária dos moradores e discutimos o assunto.

 

        O condomínio era cercado, mas não havia um portão de entrada, era completamente aberto na parte frontal. Alguém ali na comunidade já tinha aberto o bico para os proprietários. Este fato nos confirmou mais a frente, tratava-se de um morador da comunidade que trabalhava como vigia ali naquele empreendimento, e pasmem, mantinha ali um apartamento anexado abaixo de uma caixa d água enorme de concreto.

 

      A idéia da CELESC era iniciar as obras numa sexta-feira já deixando todos os postes colocados no local, mas não foi possível naquele dia. No sábado subseqüente, os proprietários do condomínio começaram a construir um portão de ferro. Armaram uma estrutura grande de concreto e já estavam quase concluindo quando chegamos ao domingo.

 

      A comunidade enfurecida começou a derrubar tudo com marretas, pontapés, os mais fortes puxavam as ferragens e cavavam o chão com as pás para facilitar a retirada daquilo que estava se tornando um obstáculo para o nosso acesso a energia elétrica. Em menos de quinze minutos estava tudo no chão.

 

       Quando já estávamos nos retirando, surgem duas viaturas da policia militar. Um Sargento desce e pergunta: Quem é o líder da comunidade? Eu prontamente respondi: Sou eu sargento, meu nome é Carlos Alfredo, este fato quase passou despercebido, se não fosse um morador que riu pensando que eu estivesse mentindo para o policial.

 

      O policial me convidou para entrar na viatura, e foi o que fiz. Disse para os moradores revoltados que eu estaria sendo levado para o posto policial existente ali no Morro das Pedras.

 

      Não demorou mais que cinco minutos e começou uma gritaria em frente ao posto e pediam a minha libertação. Os donos do condomínio estavam chegando ao local e foram vaiados pela comunidade ali reunida. O diretor do grupo ilhas do Sul dizia para o Sargento que eu teria de pagar o prejuízo do portão. Queria que eu assumisse o compromisso de construir-lo novamente.

 

      Que a comunidade entra-se com a mão de obra e ele daria o material. Com essa proposta fantasiosa eu retruquei a ele dizendo: Pagar o quê? Você está cego? Não consegue ver que com a entrada da energia pelo seu condomínio vocês serão beneficiados? Você sabe os custos da colocação daqueles postes que passarão pelo condomínio?

 

      Lá fora a comunidade gritava: Liberdade! Liberdade! Liberdade!

      O Senhor Luis Carlos que era o diretor do grupo Ilhas do Sul olhou para o policial e disse:

      Não tenho nada mais a reclamar e, por favor, senhor Carlos Alfredo, eu redigirei um documento que dê o assunto por encerrado, a seguir levantou-se e estendeu a mão para mim, eu também fiz o mesmo.

 

      O Sargento levantou-se e me disse, você pode ir embora, está tudo resolvido.

 

      Do lado de fora os moradores vibraram com a nossa vitória. A energia elétrica se tornaria uma realidade naquela comunidade, sofrida e paupérrima de então.

 

      Infelizmente a alegria de pobre dura pouco.

 

      Na segunda feira pela manhã a CELESC iniciou as obras com uma empresa terceirizada. Eles começam a cavar e a colocar os postes rapidamente. O trabalho estava bem sincronizado pela parte da manhã.

 

      Eis que no inicio da tarde surge os fiscais da prefeitura e dizem que a obra estava embargada, que a CELESC não poderia colocar aqueles postes ali. E que a área estava em litígio etc.

 

      O prefeito Esperidião Amim tentou recorrer juridicamente, mas foi derrotado. O governo do estado mandou as obras seguirem adiante…

     

      Já fazia cerca de dois meses que rede de energia elétrica estava implantada na comunidade, mas, somente dois moradores tiveram condições de instalá-la em suas residências. Por conta disso, recorremos novamente ao senador Nelson Wedekin que sugeriu entrarmos em contato com engenheiro Gazzola, gerente regional da empresa.

 

      Após duas reuniões, a CELESC enviou uma assistente social para que fizesse um levantamento socioeconômico. Com os resultados nas mãos, o serviço social da empresa de energia reativou um antigo projeto, que previa a instalação completa da fiação interna, e de postes residenciais para as comunidades de baixa renda. Fomos contemplados com este trabalho social em cerca de 50 barracos.

 

      O projeto da CELESC consistia em que os moradores teriam os custos descontados em 18 parcelas fixas e mensais, sem juros ou correções, tornando este trabalho uma espécie de investimento social. Com aquela ação, a comunidade de Areias do Campeche estava realmente saindo das trevas, que já durava a anos de escuridão.

 

      Eu sempre tive a idéia comigo que a prefeitura na gestão de Esperidião Amim/Bulcão Viana defendia os interesses da família do advogado Henrique Berenhausen.

 

Isso se confirmou comigo quando eu soube que o advogado fora vizinho do então também prefeito Bulcão Viana (já falecido) num imóvel no centro da cidade.

 

      Independente deste quesito, os Amim (prefeito e prefeita), nunca nutriram simpatias pelo sul da ilha. Eles arrecadavam os impostos ali e os aplicavam no centro nobre da cidade e no norte da ilha onde tem propriedades.

 

Este fato me fazia lembrar o já falecido ex-governador do Estado de São Paulo, Orestes Quércia, que fora prefeito da cidade de Campinas em São Paulo.

 

       Naquele caso, ele havia comprado áreas de terra numa parte da cidade e quando foi prefeito direcionou os investimentos para onde tinha suas propriedades. Ele ficou milionário em poucos anos por conta da valorização advinda da infra-estrutura por ele construída.

 

      Até aquela data o PT era completamente ausente nessas questões ligadas a luta da terra nas cidades. Até porque se alicerçava unicamente nos sindicatos estatais e nada mais. Assim faziam em várias partes do Brasil.

 

Meu nome é Carlos Alfredo…

Caro leitor,

 

Vou tentar colocar aqui o mais detalhado possível, tudo aquilo que aconteceu comigo, tudo o que vivi desde a minha infância de menor abandonado, de menino de rua e de ex-interno de colégios públicos.

 

Vou trazer a tona como nunca tinha feito antes, as historias reais da minha militância clandestina, do período que estive no Exercito e das minhas fugas na luta pela sobrevivência durante o período mais obscuro da história política do Brasil.

 

 E, pasmem, sobre o atentado contra a minha vida que sofri logo após a abertura política.

 

 A minha história de vida não é diferente da história de outros militantes anônimos que viveram aquela época.

 

Mais do que isso, vou comentar e testemunhar as intrigas de um pressuposto caráter ideológico de uma luta eleitoral, mentirosa e xenófoba de classe, que se estabeleceu a serviço do pensamento burguês. 

 

Não sou nenhum escritor, na verdade apenas um aficionado pelas letras, por isso caro leitor, quando você encontrar algum erro dê-me um desconto, afinal, neste quesito eu sou apenas um aprendiz.

 

Estarei ao longo dos próximos meses escrevendo a continuidade deste artigo biográfico, que não termina nesta publicação.

 

Na seqüência das publicações, também estarei colocando aquilo que popularmente chamamos de “dar o nome aos bois”, ou seja, nominar os atores desses acontecimentos. 

 

Deixo claro que não autorizo a reprodução do todo ou de partes deste artigo por mim escrito, salvo, se eu mesmo autorizar em documento próprio, por isso lhes aconselho a memorizarem o endereço do meu blog, ou a incluí-lo em seus favoritos se assim o desejarem. 

 

 Qualquer tentativa de burlar os meus direitos autorais será aplicada rigorosamente o que é estabelecido nas leis brasileiras.

 

O conteúdo original desta publicação está armazenado em mídias removíveis e em HD´s para a garantia de sua originalidade, sendo todos assinados por mim.

 

Também me reservo no direito de fazer as correções e alterações que entender necessárias, uma vez que se trata de publicação em blog, ficando as mesmas armazenadas na condição do “antes” e do “depois”, no seu local de origem.

 

Pretendo com toda modéstia, se assim surgir à oportunidade, transformar estes escritos em um livro biográfico.

 

Há muito tempo que eu estava amadurecendo a idéia de escrever uma espécie de autobiografia. Afinal, não são somente os “importantes” (sic) que tem este direito.

 

      A minha vida sempre foi de altos e baixos, de tempestades e de calmarias, de tristezas e alegrias, e de felicidades de fato. E, eu sempre vivo com intensidade.

Eu sou de um temperamento bastante calmo, mas, na prática, me considero um alegre chorão.

 

      Apesar de tudo, eu tenho aqui comigo guardado, e segredado no meu foro intimo, no meu coração, e no gene mental da minha consciência política, algo que considero de perfil doentio, xenófobo, criminoso e oportunista.

 

      Por isso, resolvi trazer a tona para conhecimento público. Sei que isso não poderá mudar aquela arvore que já nasceu torta, mas servirá de alerta para o futuro.

 

      Poderia se assim o quisesse fazer, levar as barras da justiça burguesa, este “algo”, que havia registrado, e que por conta do objetivo maior, abandonei-o para posterior julgamento.

 

      Estávamos em plena efervescência das lutas sociais dos primeiros anos, logo após o término da ditadura militar.

 

      Todos nós temos uma historia de vida que em muitos casos precisam ser contados, não somente pela sua importância histórica, mas também pelo fato de ter um espaço no tempo da nossa vida.

– Mas quem sou eu afinal?

 

– Será que sou aquele cara que pensam que conhecem ou querem que eu seja?

– Será que eu mesmo, na minha ingenuidade e na minha condição social projetei esta imagem, e ainda, sem me preocupar com o que pensariam, ou, com os eventuais resultados de tudo isso?

 

      Fica cômodo dizer que conhecemos “alguém” apenas porque a encontramos algumas vezes. Conhecer de fato uma pessoa é outra coisa (sic).

 

– Ora, nós somos aquilo que queremos ser e, nada, além disso, mesmo.

     Não aceito e não me conformo com o que sutilmente foi apresentado diante da minha realidade, e daquilo que realmente sou.

 

      Sem a menor dúvida, atitudes oportunistas com objetivos de desmistificar, ou simplesmente de vender uma imagem do qual não é nem de longe minha semelhança enquanto sujeito social.

 

– Será isso uma falta de sintonia com a minha, e com nossa existência enquanto classe social?

 

      Na verdade eu fico pensando, se ao menos estivéssemos vividos juntos, você realmente me conheceria.  Refiro-me apenas aquelas pessoas que cruzam o nosso caminho por um destino profissional, do acaso, na escola, na faculdade ou mesmo em movimentos políticos e sociais como os vários que vivi, respiro e transpiro.

 

      Eu não poderia estar pensando diferente se não estivesse sido julgado diferente.

 

      Ora, o fato de termos convivido momentaneamente uma situação, não pode ser objeto do “eu te conheço” ou simplesmente “eu conheço ele”.

– Você me conhece de verdade?

 

– Eu diria que não, simplesmente por não termos vividos juntos cada momento de minha vida, que, aliás, por muitos anos esteve à deriva de acontecimentos do qual me deixei levar.

 

     Desde a minha infância de judeu pobre que sou movido por um sentimento de contestação contra as injustiças sociais, do modo burguês de viver. Modo este, que não enxerga o seu semelhante, que não tem a capacidade de olhar o seu próprio umbigo.

 

      Se perfeito fossem, não estariam criando regras sociais que lhes protejam no cerne da sua individualidade.

Apêndices da burguesia

Não obstante, cruzam o caminho de agentes sociais de fato, discursando e manipulando um pressuposto objetivo coletivo, que, através de ONGs dissimuladas e de partidos de essência burguesa, escondem no seu âmago os verdadeiros interesses pessoais de objetivos privados.

      Eu diria que conheci algumas ONGs que eram verdadeiras catapultas eleitorais de interesses particulares dos seus mentores.

      Nas circunstancias dos fatos durante as lutas nos movimentos sociais recentes, pra mim, ficou evidente que os fatores ideológicos que propagavam, não passavam de artimanhas que ocultavam os seus verdadeiros amigos de um cenário previamente montado, que era naquele momento, o cerne do seu arco ideológico de sempre.

      Basta olharmos no presente os arcos das alianças eleitorais que governam este país e, se fazem presentes nos processos eleitorais aqui no estado de Santa Catarina, principalmente na Capital. Os inimigos de ontem (?), são os amigos de hoje e de sempre.

Teologia da Mentira

 

      Eis aí a camaradagem desenvolvida entre os velhos e os jovens dirigentes partidários da falsa esquerda, dos igrejeiros e dos “falsos pobres” com os velhos coronéis representantes dos partidos camaleões remanescentes da ditadura militar.

      A igreja católica sempre foi um instrumento de manipulação a serviço da sociedade burguesa e do imperialismo internacional. Ela divide-se em duas alas, a secular e a progressista.

      Infiltrada, busca através de sua participação nos movimentos sociais, o objetivo maior de se eternizar enquanto instituição. Na verdade, é a velha igreja católica e anticomunista, dos padres pedófilos, e dos inquisitores mentirosos, tentando sobreviver com as mudanças no mundo.

      Ora, a sua opção pelos pobres a partir da Conferencia Episcopal Latino americana ocorrida no ano de 1972 na cidade de Puebla no México, é conversa para inglês ver no mais amplo sentido da palavra, um verdadeiro engodo ideológico. 

      Ai está à reforma agrária defendida pelos apêndices do capitalismo religioso, no marco capitalista da exploração de classe.

      Defendem com unhas e dentes o pagamento de milhões de reais para latifundiários e grileiros, dentro das suas políticas de perfil ideológico, enganador, e previamente definido.  Assim fazem também nas lutas políticas urbanas quando defendem o modelo capitalista de reformas.

       Suas estratégias de luta estão a anos luz dos interesses vitais da classe trabalhadora, caracterizando-se como objetivos “oficiais” do clero excepcionalmente pedófilo e pernicioso.

      As suas ações políticas, manipuladoras e criminosas, representam o fortalecimento do caráter democrático-burguês de viés capitalista das lutas do campo e da cidade.

      Mais do que isso, tornam-se uma alavanca para a perpetuação das injustiças sociais, ao defenderem o modelo capitalista de reforma agrária.

      Esse grupelho de teólogos católicos incrustados nos movimentos sociais está comprometido até a medula óssea com a eternização de sua instituição, maquiavélica e inquisitória.

    Essa ingerência histórica também representa indubitavelmente uma vertente oportunista e anticomunista, baseada na teoria “exegética” mentirosa da opção pelos pobres.  Eis ai o canto de sereia trombeteado pelos capitalistas de bata.

      Os grandes depósitos de terras ociosas que aguardam valorização para a especulação imobiliária são os seus aliados ocultos.

       Se no sistema capitalista brasileiro expresso na carta magna, a terra tem de cumprir a sua função social, a expropriação é a medida certa.

       Historicamente são todos velhos amigos sentados em poltronas diferentes, com discursos diferentes, mas nitidamente, com objetivos siameses. 

 E, o povo?

 

Foda-se… São inocentes úteis para os interesses do pensamento burguês do qual a corja representa.

 

      Não foi obra do destino esta impertinência que desenvolvi no gene mental da minha consciência política.  

 

      Mas como é sabido de todos, tudo tem algum começo e um preço, e o resultado disso, talvez nunca saibamos, mas eu vou viver na busca eterna da justiça social.

 

Não tive e nunca terei medo de lutar por aquilo que considero moral e socialmente justo, de lutar pelo socialismo na sua plenitude, e mesmo que por incompreensão dos que nos cerca, eu coloque minha vida em risco como em outras vezes.

 

      Eu me lembro muito bem, na verdade, desde que passei a me ver como elemento vivo, desde quando me enxerguei como um ser racional e, por conta disso, vou tentar colocar alguns focos daquilo que muito pouco eu vivi contigo, e intensamente vivi comigo mesmo.

 

… Era uma casa amarela, tinha várias camas, talvez uns quatro beliches. Éramos umas três ou quatro crianças e alguns adultos, talvez duas mulheres e um homem.    

       Sinceramente, eu não me lembro de ti naquela imagem que ainda vive dentro do meu gene mental, preso nesta parte da nossa, ou da minha história que não consigo decifrar.

 

      Havia em frente da casa um moirão de pedra, tipo ao de paralepípedo com mais ou menos um metro de altura. Junto deste moirão tinha uma torneira onde algumas pessoas iam pegar água com baldes e canecos. Esta imagem me intriga.

 

Onde estava ou está localizada esta casa?

 

Que lugar é aquele?

 

      Sinto um vazio muito grande que paradoxalmente, ainda assim, aperta o meu coração, sempre que me vem esta lembrança. Estariam ali os indícios de meu cordão umbilical?

 

– Quem eram as pessoas que viviam na casa?

 

Estaria na minha memória a idéia de que ali seria uma espécie de creche ou a casa de algum conhecido daqueles progenitores que nunca conheci?

O homem, eu o chamava de tio, mas, as outras pessoas, eu não consigo dar a elas uma ligação comigo.

 

…  Estávamos num carro de boi que era puxado por duas duplas bem tratadas. O homem ao lado eu penso até hoje ser o meu avô. Tinha os cabelos brancos, lisos e compridos que chegavam abaixo dos ombros.

 

Ele conversava muito comigo, às vezes parávamos para comer rapaduras, tomar café e comer um tipo de carreteiro (arroz com charque).

 

Aquela viagem parecia interminável, duraram vários dias. Acho que eu estava sendo levado para algum lugar, porém, não consigo encontrar o ponto de partida.

 

      Este homem de cabelos brancos e lisos era do tipo índio, cor de cuia como eu, alto como os meus 1,76 de altura. Eu me sentia muito bem ao seu lado. Possivelmente eu tinha uns quatro ou cinco anos de idade.

 

 Seria ele meu avô ou o meu próprio pai?

 

…Eu estava lá naquele internato há algum tempo. Eram cerca de vinte crianças, a maioria abandonadas ou filhos de pais sem condições de criá-las, talvez o meu próprio caso. Ali existia uma cozinheira do tipo Alemã, bem alta e gorda, olhos azuis, cabelos lisos e de temperamento muito brava, e chamava-se Tereza.

 

       Essa mulher exercia o papel quase que de monitora, pois a verdadeira, era uma senhora que soube há uns anos atrás que havia falecido aos 92 anos de idade. Nós a chamávamos de “sinhazinha”.

 

Na verdade, esta sinhazinha era mãe daquela que conhecíamos como tia Emília. Talvez, esta sim a possível diretora daquele internato chamado “Lar São Domingos” que estava situado no Bairro Menino de Deus em Porto Alegre.

 

Tia Emília era como se fosse à mãe de todas as crianças que ali estavam.

 

      Certo dia tia Emília me disse, você está muito magrinho Carlinhos, coma este pãozinho com mel, você vai ficar mais alimentado.

 

      Tia Emília realmente conhecia cada um de nós que ali vivia. Todos os dias ela trazia alguma coisa diferente pra eu comer, e de fato, eu era muito magrinho, quase subnutrido.

 

… Estava trabalhando de cobrador de ônibus numa empresa de Porto Alegre, (foi um período muito curto nesse trabalho), O ônibus parou no bairro Azenha e subiu uma senhora gorda que já não era tão jovem como antes.

 

Nós fazíamos a linha “Glória via Embratel”, e seguramente ela desceria no morro da Embratel.

 

Ao passar na catraca Dona Tereza exclamou:

Oi Carlinhos tudo bem?

 

Lembra de mim?

 

De fato, me lembrei prontamente das vezes que ela me batia com uma pá de mais ou menos um metro de comprimento que usava para fazer as paneladas de “polentas” e mingaus para nós.

 

      Lembro-me que um dia ela havia colocado uma barata morta dentro de um copo de mingau de farinha de milho.

 

      Eu emborcava o copo goela abaixo e no fundo encontrei a barata, cheguei a senti-la na minha boca, meu estomago saltou inteiro pra fora, vomitei até a minha alma.

 

Dona Tereza me olhava e morria de rir, quase se urinava de tanto rir. Dona Tereza me parece hoje que na época teria uns 35/40 anos. Depois desta cena inesquecível, me deu uma “tunda” com aquela pá.

 

Dizia: Seu ordinário vai limpar o chão que está sujo com tua porcandade. Puxava a minha orelha, me dava tapas na cara e puxava os meus cabelos. Ela era assim com várias crianças. Enfim, criei uma triste lembrança daquela mulher.

 

– Respondi a ela: Não, não lhe conheço.

 

– Então ela disse: Você não se lembra de mim Carlinhos? Não se lembra de mim lá do Lar São Domingos?

 

– Eu voltei a dizer: Não lhe conheço e, por favor, vai passando a roleta que tem gente querendo passar.

 

Eu sei que é você Carlinhos, você não mudou nada mesmo.

 

Eu voltei a lhe dizer: Não lhe conheço senhora, e, por favor, vai passando.

 

      Ela me olhou entristecida e saiu mais pra frente do ônibus lotado.

 

De vez em quando ela me olhava e abaixava a cabeça. Eu a havia reconhecido, mas o rancor que sentia daquele acontecimento me fez desprezá-la, seguramente.

 

Menos de trinta minutos e ela desceu no morro da Embratel, local que provavelmente residia. Eu nunca mais a vi.

 

      Mas sinceramente, se o tempo volta-se, e, se fosse possível novamente aquele momento, eu diria: Tudo bem Dona Tereza, estou lembrando muito bem da senhora sim. Como vai, tudo bem?

 

… A Fazenda era muito bonita, havia um enorme cata ventos que parecia uma torre, típico aquelas que existiam no interior do Rio Grande do Sul (hoje parecem que são raras, quase não as vemos mais).

 

      Naquele dia eu estava de aniversário, lembro que uma senhora que morava na própria fazenda, deu-me de presente uma drusa de pedras de ametista, um recorte de uma fazenda de brim toda enxadrezada e uma varinha de marmelo.

 

A festa foi bastante simples, mas não faltaram o bolo e sucos. Eu perguntei para aquela senhora porque eu tinha recebido aquela varinha de marmelo de presente?

 

       Pense numa varinha de marmelo, eu nem precisaria ter perguntado…

 

      Estávamos nos anos 50, e aquela fazenda, eu me lembro, ficava em Santiago do Boqueirão, minha terra natal.

 

     Viviam ali na fazenda várias pessoas. Lembro-me do Ataliba e de outra tia que sentia ser verdadeira, mas, não recordo o seu nome.

 

Tenho a impressão de ter nascido ali naquele local, já tentei ligar esta lembrança com a viagem que fiz numa carreta puxada por bois, acompanhado de meu pai ou de meu avô, mas também não consigo ligar os fatos.

 

      Ali na fazenda havia um rapaz bastante familiarizado que periodicamente aparecia por lá fardado, ele era filho da casa e eu o chamava de tio Brasil, provavelmente o seu nome de guerra.

 

      Santiago é uma cidade do Centro Oeste do Rio Grande do Sul, que fica a uma centena de quilômetros da fronteira com a República Argentina.

 

Ali na cidade existe até os dias de hoje, mais de uma dezena de unidades militares de todas as armas do Exercito Brasileiro.

 

… Íamos dentro de um automóvel bem conservado e bonito, era pelos idos dos anos 60, em volta da estrada, havia muitas arvores mato fechado mesmo, a estrada estreita por vezes passava entre os prados.

 

      A fazenda era bastante grande, ficava no município de Barra do Ribeiro no Rio Grande do Sul (aquele município onde as campesinas destruíram um laboratório de plantas bandidas).

 

Na fazenda havia muitos cavalos, gado e outros animais. Havia também uma escola lá dentro, e foi lá que eu fiz o 1º ano do primário.

 

Esta fazenda existe até os dias de hoje, e chama-se “Fazenda São Pedro”

 

… Estávamos a cavalo e eu me lembro que caí, mas logo me levantei, olhei para o lado e avistei um ninho grande de Emas? Naquele ninho havia mais de uma dezena de ovos, e eram grandes mesmo. O capataz que tinha uma faca e um revolver na cintura me disse: Sobe na égua, senão a avestruz vai correr atrás de ti.

 

– Eu estava na cocheira dos cavalos, no chão, várias pombinhas, imediatamente fechei a porta que era inteira sem frestas. Eu pegava os estercos mais firmes dos cavalos e atirava nelas, até que acertei uma que caiu. Quando me aproximei, ela voou, e neste momento alguém me chamou: Sai daí menino arteiro, vai já pra dentro de casa.

 

      Quase todos os sábados eu escutava um programa na Radio Guaíba. O programa tinha um nome vinculado ao “Brim Coringa” e apresentava músicas gauchas.  Judith escutava assiduamente este programa, e de camarote, todos que estavam a sua volta. Ela era uma senhora de mais ou menos 60 anos, simpática, bonita e elegante ao se vestir.

 

      Judith era brava, mas também tinha o seu lado generoso, afinal, acabara de adotar um casal de irmãos, eu e a Maria.

 

      Maria tinha mais atenção por parte dela, talvez por ser menina. A vida na fazenda passou pela minha cabeça como o “Cometa Halley”.

 

      Tenho guardado em meu coração e na minha mente as boas lembranças de outra “sinhazinha” que vivia lá na fazenda São Pedro e me tratava como um verdadeiro filho.

 

… Estava caminhando no pátio do Educandário Rural Nehyta Martins Ramos quando repentinamente levei um soco no lado direito do rosto. Foi um menino com o apelido de “barata descascada” que havia me agredido. Não tive nem tempo de reagir, levei uns sopapos e tive de sair correndo pra não levar mais. Ali estava mais uma das instituições pelo qual eu havia passado.

 

      Tentei varias vezes pegar o “Barata” de “porrada”, mas incrivelmente o sujeitinho tinha se tornado meu amigo e pedido desculpas pelo acontecido. Disse-me ter sido um engano gerado por uma desavença entre ele e um grupo de menores, enfim, ficou daquele jeito mesmo.

 

       Antes, porém, eu passei pelo Instituto São Joaquim, na verdade, eu estava internado ali quando sai uma primeira vez e fui adotado pela família da Judith. Depois de ter sido devolvido ao mesmo Instituto, fui transferido para outro colégio ou abrigo de menores (?), ele tinha o nome de Instituto Padre Cacique.

 

Definitivamente eu havia sido entregue novamente aos cuidados do estado

       Do Instituto Padre Cacique eu tenho vagas lembranças.

 

       Nesta instituição eu fiquei apenas algumas semanas. Durante minha permanência transitei entre as oficinas de carpintaria e de tornearia que eram utilizadas para a formação profissional dos internos, com idade já na adolescência. No meu caso, fui encaminhado para o Instituto Nehyta Martins Ramos, por não estar com idade adequada. Pareceu-me que ali era um abrigo para menores infratores, o que não era o meu caso.  

     

       O tempo foi passando e eu fui crescendo ali no Nehyta Martins Ramos. O “Aranha” era um guri forte que batia em qualquer um no internato. O cara era uma massa muscular pra idade dele.

 

Na verdade Ali no Educandário tínhamos que estudar pela manhã e a tarde ir para roça, para os chiqueiros, o aviário, para o pomar ou mesmo para a horta, e o Aranha era o que pegava os serviços mais pesados ali naquele Educandário Rural.

Política pública

 

      Um fato que até hoje me chama a atenção como modelo de política publica para menores, foi à produção de sonhos e pasteis que aquele tipo de Educandário produzia. Todos os finais de semana eles relacionavam um grupo de menores que saiam pelo bairro vendendo a produção da semana. Nós vendíamos também batatas- doce, aipim, cenouras, abóboras, melancias e, outras frutas e legumes, além de frangos vivos.

 

       A horta, o aviário e os pomares do Educandário eram realmente um referencial para qualquer tipo de instituição pública para menores. A direção do Educandário fazia o pagamento semanal de comissões em dinheiro vivo para cada um que fosse vender os produtos. Isso era a forma que encontravam para incentivar e arrecadar fundos para o educandário.

 

       Na verdade esta renda era utilizada para financiar ou custear as nossas festas juninas, de páscoa e principalmente as dos natais e finais de anos que pra mim são inesquecíveis.

      Eu nunca recebi no Educandário Rural a visita de quem quer que seja (não tinha parentes), mas, eu nunca vou esquecer os presentes de natal que recebia. Alguns internos recebiam a visita dos seus pais e familiares. Eu já estava acostumado com aquela situação.

 

      Algumas vezes um ou outro amigo me convidava para ficar juntos de sua família e, eu ia sem nenhum tipo de constrangimento. Já estava vacinado contra a solidão. Quando chegavam as festas, juninas ou natalinas, o Educandário se movimentava por inteiro nos preparativos. Ficavam tudo limpo, as hortas os pomares as roças, o aviário, os chiqueiros e o curral ficavam como novos no sentido amplo da palavra.

 

       Na nossa ceia de natal havia leitões assados, (inteiros) perus, frangos, coelhos, ovelhas carne de gado e várias iguarias. Numa sala ampla ao lado da recepção do Educandário eram montados todos os anos uma grande arvore de natal, toda enfeitada, muito linda mesmo. Os presentes não cabiam em baixo da arvore, que mesmo sendo grande, eram colocados num canto da sala e empilhados de forma ordeira por ordem alfabética. Minha surpresa era sempre uma grande surpresa.

 

      Dona Miriam que era a esposa do diretor começou fazendo a chamada dos internos.

      Mais a frente havia um revezamento, e outro funcionário fazia a chamada. O próximo a fazer a chamada foi o diretor, que de verdade, eu o admirava muito por sua sinceridade e pelo humanismo que despertava no tratamento aos internos.

 

         Quando me chamaram pelo nome: Carlos Alfredo… Foi uma alegria total, eu abri o pacote na frente de todo mundo, ali mesmo. Outros meninos também faziam o mesmo. Dentro havia uma cinta de couro com uma fivela colorida, dois tubos de talcos perfumados e mais um para chulé, quatro sabonetes, dois pares de meia, duas cuecas, um espelho, dois pentes confeccionados com chifre de boi e, um bonito e brilhante cartão de natal. Eram natais inesquecíveis.

 

      Todos os internos recebiam os presentes de maneira igualitária. Quando recebíamos em mãos, logo surgia uma longa salva de palmas, vários parabéns e abraços, era alegria total.

     Nas viradas de ano tudo se repetia. Eram mesas fartas, cheias de frutas, carnes, sucos e refrigerantes. 

 

      O Diretor da época era o Sr. Fulton de Souza Marques. Bem, eu não me esqueço dele porque comecei a fumar cigarros com as baganas que ele soltava nos cinzeiros ou nos vasos de plantas. Incrivelmente, ele era observado diariamente por um grupo de uns cinco meninos ávidos por fumar.

 

      O seu Fulton soltava a bagana e sem que ele visse, nós corríamos disputando a baguinha do Hollywood que ele soltara. Mas, sinceramente, não brigávamos entre nós, cada um se contentava em dar uma ou duas tragadas e ficava tudo bem. Eu iniciei a fumar com 14 anos.

 

Vale lembrar que durante o meu tempo no Exercito, fiquei quase dois anos sem fumar. Eu não sou fumante desde o ano de 1989.

Aprendendo a me defender

 

       Certo dia depois de alguns anos crescidos na hierarquia do respeito (sic) entre os internos do Nehyta (fui crescendo e me tornando respeitado no sentido de não ser provocado), na verdade podia pegar qualquer na “porrada”, e sem medo de apanhar como antes acontecia.

 

 Faltava apenas “Aranha” que a muito pretendia me bater, falava pra muitos meninos que um dia ia me dar uma surra, mas hesitava. E, não era por menos, dos 12 aos 14 anos eu já estava praticamente preparado para a vida. Tinha vivido um pequeno período na rua como menor abandonado. Também já tinha passado por várias instituições.

 

      Perdi as contas das quantas vezes que apanhei de estranhos tanto na rua quanto ali nos internatos.

 

       O tempo foi passando e eu fui crescendo ali no Nehyta Martins Ramos.  “Aranha” era um guri forte que batia em qualquer um no internato. O cara era uma massa muscular pra idade dele. Na verdade Ali no Educandário tínhamos que estudar pela manhã e a tarde ir para roça, para os chiqueiros, o aviário, para o pomar ou mesmo para a horta, e “Aranha” era o que pegava os serviços mais pesados ali naquele Educandário Rural.

     

      Um belo dia “Aranha” me desafiou, tentou me dar um soco que eu revidei acertando-o no olho esquerdo. O Educandário inteiro parou para assistir a briga. Levei uma boa vantagem sobre “Aranha” que saiu com a cara inchada. Não conseguiu me bater.     

 

     Anos depois já fora da instituição, nos encontramos no exercito. Eu havia servido em uma unidade de Artilharia, e posteriormente fora re-incluido em outra de infantaria, e, foi nesta que nos encontramos.

 

       Era quase religioso para a direção do Educandário Rural Nehyta Martins Ramos, todos os anos, no período de verão, nós íamos acampar na praia do Lami.

 

O acampamento acontecia com barracas enormes do tipo as utilizadas pelo exercito, aquelas de campanha onde são instaladas as cozinhas ou enfermarias.

 

      A comida era muito farta, frutas, verdura e legumes de nossa própria horta.

 

Estes modelos de instituição imaginam que, atualmente não existe mais. Mas confesso, se existissem nos dias de hoje, muitos menores infratores ou abandonados estariam melhores encaminhados.

 

      Eu me lembro de um verão nos anos de 1966/67, estávamos caminhando pelo mato numa espécie de trilha, na verdade, não muito longe do acampamento, quando vimos um grande número de bugios. Um desses se desprendeu do grupo e ficou encurralado em cima de uma arvore. O monitor que nos acompanhava era o seu Romildo (um paulista que fazia questão de dizer sua origem).

 

       Seu Romildo era um cara que hoje posso imaginar que tinha uns 35 anos naquela época. Ele se aproximou da arvore e sacou um revolver calibre 32 (nunca esqueço o calibre por conta de um incidente) e deu alguns tiros no animal que mesmo ferido conseguiu fugir.

 

      Naquela época nós não tínhamos uma consciência ecológica ou de preservação dos animais como se tem hoje. O Bairro de Belém Novo e do Lami eram muito bonito e característico, quase um vilarejo de nativos dali mesmo. Os internos do Nehyta eram conhecedores de toda aquela região, que incluía o Belém Novo, o Belém Velho, o Chapéu do Sol, a Restinga, o Cantagalo, o Lami e Itapoã. A ilha das pombas era um dos pontos que mais freqüentávamos.

 

      Um fato que me levou ao passado foi há poucos anos atrás quando retomei meus estudos. Estávamos na biblioteca da escola e eu pude assistir a um vídeo que contava a historia da Ilha das Flores.

 

      Ora, eu conheci quase que por dentro as plantações de melancias, de tomates e outras frutas daquela família de japoneses que aparecem naquele vídeo. Na verdade aquela propriedade ficava em frente aquilo que chamávamos de “Morro do Breno” em alusão a família de Breno de Caldas Junior (então proprietário do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre) que tinha uma casa enorme lá no topo.

 

      Quantas vezes eu entrei nas plantações da família dos japoneses para comer melancias, e outras frutas que eram plantadas por eles. Um dia eles nos flagraram e saíram dando tiros de sal para cima com o objetivo de nos assustar, e conseguiram, afinal, nunca mais entramos ali.

 

      Nunca vou esquecer-me das vezes que em um grupo de cinco ou seis guris íamos nadando até a ilha das pedras que ficava a centenas de metros da praia. Quando passava algum navio de carga provenientes do cais do porto do Rio Guaíba (centro de Porto Alegre), formava ondas, se fossemos surfistas, com certeza daria para curtir por alguns minutos, levando em conta a altura de quase um metro que se formava. Para nós que havíamos nos tornado exímios nadadores, aquelas ondas não faziam a menor diferença.

 

      Alguns freqüentadores ficavam assustados com nossa investida para dentro do Rio Guaíba. Nadávamos a cerca de mil metros da praia, e isto realmente chamava a atenção dos banhistas.

 

      Essa freqüência em ir à praia ou acampar, dos internos do Nehyta, era talvez o que mais contribuía para a harmonia dos mais de 165 meninos daquele Educandário Rural.

 

      Era uma manhã de domingo, e neste dia, costumeiramente dormíamos até mais tarde. Como era um Educandário Rural, alguns internos estudavam de manhã e iam pra roça a tarde, outros faziam o mesmo de forma inversa. Quando chegavam os domingos, ai sim, que nós tínhamos essa regalia.

 

      Eu era chefe de um dos dormitórios (esta pratica se aplicava nas mesas do refeitório, nas salas de aula) e, repentinamente escutei um tiro no dormitório a frente do nosso, um menino chamado silvestre tinha pegado o revolver do seu Romildo do armário onde o guardava e estava brincando com ele quando este disparou acidentalmente.

 

      O Elias foi o menino atingido pelo tiro na coxa. Vi a sua expressão de dor quando adentrei no quarto. Naquele momento os dormitórios ficaram em polvorosa.

 

      Não demorou muito e o seu Romildo apareceu apavorado. Não sei como, mas alguém chamou de imediato o Diretor. Seu Fulton tentou abafar o ocorrido e mandou o menino para uma enfermaria que existia no educandário para fazer a retirada da bala. Isto de fato aconteceu, mas eu soube mais tarde que alguns diretores do DEPAS (Departamento Estadual de Assistência Social, hoje encampado pela FEBEM) vieram investigar o ocorrido, que não deu em nada, além de uma advertência ao monitor.

 

      Em 1970 após ter retornado para o Educandário, eu pedi para ser alistado no serviço militar. Eu já tinha saído do Nehyta pelo período de alguns meses no ano de 1969. Tinha ido para quilo que se chamava de Casa Lar. Havia umas cinco em Porto Alegre.

 

      Normalmente essas casas eram dirigidas por um casal de adultos que se responsabilizavam por um grupo de 10 menores.

 

      O estado ajudava nas despesas e os menores poderiam estudar e trabalhar fora. Naquele ano eu estava na Casa Lar que ficava no Bairro do Partenon, eu fazia o curso de garção no SENAC. Minha permanência ali foi fulminante, aliás, muito rápida, talvez menos de um ano. Tudo começou com uma briga provocada por um dos guris que eu desafiei no Educandário. Na briga do Educandário eu tinha me saído bem.

 

      O Nilo já estava ali a mais de um ano no curso de garção. O professor conhecido como mineiro tomou as dores dele numa intriga do qual o Nilo havia começado. Na verdade eu flagrei-o tomando vinhos importados e ele me provocou pra eu ser excluído do curso, ele foi espertalhão e mau caráter. Éramos proibidos de consumir bebidas alcoólicas.

 

      O Nilo sabia disso e Iniciou jogando uma bandeja de aço inox na minha direção. Quando o professor apareceu, ele disse que eu havia começado aquilo, que tinha iniciado a briga com ele. Enfim, fui desligado do curso no SENAC e posteriormente sai da Casa Lar retornando para o Educandário.

 

      Certo dia eu encontrei o Professor mineiro no centro de Porto Alegre, e ele me pediu desculpas por ter sabido a verdade por outros alunos que presenciaram o acontecido. Mas pra mim, sua desculpa não serviu de nada, a turma do Nilo já havia se formado. Fui constrangido e injustiçado sem direito a defesa.

 

Emancipação

 

      Foi Ali no Nehyta que decidi pela minha emancipação, já não agüentava mais aquelas idas e vindas de uma instituição de menores para outra por qual tinha vivido.

 

      Eu conversava muito com o meu professor de Ciências Sociais, na verdade eu também o admirava muito. O professor Lafaiete comentava a boca pequena para os meninos maiores o que acontecia no Brasil. Ele fazia isso de maneira amena, tocava no assunto de forma sutil, dizia que eram os militares que mandavam no Brasil, e que ele não achava isso correto.

 

      Um dia eu comentei com ele que queria sair dali do Nehyta e, ele disse que eu poderia se estivesse alistado para o serviço militar. Embora tivesse contrariedades com o regime, me aconselhou como sendo a única forma. Disse-me que depois de um ano eu estaria mais preparado pra vida e poderia levá-la sem sobressaltos.

 

Fiz o que ele aconselhou e me alistei prematuramente no serviço militar. Como não tinha idade para o serviço militar obrigatório, apelei para serviço militar voluntário. Era o ano de 1970, e eu tinha apenas 15 anos quando fiz meu alistamento. Acho que essa possibilidade não existe mais nos dias de hoje. 

      

      Definitivamente eu saí do Educandário Rural Nehyta Martins Ramos. Em março de 1971 eu entrei para o Exercito. Do colégio, levaram-me até a rodoviária e embarcaram-me em um ônibus direto a Uruguaiana e, não me deram um centavo para comer qualquer coisa diferente na viagem.

 

      Recebi uma sacola com a metade de um frango e farofa, dois pãezinhos e uma garrafinha de Grapette (acho que era esse o nome do refrigerante de uvas).

 Chegando a Uruguaiana me apresentei no quartel do 22º GAC.

 

      Nos primeiros dias eu notava a cara de espanto de vários graduados e oficiais.

 

Não era por menos, afinal eu era um dos caçulas do quartel. Tinha incorporado com apenas 16 anos, mas eu não era o único caçula. Havia outro menino que ainda era dois meses mais novos do que eu, incorporamos no mesmo dia.

 

 Este garoto tinha recebido uma licença logo após ficar quatro meses no quartel, e desertou. Dois meses após foi pego pela Policia do Exercito em Porto Alegre.

 

      O menino puxou 30 dias de cadeia e foi expulso. Tive a infelicidade de tirar guarda na cadeia do quartel em duas ocasiões em que ele estava preso. Eu Conversava muito com ele. Na verdade, como eu, ele era um menino soldado, e tinha de altura, o que o tornava mais baixo do Grupo de Artilharia.

 

      Realmente, eu diria hoje, era apenas mais um garotinho fardado.

 

      Eu fiquei com pena dele. Ele não tinha cometido nenhum delito criminal além daquele de não ter retornado em tempo hábil para a unidade militar. Sua deserção não teve nenhuma conotação política igual a minha, ocorrida três anos mais tarde, e nem tampouco como as que costumeiramente ocorriam naquele período e eram abafadas pela Ditadura Militar. Ele foi entregue para a polícia civil que encostou uma viatura em frente da unidade. Nossa formatura foi de despedida para ele.

 

      Minha vida foi intensa ali no 22º GAC. Nossa unidade era comanda pelo Tenente Coronel pára-quedista Dickson Melges Grael, um dos Falcões da Ditadura Militar, e que teve participação ativa no golpe de 1964.

 

      O Coronel Dickson contava em reuniões fechadas os detalhes de sua ação quando invadiu o forte de Copacabana dando uma rajada de metralhadora pondo fim a resistência daquela unidade ao golpe.

 

      Foram ali no 22º Grupo de Artilharia de Campanha que conheci as técnicas militares de Operações Especiais, de Guerrilhas e Contra Guerrilhas, Técnicas de Sobrevivência na Selva, Operações Psicológicas, de Contra Insurgência e de Assalto.

 Aos dezesseis anos eu já manuseava armas de grosso calibre, na verdade, armas de guerra nas suas mais variadas versões como explosivos, minas e armadilhas militares para usos em guerras prolongadas.

 

…Já havia passado muitos anos da ultima vez que eu tinha estado junto de minha irmã.

 

       Foi durante aquela adoção, e, isto foi possivelmente no final dos anos 50 ou no inicio dos anos 60.

 

      Em 1971 eu resolvi procurar minha família. Naquele período vivíamos em plena e efervescente ditadura militar.

 

       Até ali eu já tinha passado por um processo de amadurecimento e de formação política, então proibitiva de se externar, afinal, toda e qualquer simpatia que alguém demonstrasse a favor da resistência civil seria brutalmente combatida, principalmente nas fileiras do próprio exercito.

 

      Foi ali no 22º GAC que me tornei simpatizante da resistência armada contra o regime militar, em especial, minha simpatia era pelos feitos heróicos do Capitão Carlos Lamarca e da Vanguarda Popular Revolucionaria.

 

      Naquele período nós recebíamos algumas noticias através de informes dispersos que eram alimentados por alguns graduados descontentes com os rumos do país e as barbaridades cometidas pelo exercito. Alguns comentários eram feitos a boca pequena e de maneira oculta.

 

     Minha luta a favor de mudanças continuava ali dentro da caserna. Organizávamo-nos num pequeno núcleo de simpatizantes. Muitas vezes não sabíamos quem eram o demais apoiadores. Os graduados sempre tinham esta preocupação.

       O Regime militar alimentava um fanatismo político até mesmo nos elementos de hierarquia subalterna. Tínhamos que nos cuidar até de “supostos” amigos.

      Neste período eu fazia parte de um núcleo político e militar que se formava em nossas fileiras há alguns anos. Nosso grupo era remanescente de militares simpatizante do então capitão Carlos Lamarca.

 

      Este foi o período que mais coloquei em pratica tudo que havia aprendido na minha infância, na minha sobrevivência pelas ruas de Porto Alegre como menor abandonado, e como interno em instituições públicas. Nada melhor que a escola da vida. Se não fosse isso, eu não estaria aqui escrevendo em meus blogs aquilo que eu penso e vivi.

 

   Eu diria que valeu a pena lutar. Diferente de muitos políticos oportunistas, estes sim, se vangloriam de forma arrogante, os feitos de milhares de brasileiros que no meio das massas populares se engajaram quase que anonimamente na construção da democracia e do retorno as liberdades. No meu caso, e de outros milhares, muitos anonimamente. Precisávamos pavimentar o caminho rumo ao socialismo, rumo a uma sociedade sem classes, sem explorados e sem exploradores.

Filho de João de Tal

 

… Segui uma busca incessante atrás de vestígios que me levassem ao encontro de alguém de minha família. Houve momentos que me desanimei porque não tinha nenhum vestígio para o começo, até que então tive a idéia de ir ao Juizado de Menores de Porto Alegre.

 

Tomado a decisão de ir atrás da minha família, de tentar encontrá-la, eu tinha de resolver outro problema. Como poderia buscar o meu pai e minha mãe, a minha irmã ou qualquer parente se o meu nome tinha sido trocado?

      Este é um problema de foro intimo, de direito e de justiça que ainda me perturba nos dias de hoje.

 

… Ainda internado no instituto Nehyta Martins Ramos que fica em Porto Alegre, localizado precisamente na Estrada do Lami nº 1115 era este o nº na época no Bairro de Belém Novo em Porto Alegre.

 

      Daquela instituição, fui levado ao 1º Cartório de Registro Civil de Porto Alegre e me registraram como Carlos “Alberto” Bento da Silva.

 

      Ora, todos que me conheciam até aquela data, incluindo meus professores e até a direção dos internatos pelo qual havia passado, sabem que eu me chamo Carlos “Alfredo” Bento da Silva. Fiquei fulo da cara, mas eu não tinha como reverter aquilo estando ali dentro. Foram eles que determinaram e fizeram o meu registro civil de nascimento.

 

      Eu ainda era um guri de apenas 14 anos quando esta atrocidade aconteceu.

      Possivelmente eu já tenha sido registrado em algum cartório na região de Santiago, mas não pude ainda investigar com mais profundidade.

 

Recentemente, ou melhor, a cerca de três anos enviei um email no site de contatos da Prefeitura Municipal de Santiago/RS (minha cidade natal), solicitando informações através de nomes em IPTU, água, luz ou de outros documentos, que me trouxessem o paradeiro de meus familiares, coloquei inclusive algumas sugestões.

 

Não foram capazes nem de me responder, pelo sim, ou pelo, não. A incompetência e a mentira são fatores existentes no site da cidade de Santiago.

Procurando minha família

 

     … Estava servindo em Uruguaiana no 22º GAC quando pedi uma licença de oito dias para ir a Porto Alegre. Cheguei fardado ali no Juizado de Menores.

      Entrando numa sala, fui logo perguntando: Como posso saber o endereço de minha mãe?

 

       Perguntei para uma atendente que ali estava: Eu quero o endereço de parentes. Então ela me perguntou: Qual é o nome da sua mãe, do seu pai, o seu nome completo? Em seguida a atendente disse que precisava de tempo pra fazer uma pesquisa e, eu perguntei quanto tempo? Ela me disse: Até amanhã acho que já tenho alguma coisa em mãos (vale lembrar que naquela época não havia as tecnologias da informação que temos hoje). Tudo bem senhora amanhã estarei de volta, respondi.

 

       Passei uma noite interminável, bastante tensa pelo que teria que fazer no dia seguinte. Assim que o dia amanheceu, tomei um banho, fiz a barba e vesti minha farda de passeio, afinal estava de licença pelo exercito e logo teria de voltar.

 

       Caminhei apressadamente para o local onde estava sediado o Juizado de Menores, subi as escadas do prédio que ficava na Rua Coronel Vicente e entrei na sala.

 

– Bom dia, disse para a atendente. Bom dia me respondeu.

– Como é o seu nome mesmo?

– Carlos Alberto Bento da Silva, respondi.

– Bem Carlos, aqui não existe o seu nome, apenas outro que se chama Carlos Alfredo Bento da Silva.

 

– Eu sei disso, sou eu mesmo.

– Como assim? Esta possibilidade não existe aqui conosco, prontamente me respondeu.

 

Acontece senhora, que até os meus quatorzes anos eu me chamava Carlos Alfredo Bento da Silva.

      Essa mudança de nome ocorreu contra a minha vontade e ainda estão me causando sérios problemas. Todos os meus amigos ali do internato, até o dia de hoje me conhecem e me chamam de Carlos Alfredo. Eu não sei por que trocaram o meu nome. A senhora pode olhar ai nos arquivos e vai ver que estou falando a verdade.

 

       De fato, ela já tinha esse entendimento.

 

      Após vários segundos de silêncio por conta do pensamento desenvolvido pela atendente, ela me perguntou: Qual é o nome de sua mãe? Prontamente respondi: Rosa Maria Bento da Silva.

 

      A atendente ficou mais alguns segundos quieta intrigada e pensativa, e disse: Um momento Carlos, vou ali pesquisar alguns arquivos e já retorno (apontando para uma porta que dizia ser o arquivo daquela instituição).

 

      Após vários minutos ela adentrou na sala um tanto pensativa e em seguida abriu uma pasta cinza e começou a folhear papeis, alguns em perfeito estado com indício de serem novos, outros tantos já meio amarelados e ainda outros apenas meros pedaços de papeis do tipo anotações informais.

 

Arquivo confidencial e criminoso

 

      Enquanto a atendente folheava os documentos de forma lenta, demonstrava interesse peculiar no conteúdo. Neste ínterim, eu corria os olhos atentamente para cada linha que meu olhar alcançava. Em fração de segundos eu era capaz de memorizar cada detalhe, cada número ou cada escrita postada diante de mim. Tinha esta capacidade levando em conta os cansativos e contínuos treinamentos recebidos na unidade operacional do qual eu servia.

 

      Às vezes alguns tropeços ou escorregadas, servem pra que possamos tirar uma bela lição. Foi assim comigo durante toda a minha infância. Sempre busquei tirar proveito das chances que me eram dadas.

 

     Estava ali diante de meus olhos aquilo que sempre foi uma informação sigilosa, confidencial e proibida para crianças adotadas ou sob os cuidados do estado.

     Ali estava escrito de forma bem legível.

 

     Com os olhos mais rápido que as mãos da atendente, eu pude ler e, memorizar, que minha mãe não tinha condições morais e financeiras para me criar (sic).

      No Brasil de hoje, fico a pensar se os critérios de antes são validados nos dias de hoje. Se os princípios ou os entendimentos se alicerçam nesta concepção de sociedade e família que vivemos (O Capitão Carlos Lamarca tinha razão por tudo que defendia). Não podemos aceitar a exploração de muitos para a felicidade de poucos.

 

      Em outras palavras, mas com o mesmo sentido, não podemos aceitar a felicidade de poucos em detrimento de muitos, levando em conta que boa parcela da população é pobre e até paupérrima.  Não poderíamos ter filhos?

 

        A leitura que eu fazia, diante de meus olhos, a verdade ali escrita, e as resposta que eu buscava naquele momento e, que sempre me foi negada, me deixou atônito.

 

       Assim que tive a oportunidade de perguntar para a atendente, não perdi a chance: Porque eu fui entregue ao juizado de Menores? Ela me olhou nos olhos e ficou quieta.

 

      Segui na pergunta: Porque trocaram o meu nome? Ela hesitou em me responder.

 

      E agora senhora, eu quero ter o meu nome de volta. E continuei a falar com um sentimento insuportável, com um nó na garganta, afinal estava fardado, mas por baixo daquele verde oliva existia um ser humano, um animal racional buscando os seus progenitores, minha família, minha historia. Buscando saber de onde eu tinha vindo e, quem era eu e quem eram os meus. Eram as perguntas que não poderiam mais ficar caladas.

 

      Mais do que tudo o que tinha vivido até aquele momento, eu me senti extremamente fragilizado, constrangido e vilipendiado no meu direito, de ser aquilo que qualquer pessoa sente, ou seja, um ser humano, com um nome próprio, uma família, uma autoconfiança, com os pés no chão.

 

      Foi desesperador e difícil pra eu viver aquele momento. Eu tremia o corpo inteiro de baixo para cima, suava frio. Paradoxalmente, no fundo de tudo, eu sentia ter encontrado uma luz no final do túnel, mas, sinceramente, estava custando a acreditar. Estava tudo ali na minha frente.

 

      Passado alguns minutos do impacto que senti pela informação roubada pela astúcia de meu olhar, eu fulminei outras perguntas: Quem foi que mandou trocar o meu nome e, por quê? E agora, como é que vou encontrar minha família?

 

      A atendente que mais tarde identifiquei como uma espécie de assistente social dos dias de hoje, me respondeu: Você terá que entrar na justiça para voltar a ter o teu nome antigo. E, continuando me disse: De Fato Carlos, o que você me relatou está correto. O nome de sua mãe, a cidade onde você nasceu, enfim, você fala a verdade, mas infelizmente terá de procurar a justiça para resolver esta questão.

       Mas Senhora, respondi: Quem fez o meu registro foi o pessoal daqui do Juizado de Menores acompanhados de monitores lá do Instituto Nehyta Martins Ramos.

 

Adoção ou falcatrua?

 

       Como à senhora me explica o fato de estar escrito ai nesses arquivos, de eu ter feito todo o primário nas varias escolas do estado e da prefeitura. Veja ai nos documentos, meu nome é Carlos Alfredo Bento da Silva. Vocês me registraram com quatorze anos e não se deram ao trabalho de investigar se eu já sou registrado em outro cartório.

 

      Vocês também não teriam como enviar-me pra uma adoção sem que eu tivesse uma certidão de nascimento, incluindo a adoção da minha irmã, e, isto aconteceu. Porque então eu tenho de entrar na justiça se o erro foi da própria justiça dos menores?

 

      Depois que fiz essas colocações, à atendente ficou com uma cara assustada, me olhou nos olhos, minha farda, minha estatura dos pés a cabeça e ficou completamente perturbada pelos questionamentos que fiz.

 

      Estava ali diante dela um menino militar fardado, lhe questionando os erros cometidos pelo estado do qual ela representava naquele momento.

      Bruscamente ela saiu da sala e entrou em outra, eu aproveitei e corri os olhos por tudo o que eles alcançavam.

 

       De volta à sala, ela entrou acompanhada de um senhor que se apresentou como advogado do Juizado de Menores.

 

      No inicio da conversa o advogado que se chamava Dr. Porta Nova já foi logo falando: você tem de entrar na justiça pra voltar a ter o seu nome de volta, além disso, como ficará agora que você está no exercito? Você tem todos os documentos com este nome de Carlos Alberto Bento da Silva.

 

      Continuando disse: Carlos Alberto é um nome mais bonito do que Carlos Alfredo, você não acha? Bem, eu disse a ele, Carlos Alfredo é o meu nome e isso basta. Se o erro foi de vocês, então terão de buscar solução, terão de corrigir este erro. Eu olhei nos olhos dele e disse: Meu nome é Carlos Alfredo Bento da Silva e é assim que todos me conhecem.

 

       Se alguma coisa saiu errada, a culpa é de vocês, e o senhor está vendo ai nos arquivos o meu nome correto. Veja aqui nesta certidão Doutor, O nome de meu pai está como João de Tal, o que o Senhor acha disso? O que o Senhor acharia de ter o nome de seu pai como qualquer coisa de tal?

 

      Ele não me respondeu, abaixou a cabeça e ficou lendo os documentos. No final resmungou repetindo que eu teria de entrar na justiça. A seguir ele saiu da sala deixando-me as sós com a atendente que nos olhava, aturdida.

 

Endereços

 

      Sem perder a postura eu fulminei uma derradeira pergunta: A Senhora pode me dar os endereços que estão anotados nesta pasta?  Tudo bem Carlos, eu não poderia, em se tratando de uma adoção como a que ocorreu com você. Essa situação é complicada, mas eu vou te ajudar. Saiba que eu jamais poderia fazer isso. Os últimos endereços que temos aqui são esses, Rua Oscar Pereira nº…, Rua Barão do Amazonas nº…, sendo esses, aqui em Porto Alegre. Tenho outro, por favor, anote rápido, antes que entre alguém na sala, Rua Siqueira Campos nº…, na cidade Santiago.

 

      Anotado os endereços, eu pedi a ela que me deixa-se ver o processo em minhas mãos, insisti, mas não fui atendido. Fiz uma ultima tentativa (já tinha guardado mentalmente algumas anotações informais que tinha visto). Gostaria de Saber o endereço da família que me adotou. Esta família continua com minha irmã? A atendente balançou a cabeça concordando. Passados mais alguns segundos ela me deu o endereço que ficava na Avenida Independência, exatamente ao lado de um tradicional teatro ali existente, muito próximo do Colégio do Rosário em Porto Alegre.

 

      Ela voltou a me explicar que não poderia estar fazendo aquilo, mas sentiu que eu estava obstinado nessa intenção e resolveu me ajudar, mas me pediu sigilo do seu ato. Cá comigo, nem precisaria me pedir que ficasse de boca fechada (sic), afinal, ninguém saberia por mim a fonte que busquei.

      Não pensei duas vezes, sai caminhando em direção ao endereço tão esperado. Durante minha caminhada fiquei imaginando minha irmãzinha Maria, como será que ela estaria?

 

      Ora, seria impossível pra eu não estar preocupado com a dificuldade de ter acesso a este endereço, afinal de contas, segundo os rituais (regras) convencionados no Brasil sobre os processos de adoção, eu não teria de ter aqueles endereços.

 

      Eu não deixei de pensar por um segundo sequer a possibilidade de ser impedido de conversar com minha irmã. Era notório que aqueles que nos tinham adotado estariam garantidos por essas convenções, e gozando do seu anonimato completo pelo resto da vida.  

Pena capital

 

      Raramente neste país de leis ultrapassadas, onde um pai ou uma mãe que eventualmente se encontram questionados moral e financeiramente pelo estado, voltariam a ter algum dia, os seus filhos de volta. Nos dias de hoje, as drogas químicas tem sido uma hecatombe contra as famílias e a sociedade como um todo, mas no caso de meus pais, a questão unicamente se resumia na miséria em que viviam. Este foi o entendimento que eu tive ao ler parte de um relatório postado em minha frente.

 

      Ficam evidentes os contraditórios inescrupulosos do pressuposto moral, que no fundo mesmo, reflete um pensamento medieval do poder absoluto sobre os filhos, antes os pais, hoje, o estado.

 

       Na verdade o processo de adoção no Brasil funciona semelhante a uma decretação da pena de morte para o relacionamento entre os pais biológicos e seus filhos. De verdade mesmo, trata-se de uma pena sem comutação, um atentado violento contra a família, contra os filhos e, o direito dos pais.

 

      Posso entender que essas ações do estado em nome da suposta dignidade da criança, transformam cada um dos sujeitos sociais envolvidos, em um verdadeiro produto capitalista baseado na propriedade absoluta do ser humano. Na verdade, é um atentado contra os direitos humanos, contra o direito a vida dos filhos junto aos seus pais.

 

       Esses entendimentos são verdadeiros subprodutos da vaidade inescrupulosa do ser humano, principalmente aqui no Brasil, e, uma ferramenta jurídica ultrapassada que jamais deveria existir na nossa sociedade.

      No plano individual e coletivo, a unidade da família está acima de tudo, porque é a razão da nossa própria existência.  

 

      O mais paradoxal de tudo é que para os crimes de corrupção, crimes hediondos de toda espécie, de estupros praticados por padres pedófilos e vagabundos débeis mentais, seqüestros com mortes, cárcere privado, torturas, assassinatos de vulneráveis, infanticídios, além dos crimes de ordem econômica e inclusive os de lesa pátria. Um indivíduo criminoso ao cumprir as penalidades do veredicto, lhe é garantido em leis a sua reintegração na sociedade.

 

      Em nosso país existem penalidades de várias formas para as empresas e empregadores que se negarem, e incentivos para os que vierem a contratar aqueles que já cumpriram suas penas.

 

     Novamente eu pergunto: E uma mãe que por razões sociais ou eventualmente morais que vier a se recuperar, a se regenerar, a se reintegrar socialmente, não teriam o direito de estar junto aos seus filhos novamente? Neste caso, fica evidente o caráter individualista e privado dessas decisões de fachada humanista, de proteção ao menor e, que no fundo mesmo, trata-os como uma mercadoria confiscada de seus progenitores.

       Peraí (sic), nós somos seres humanos que temos o direito natural de estarmos com nossos pais, independente dos erros que tenham cometidos no passado, seja moral, ou por uma situação econômica. De verdade mesmo, por qualquer que seja a condição, afinal, nunca é tarde para arrependimentos.

Então, vamos analisar e comparar uma situação que poderíamos dizer ser hipócrita?

 

     Sem querer jogar merda no ventilador (sic), temos como exemplos as “correntes” pentecostais dos chamados “crentes” religiosos, que, segundo pesquisas recentes, representam quase 27% de todas as religiões existentes no país.

 

      Eu já assisti a inúmeras vezes (e qualquer um pode fazê-lo, ao vivo e, também pela internet), aos “testemunhos” de pastores e obreiros que confirmam terem no passado demoníaco de suas vidas, cometidos crimes de toda ordem, incluindo aí homicídios, assaltos a mão armada, tráfico e consumo de drogas e até mesmo de estupros.

 

     Durante os testemunhos demonstram com todo o ardor e de fé estarem arrependidos de tamanhas atrocidades contra si e contra os outros.

      O que pensar então desses pastores e “fiéis” que no passado recente de suas vidas foram criminosos? Não teriam o direito de se regenerarem socialmente falando?

    

      De recomeçarem suas vidas sem qualquer tipo de impedimento, constrangimento ou direito?

      Estou falando de família e sociedade, de individuo e de comportamento, de uma situação do qual nem mesmo os seus autores poderiam ter o controle ou serem os donos da verdade. E, ai está…

 

      Ser pobre, segundo vi ali nos arquivos, foi um dos motivos alegados para o nosso afastamento definitivo da família.

 

      Assim sendo, entendo que fomos tratados como um produto confiscado no mais alto grau de uma ação ilegal e criminosa do estado.

 

      Eu fico eternamente agradecido a aquela atendente, talvez uma assistente social, uma mulher que nunca tinha visto antes, (provavelmente uma mãe) e que, permitira pra mim o surgimento de uma luz no final do túnel, durante a caminhada que faço em busca da minha mãe, da minha família.

Encontrando a minha irmã

 

… Bati na porta e a sinhazinha me atendeu dizendo: Carlinhos, você aqui? Como chegou até aqui? Eu disse a ela que estava há muito tempo procurando minha irmã. Ela sorridente me deu um abraço bem forte, ficou feliz quando me viu, ela fora como uma mãe pra mim durante o período em que vivia como adotado por sua família.

      Logo a seguir apareceu a Judith, aquela que me adotou como filho, ela ficou espantada, eu a cumprimentei (estava fardado) e, ela respondeu-me com educação. A seguir gritou Maria, venha até aqui, é o teu irmão.

 

      Abraçamo-nos bem forte. Maria realmente ficou feliz com minha presença e me perguntou como eu estava, há quanto tempo eu estava no exercito, onde estava morando etc. Falei a ela que a procurava há muitos anos e não via à hora de encontrá-la.

 

      Perguntei pra Maria se ela sabia alguma coisa de nossa mãe ou do nosso pai e ela disse que não sabia de nada, disse também que não sabia se eles existiam.

      Senti que minha irmãzinha guardava uma magoa profunda a respeito de nossos pais.

       Logo a seguir Maria me disse que tinha um namorado, que era noiva e iria se casar. Não demorou muito e eu notei a presença de um rapaz sorridente com minha presença. Maria me apresentou ele dizendo: Esse é o Sidnei, meu noivo, nós vamos casar. A seguir me convidou pra irmos a uma lanchonete ali próxima da casa, na mesma Avenida Independência onde vivia.

 

      Depois de um longo papo nos despedimos e eu prometi voltar outras vezes. Minha licença do 22º GAC já estava terminando e eu teria de voltar para a cidade de Uruguaiana e me apresentar na unidade onde servia.

Um menino militar

 

      Muita gente fala que do serviço militar a gente guarda recordações para o resto da vida. Isto realmente é verdade. Porém, Eu gostaria de deixar claro que, isto não tem nada a ver com fatores ideológicos. Na verdade, no meu caso, aquela convivência independente destes fatores leva a estas lembranças. Fiz muitos amigos e amigas, namorei, amei e fui amado. Dos meus amigos, e daquela menina nunca mais soube noticias. Vivi com bastante intensidade na cidade de Uruguaiana.  

 

     Foi tudo muito bom durante minha permanência no 22º GAC. Talvez pela minha pouca idade (16 anos) eu fui bem tratado, mas em nenhum momento tive tratamento privilegiado por isso. Eu nutria um respeito muito grande pela hierarquia ali existente.

 

      Muitas foram às vezes que observei a admiração que sentiam por mim pelo fato de eu ser caçula daquela unidade e me comportar com extrema personalidade.

 

      Eu era bastante depreendido, esforçado e valente, ao ponto de ter sido escolhido por mérito militar como um dos integrantes do seletivo PELOTAR (Pelotão Aerotransportado) hoje conhecidos como PELOPES (Pelotão de Operações Especiais) na verdade, uma fração de elite de uma unidade militar específica. Eu seria capaz de nominar, mesmo passados mais de 35 anos, o nome de vários integrantes daquela unidade militar.

 

       Lembro-me até hoje do Capitão Motta, pára-quedista e elemento Selva CIGS (comandante da nossa Bateria de Canhões), do Sub-Tenente Caputo, do Sargento Saldanha, do Tenente Luongo (Oficial R/1 pára-quedista e elemento Selva do CIGS) que era o comandante do PELOTAR, do Sargento Leiria, do Sargento Palmor e do cabo Nivaldo (Jogador profissional do antigo Ferrocarril de Uruguaiana), do 1º Sargento Cantilho que me tratava como um filho mais novo.

 

O Sargento Cantilho era o Sargentiante da nossa Bateria de Canhões, ele vivia preocupado comigo no sentido de que eu suportaria ou não, tantos exercícios exaustivos pelo qual o PELOTAR era submetido.

 

       O que ele não sabia era que eu vinha de uma vida dura, de fugas e de aprisionamentos em instituições públicas. Isso me tornou um menino esguio, quase um atleta, feito este, verdadeiro quando fiz parte da equipe juvenil de atletismo do Internacional de Porto Alegre. Aliás, eu estava lá na inauguração do Estádio Gigante da Beira Rio em 1969. Essa informação eu sempre as mantive em privado.

 

       Sinceramente, não sei se foi porque eu entrei para o Exercito com uma vontade enorme de me emancipar. Eu tinha pressa de sair daquela vida desde a minha infância sofrida. Talvez por isso aquele período marcasse a minha vida.

       Posso dizer que não me esqueço de tantos outros companheiros daquela época, independente de qualquer condição ideológica pelo qual mais a frente eu me distanciaria.

 

Ideologização das forças armadas

 

       As forças armadas sofriam um processo de ideologização na sua formação e nas suas ações.

 

      Essas condições doutrinárias, naqueles anos, eram impostas pelos oficiais formados na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN).

 

      Na verdade, essa incumbência formadora partia da Escola Superior de Guerra que mantinha laços fraternais com a Escola das Américas (no Panamá).

 

      Por sua vez, a Escola das Américas (criada e mantida pelos norte-americanos) era freqüentada pelos falcões da Ditadura Militar do Brasil e de outras ditaduras existentes na America do Sul, incluindo ai, civis e militares.

 

 Este processo de ingerência dos Estados Unidos em países do Cone Sul era também uma ferramenta imperialista dentro da chamada teoria do dominó.

 

      Essa teoria da chamada “guerra fria”, consistia em impedir o avanço do comunismo na região. A teoria entendia que se um país do regime capitalista se transformasse em socialista, os demais a sua volta, também se tornariam.

 Mas, este é um assunto para outra matéria.

 

      Eu jamais vou esquecer o meu primeiro dia de guarda. Foi no paiol do quartel. Eu era o guarda e o soldado Canazzaro era o reforço da guarda. Em suma, um ficava parado e o outro andando de um lado pra outro.

      Repentinamente escutei um barulho no meio do matagal que ficava atrás do Paiol.

 

      Nossa responsabilidade era enorme frente à situação pelo qual o Brasil passava. Essa ideologização do país sob o Regime Militar nos impunha obrigações supostamente militares, mas que no fundo mesmo, representava a sobrevivência da Ditadura Militar.

 

       Ali no paiol do quartel estavam armazenados todas as munições e armas estratégicas do 22º GAC e de outras unidades da região. O paiol tinha uma construção subterrânea com temperatura controlada por equipamentos específicos. Na parte superior desta construção havia apenas uma pequena casa de pouco mais de 20 metros quadrados. O local era realmente bem dissimulado.

 

      O Exercito sempre estava atento para eventuais ataques ou atentados. Não era por menos, tinha tomado o poder através de um golpe de estado.

      A sociedade civil juntamente com setores políticos estava se organizando para acabar com aquele regime ditatorial.

 

 Ali estava também a granja da unidade que ficava mais atrás do local.

… O barulho ia se fazendo cada vez mais perceptível.

 

Eu sussurrei: Canazzaro, você está escutando?

Ele respondeu bem baixinho: Estou Bento

 

Eu disse a ele, tome posição de combate (nem precisaria o Canazzaro já estava deitado no chão com o dedo no gatilho)

 

      A seguir, eu escutei novamente, e vi um vulto alto e magro se esguiando por um capinzal bem próximo. Tive a impressão de que estavam em dois elementos. Os quase imperceptíveis barulhos tinham duas intensidades diferentes. Era como se duas pessoas com altura e pesos diferentes estivessem caminhando juntos ou próximos.

 

      Este treinamento eu havia recebido nos primeiros dias de inclusão no seletivo PELOTAR de nossa unidade. A capacidade de identificar ruídos, à distância ou luminosidades, é um dos recursos que um combatente não pode desprezar.

 

      Apontei o Mosque-FAL, (arma de fabricação alemã produzida no Brasil, modelo 1968, Calibre 7,62 e cinco cartuchos na câmera), respirei fundo, trouxe o gatilho até o descanso, coloquei o alvo no pé do casamento perfeito entre a massa de mira e a alça de mira que estava pronto para o disparo.

 

      De repente o vulto corre fazendo um barulho mais forte, eu instantaneamente, apertei o gatilho. O tiro fez um estrondo ecoando naquela noite silenciosa. Era o turno de guarda mais puxado que existe no exercito (dorme-se pouco) Das 22h00min as 24h00min e das 04h00min as 06h00min, naquele momento deveria ser umas 04h15min da madrugada, recém tínhamos rendido a guarda. O elemento saiu correndo para o mato. Senti que se não estivesse atento seriamos surpreendidos.

 

      Naquela época havia uma espécie de paranóia a respeito de ataques em unidades militares. Comentava-se que poderíamos ser atacados a qualquer momento. Eu, sinceramente, não sei se naquele dia isto iria acontecer, mas o fato é que a minha iniciativa foi presenciada pelo meu colega que mesmo com alguma dúvida aprovou o meu ato.

 

      Numa fração de poucos minutos após o meu disparo, o Paiol tinha a curta distancia um pelotão de guardas armados e rastejando, e que a princípio se tornou difícil pra eu distinguir se eram nossos companheiros. Parecia que estaríamos sendo atacados, não hesitei.

 

– Eu gritei bem alto: alto Lá

 

O movimento daquilo que seria a tropa parou de imediato

– Novamente gritei: Quem vem lá, identifique-se.

 

– Sargento Saldanha, é a guarda, respondeu.

 

Avance a Senha voltei a gritar: feito isto, ele gritou para mim Avance a contra-senha.

 

Eu respondi, e imediatamente tornei gritar:

– Passe ao claro

 

      O Sargento caminhou para baixo de um poste luminoso e eu ordenei que viessem ao nosso encontro.

 

      Os soldados fizeram uma varredura estratégica em torno do paiol, imediatamente formaram uma patrulha em duplas. Nada encontrando retornaram cerca de 10 minutos após. O Sargento nos elogiou pelo feito. Disse que tinha suspeitado de movimentos em frente à unidade a cerca de uma hora antes, e que nossa atitude tinha sido louvável.

 

      No outro dia fomos elogiados por vários graduados e pelo comando da nossa Bateria de Canhões. Enfim, foi um fato que marcou o meu primeiro dia de guarda que só foi permitido após o período de formação. A partir de aquela data, passei a utilizar em missões externas e internas de patrulhas, uma pistola Colt 45 e o FAL 7,62 (Fuzil Automático Leve). Por vezes participei dos PC Trans (Postos de Controles de Transito, com barricadas em vários pontos da cidade de Uruguaiana.

 

      Durante todo o ano de 1971 fizemos intensas manobras de treinamento militar, de guerrilhas, e contra guerrilhas. O PELOTAR era o que mais se movimentava nas frentes de treinamentos da unidade. Participei de manobras no Cerro do Jarau em duas ocasiões, e das manobras conhecida como Operação Ponche Verde. Em outras tantas simulamos a ocupação das cidades de Alegrete e Cacequi em operações relâmpagos de assalto.  

      Participei também de patrulhas mistas que incluíam efetivos da Brigada Militar, dos Fuzileiros Navais (grupamento existente naquela época), dos Cavalarianos (do 8º RC) e outros soldados do QG da Região. Esta formação era obrigatória na integração das forças de segurança que vigorava naquele período ditatorial do Brasil.

 

      Naquele ano de 1971 aconteceram vários fatos que marcaram a historia recente e política do Brasil.

 

      O assassinato do Capitão Carlos Lamarca pelo então major Nilton Cerqueira no Sul da Bahia e, que se vangloria até os dias de hoje. Parece que este sujeito chegou à patente de General da reserva. Confesso que esta foi a primeira vez que havia chorado por alguém que sequer conhecia pessoalmente, neste caso deixo de fora as vezes que chorei pelos meus pais que também não os conheci.

 

 Lamarca tinha se tornado um ícone, um ideal a ser seguido.

 

      Ainda neste ano, à morte de Zé Arigó em um acidente de carro. Zé Arigó (um mineiro) era considerado pela mídia da época como um médium-curandeiro que operava as pessoas sem anestesia, apenas com um canivete. Sua façanha era propagada até para fora do país. Sua morte provocou uma comoção nos seus seguidores.

 

      O ano de 1971 foi bastante ativo do ponto de vista militar. Fiz alguns cursos de especialização, me inscrevi no curso de pára-quedismo ministrado pelo então Capitão Vitor Pacheco Motta, Oficial R/1 (AMAN), pára-quedista e elemento Selva. O Capitão Motta era o fundador do PARAFRON (Clube de pára-quedismo da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, na cidade de Uruguaiana. Ele tinha naquela época mais de mil saltos. O Capitão Motta também tinha sido instrutor de pára-quedismo nas Brigadas pára-quedistas do Rio de Janeiro.

 

      Após vários dias de treinamentos contínuos em torres de saltos simulados, o Capitão Motta me convidou para irmos até o aeroclube de Uruguaiana, Junto conosco se fazia presente o 3º Sargento Saldanha que foi o primeiro a saltar.

 

A aeronave era um modesto avião conhecido como teco-teco do tipo paulistinha.

Um mil… Dois mil… Três mil… Quatro mil… Cinco mil…

 

      A cerca de mil e duzentos metros, uma bela vista das fazendas que circundavam a cidade, e do rio Uruguai que divide Brasil e Argentina. Não dá para esquecer o azul anil dos céus de Uruguaiana e uma visão esplendida da cidade Argentina de Paso de Los Libres. Quatro saltos com fita e um Brevê. Senta Pua!

 

      Vale lembrar que o Capitão Motta foi também um dos mentores e especialista em operações psicológicas do exercito. Era considerado um oficial militarmente de confiança do Regime Militar.

 

      Também fiz curso de operador de radio, de telegrafia e telefonia de campanha (que eram opcionais), todos na área militar. O curso que mais me envolvi foi o de operações especiais, este curso foi o que possibilitou a minha re-inclusão no exercito, fato acontecido no ano de 1972 no 18º Batalhão de Infantaria Motorizado, na verdade neste ano fiz todas as provas seletivas exigidas na minha convocação e ingressei em janeiro de 1973 – Neste período integrei a 2ª Cia de Operações Especiais, unidade de assalto e contra guerrilhas, formada basicamente por pára-quedistas, comandos de operações especiais e elementos Selva.

 

…………………

 

      Aproveitando esse espaço eu disponibilizo esse texto que publiquei em outra ocasião.

ACONTECEU NO DIA 7 DE SETEMBRO

E, não deu pra esquecer!

 

Todo dia 7 de setembro é motivo de festejos e alegrias para o povo brasileiro.Mas este dia sete de setembro de 2007 me remeteu ao passado e fez com que eu não deixasse de comentar aquilo que durante muitos anos ficou reprimido nos meus sentimentos, dentro da minha cabeça e no gene mental da minha consciência política.Hoje eu não tive coragem de ligar a televisão, o radio, ou de ler jornais.

Decididamente não estava querendo saber nada sobre as comemorações do dia da Independência do Brasil.

Todos nós temos um dia que marca a nossa vida, seja lá qual for o motivo, e eu não sou diferente de ninguém.

Por isso decidi trazer a tona esta historia que vivenciei de corpo presente nos idos dos anos 70. Era o ápice da Ditadura Militar e dos seus projetos mirabolantes de construção da Transamazônica, das usinas de Itaipu bi-nacional etc.

Na Indochina, os Vietcongs estavam próximos de imporem uma derrota humilhante aos invasores norte americano. E, na contramão de tudo, os russos buscavam a implementação da “Détente” enquanto os americanos apostavam no sucesso do SALT II. Era a chamada “Guerra Fria” em constante ebulição.

Neste sentido, os Vietcongs avançavam para a vitória final que alteraria sensivelmente a formatação da geopolítica no planeta. Suas técnicas de luta em guerra de guerrilhas, de vencer o inimigo pela exaustão e na luta permanente, estavam sendo disseminadas e aplaudidas, mas também temidas por vários Exércitos do mundo inteiro.

O todo poderoso Exercito norte americano sentiram na pele e foram à cobaia destes experimentos. Aqui no Brasil, o nosso Exercito, comandado pelo CIGS (Centro de Instrução e Guerra na Selva) de Manaus/AM, saiu na dianteira aperfeiçoando e associando estas novas técnicas de guerrilhas com as já existentes e, aplicou a da guerrilha dos Vietcongs no uso de “Armadilhas Punji”.

Na verdade, isto caiu como luvas num país de grandes florestas como a nossa Amazônia, e de dimensões continentais como o Brasil.

Não havia um único exercício militar de Sobrevivência, Assalto e Guerrilhas que eu tenha participado, e que não tivéssemos praticado as técnicas Vietcongs com o uso de armadilhas de “Estacas Punji” do tipo “Teto Baiano”, “Muro Malaio”, “Fura Cara”, “Quebra Canelas”, “Tiro Amarrado” etc. No Brasil, desde o inicio dos anos 70, estava aumentando a resistência popular contra a Ditadura Militar.

No mesmo período, o Exercito vinha ampliando a criação dos Batalhões de Infantaria de Selva, na formação de novas Companhias de Operações Especiais, de Batalhões de Pára-quedistas e de Destacamentos de fronteira.

Na verdade, o “gene” proliferador dessa expansão estratégica, era representado por oficiais e graduados formados nos Cursos de Comando, Sobrevivência e Guerra na Selva do CIGS, nas Brigadas Pára-quedista do Rio de Janeiro e também nos Grupamentos de Fuzileiros Navais da Marinha de Guerra. A Aeronáutica dava suporte em todas as operações realizadas.

Durante esta expansão, o Governo Militar aprofundava a repressão contra os grupos de resistência armada no Araguaia e também estabelecia uma forte ação contra as células da resistência urbana.Com esta investida, a situação torna-se explosiva em várias unidades militares.

 

E foi justamente neste período da historia, que me vi dentro do epicentro político e ideológico ali estabelecido.Na unidade militar onde eu servia aquele sete de setembro de 1973, tinha sido um dia atípico em todos os sentidos, e fatalmente, tornara-se um prelúdio do que viria acontecer.

 

      O nosso dia começou as 03h30min da manhã e parecia que nunca acabaria, foi uma eternidade. Acordamos no horário conforme havia sido programado no dia anterior. Rapidamente e de forma ordenada, tratamos de tomar banho, fazer a barba e vestir nosso uniforme.Oficiais, graduados e praças se vestiam com coturnos especiais e impermeáveis de couro e lona com sobre-sola de aço, uniforme camuflado ou verde oliva, com suas boinas e emblemas estampados.Na verdade, de acordo com a especialidade de cada um dentro daquela unidade de Operações Especiais. O entusiasmo da maioria era visto na velocidade dos preparativos.

Esta era a 2a Companhia de Operações Especiais do 18o Batalhão de Infantaria Motorizada (Porto Alegre/RS) conhecida naquele período da história do Brasil como a melhor e mais preparada unidade de elite do III Exército, que abrange os Estados do RS, SC e PR.

Aquele dia, aparentemente pareceria ser um dia normal como qualquer outro, exceto por ser o dia da comemoração da Independência do Brasil, o que pra nós na condição de cidadão seria motivo de orgulho em poder participar.

Enfim, estávamos todos preparados para o evento que como sempre, era mais uma oportunidade das Forças Armadas do Brasil e do Governo Militar de mostrarem a sua organização, disciplina e poderio bélico. Aliás, este era um dia tipicamente de atividades cívico-militar que faria uma boa propaganda da coesão e do controle do país pela Ditadura.

E, há muito tempo, eu já estava posicionado contra aquele estado de coisas (sic).

Na vida militar, ninguém tem hora certa para dormir ou acordar a seu bel prazer como na vida civil. Tudo é feito com muita disciplina e o militar tem que estar sempre preparado pra qualquer situação, a qualquer momento e em qualquer lugar.

Naquele dia 7 de setembro de 1973, foi muito diferente. Muitos dos nossos amigos e companheiros de farda demonstraram não estarem preparados para aquilo que internamente teria sido apenas uma fatalidade? Após as viaturas estarem simetricamente organizadas, fizemos uma ultima revista nos armamentos e nos apetrechos que usaríamos no desfile militar.

Essa é uma regra a ser seguida por qualquer unidade, e por se tratar de uma especializada em contra guerrilhas e de assalto, fazíamos o uso continuo de munição real num estado permanente de prontidão. Aos integrantes das outras unidades, este quesito era uma prerrogativa somente dos chamados “soldados do núcleo base ou prontos” ou quando estivessem em serviço.

No nosso caso, o mais novo integrante tinha no mínimo dois anos de serviço dentro da força. Seguindo no relato, já era cerca de 05h30min e após as viaturas iniciarem o deslocamento, pude observar atentamente o tamanho do aparato de combate ali concentrado.

Era fenomenal a quantidade daquele contingente sui gêneris e, fortemente armados e municiados que integrava a 2a Cia OP. Na carroceria de cada caminhão, por cima da cabine, estava postada num mono pé, uma metralhadora Browning ponto 50 de alto poder de fogo, (suficiente para derrubar helicópteros ou aeronaves de pequeno porte) e que estavam municiadas com cerca de mil projeteis.

Cada elemento de nossa viatura dispunha de um FAL (Fuzil Automático Leve) com 60 cartuchos, sendo 20 no carregador da arma e quarenta no cinto VO.

Outros elementos dispunham do FAP (Fuzil Automático Pesado), ou carregavam consigo os morteiros 81 mm com placas base e granadas. Havia também o transporte de dois canhões 57 mm. Os oficiais e os graduados portavam as metralhadoras Beretta 9 mm (recém incorporadas) e pistolas Colt 45.

Ainda compondo o arsenal individual e básico, uma faca de trincheira, duas granadas defensivas ou ofensivas e uma fulmígena, além de ração operacional para dois dias de combate. O nosso comboio era formado por 10 caminhões, sendo 8 de transporte de tropas, 1 de combustível e outro de suprimentos.

Além disso, acompanhava uma viatura do tipo “pipa d’água”, mais 4 pick-up’s armadas com uma metralhadora Browning ponto 50, cada uma ou as recém incorporadas e poderosíssimas metralhadoras MAG 7,62 (fabricação belga 1972) e ainda mais dois jipes sendo um com o comandante da companhia e outro de apoio e comunicações.

Também pude observar a diversidade de armamentos em outras viaturas do Batalhão, e dentre estes, eu pude visualizar em algumas viaturas da 1a Cia de fuzileiros (tropa regular) as já absoletas, mas mortíferas metralhadoras “Madsen” calibre 7,62 (padrão OTAN).

Estas metralhadoras de fácil transporte foram usadas em guerrilha e também como aramas antiaéreas por pequenos grupos de combate em vários conflitos pelo mundo afora, incluindo aí a guerra de Biafra na África.

Essas armas faziam parte do arsenal de muitos Exércitos do Cone Sul, e dispunham de um carregador na parte superior e um espalha chama que lembra um funil, na boca do cano de saída.

Passados alguns minutos de nossa saída pelo portão das armas nos fundos da unidade, entramos diretamente na Avenida Ipiranga. Já estávamos na altura da antiga fabrica de moveis Santa Cecília e no meio de uma curva acentuada, foi quando comentei (sem sair daquela posição uniforme) ao meu amigo Lima o seguinte:

– Pô Lima, ta faltando mesmo é alguma ação de verdade, quem sabe alguns tirinhos pra gente queimar a adrenalina né?

E sem se mexer do lugar, o meu amigo Lima respondeu:

– É mesmo Carlos Alberto, ia ser muito legal, isso ia agitar a rapaziada he he.

 

      Não demorou mais que 10 segundos do nosso comentário quando escutei a primeira metralhada, imediatamente me abaixei num instinto de sobrevivência, o Lima fez o mesmo, mas outros, alguns eu pude ver, permaneceram imóveis.É tudo muito rápido e de impulsos automáticos.

 

Num primeiro instante pensei que estávamos sendo atacados? Fiquei confuso por fração de segundos quando visualizei de onde viam os tiros, vi claramente a aquele ponto de fogo em nossa direção.A metralhada partia do topo de um caminhão da 1a Cia de fuzileiros que vinha atrás do nosso último caminhão. Talvez por sorte de estarmos exatamente no ponto alto da curva é que escapamos de ser atingidos, mas o mesmo não aconteceu com o caminhão que estava na nossa frente.

Em todos os treinamentos que havia recebido durante a minha passagem pelo Exercito, aquela situação me levaria a responder instantaneamente, aliás, a todos nós. Imediatamente várias viaturas de nossa companhia frearam, e outras ficaram quase que de lado em posição de combate. Cheguei a preparar o meu FAL em posição de tiro e com a intenção de pular da viatura, quando repentinamente escutei uma gritaria horrenda e generalizada.

O meu amigo Lima estava incrédulo diante do acontecido. Num primeiro instante não conseguia falar nada, ficou com os olhos esbugalhados e cara de pavor com o que acabara de ver. Os gritos vinham do caminhão de nossa companhia que estava bem a nossa frente, havia muitos companheiros estirados na viatura e gemendo de dores, completamente ensangüentados.

Num passar de segundos escutei a voz de comando do Tenente Siqueira (Oficial R/1-Selva), um jovem carioca de 24 anos que comandava nosso pelotão na companhia, e que bem alto gritava: Ninguém desce das viaturas que já estamos iniciando os procedimentos e fiquem calmos que está tudo sobre controle?

      Neste momento eu vejo o meu amigo Soldado Rosa nos braços do Ten Siqueira e auxiliado pelo Sargento Lopes carregando nosso companheiro com o peito todo ensangüentado e, o que senti naquele momento é que ele já não estava mais aqui.O Rosa era um sarará bem forte, se destacava muito nas missões que eram confiadas a ele, era o tipo de sujeito militarmente de confiança.

 

Participávamos juntos dos treinamentos de combate corpo a corpo e dos ensinamentos de Karatê do estilo chotokan que recebíamos na 2a Cia OP do então campeão mundial da modalidade no ano de 1972, o mestre paulista e professor Luis Watanabe que estava radicado em Porto Alegre e tornara-se instrutor oficial de varias unidades de elite do Exercito.

 

O mestre Watanabe tinha varias academias em Porto Alegre, e eu cheguei a treinar algumas vezes numa dessas que ficava no Bairro Cidade Baixa, muito próximo da Avenida João Pessoa, mas não estou lembrado do nome da rua.

O nosso companheiro Rosa também tinha o seu lado descontraído, muitas vezes nós saiamos juntos com outros companheiros para aquilo que hoje a rapaziada chama de “balada”. O camarada Rosa era um sujeito muito extrovertido.

Fizemos parte duma turma num cursinho preparatório ao Curso de Formação de Sargentos. Estas lembranças eu guardo até hoje. Logo atrás da tentativa de salvarem o meu amigo, passou correndo outro grupo de oficiais e Sgtos de nossa Cia carregando mais uns feridos e neste momento também reconheceram o meu amigo Soldado Paixão (nome de guerra) com o pescoço e o rosto virado (sic) em puro sangue, o SD Paixão ainda se mexia e gemia muito.

 Soube mais tarde que o SD Paixão tinha levado um tiro que tirou um pedaço do seu queixo e outro transfixou o seu braço esquerdo.

A seguir várias viaturas de pequeno porte se enfileiraram e saíram em disparada levando os diversos feridos e os prováveis mortos em direção ao HGPA (Hospital de Guarnição de Porto Alegre). Apesar da confusão e do estado emocional que vivia naquele instante, consegui observar o grau de organização e disciplina que tínhamos apresentado diante daquela situação.

Aquela era uma situação inimaginável por todos nós e do qual jamais havíamos previsto, ou seja, sofrer um ataque de forças supostamente amigas?

Nosso comboio ficou parado não mais que 10 minutos, foi quando recebemos ordens de prosseguir em direção ao local do desfile. Foi muito difícil ver e, ter que suportar o estado emocional de nossa tropa frente ao acontecido.

Nunca tinha visto e, mesmo em outras situações semelhantes, ter que desfilar e compartilhar com os olhos cheios de lagrimas o sofrimento coletivo pela perda prematura de amigos. O dever imposto pela circunstancia nos colocava perfilados de forma mecânica diante de uma população alegre e ansiosa por assistir o desfile militar.

Não se comentava nada do acontecido, que, aliás, nem era permitido em conformidade com o RGE (Regulamento Geral do Exercito). A imprensa escrita ou televisiva local, não divulgou nenhuma linha sequer a respeito do fato.

Os oficiais e comandantes de pelotões de nossa companhia e das outras que compunham o 18o B.I. Mtz estavam tão incrédulos quanto ao restante da tropa e, agiam como se nada tivesse acontecido. Mas ninguém é de ferro, e de volta ao desfile logo após deixar nossos companheiros aos cuidados da corporação médica, pude observar o Tenente Siqueira fazendo um esforço descomunal para esconder as lágrimas, afinal, ele conhecia cada um de seus comandados.

O desfile continuou com os aplausos da população que enchia todos os espaços possíveis para assistir a nossa passagem e, festejar o dia da independência do país. De volta ao 18o Batalhão e durante a formatura da tropa, os murmúrios começaram de forma sutil.

O Coronel Brochado (sic) comandante do Batalhão fez um discurso elogioso ao nosso comportamento, mas nada nos confortaria ou acalmaria. Sobre o ocorrido, seus argumentos não me convenceram, ou seja, explica, mas não justifica.

Ninguém podia comentar o acontecimento, mas segurar a boca e a ansiedade da tropa era praticamente impossível. As primeiras informações corriam de maneira dispersa, mas eu particularmente só queria saber o nome do elemento que estava no comando daquela “Metralhadora Madsen”, que no meu entendimento e de outros companheiros, fora postado propositadamente para nos provocar o maior número de baixas possíveis, que alias, aparentemente seria fácil de dissimular.

Uma das maneiras era o de interpretar como se fosse algum acidente provocado pelo manuseio de um praça aparentemente despreparado.

Mas Isto não me convenceria o suficiente pra que eu tivesse este entendimento, já que ali naquele Batalhão, estava a Companhia número 1 do III Exercito. A sorte me ajudou, e eu consegui ver a cara do assassino dos meus amigos dentro da 2a Seção (de informações e contra informações) do Batalhão.

Ele conversava com o oficial encarregado do IPM, (Inquérito Policial Militar) e eu o reconheci. Este sujeito já era um soldado pronto, eu já tinha cruzado por ele em algum lugar dentro do quartel, mas não me lembrava onde, talvez pudesse ter sido na barbearia, na alfaiataria ou mesmo no Rancho do quartel, mas enfim, que importância ou, no que resolveria lembrar-me onde havia visto aquele canalha?

O tal sujeito, vergonhosamente havia sido apresentado como um integrante do período de formação, êpa (sic) se o bandido era um recruta (não era verdade) por que raios ele foi designado ao comando daquela metralhadora?

Dizem que o FDP ficou preso apenas por 30 dias. Tive vontade de “arrancar” as entranhas daquele covarde ou, de “empalar” o desgraçado.

O nosso ódio pelo sujeito era tão grande que seriamos capazes de arrancar ele e seus protetores da toca, como se arranca um tatu em fuga. Os facínoras se comportavam como se o acontecido tivesse sido apenas um acidente, ou mesmo uma fatalidade.

Mas o nosso grupo sabia o que verdadeiramente tinha sido armado. Após o incidente? A escala de serviços sofreu mudanças, e encerrado o IPM, o canalha nunca mais foi visto na unidade. Mas seguramente fora transferido e até mesmo promovido por aquela façanha macabra. Os motivos daquele suposto incidente (?), pra mim seriam fáceis de entender.

Vários integrantes de nossa unidade passaram por treinamentos especializados, fortes e contínuos com o objetivo de integrarem as forças do Exercito no combate a Guerrilha do Araguaia e em outras frentes no país. Essa tarefa já estava sendo vista como se fossem mandar a “Raposa cuidar das galinhas”.

Esta situação já é histórica no Brasil. Muitos militares e ex-militares integraram grupos de guerrilhas e de resistência em várias épocas da historia política do país. Sem fazer comparações ideológicas ou partidárias, posso citar o líder Osvaldão do Exercito do Povo no Araguaia (Ex-Oficial R/2 do Exercito Brasileiro), O Capitão do Exercito e ex-Senador Luis Carlos Prestes do PCB e que comandou a “Coluna Prestes”, O Ex Tenente (Expedicionário) Salomão Malina (um dos líderes da ala militar do PCB), o também Capitão do Exercito Carlos Lamarca, líder maior da VPR (Vanguarda Popular Revolucionara), e tantos outros oficiais, graduados e praças das Forças Armadas, que com suas vidas, construíram a historia da resistência no Brasil.

Na continuidade do relato, o comandante do “Pelotão assassino” da 1a Cia de Fuzileiros tinha sido exatamente o 1o comandante de meu pelotão na 2a Cia Op. depois do acontecido, eu nunca mais vi o 2o Ten R/1 Demo, nem mesmo durante todo o restante do tempo que permaneci no 18o B. I. Mtz (fui considerado desertor em 14 de junho de 1974).

Este foi justamente o oficial encarregado de direcionar os praças aptos a assumirem o comando das metralhadoras prontas para o desfile.

O Tenente “Demo” (apelido do oficial) tinha sido um dos melhores alunos do curso de Comando, Sobrevivência e Guerra na Selva que são ministrados pelo CIGS (Centro de Instrução e Guerra na Selva) de Manaus/AM, e, isto fazia dele uma referencia no nosso adestramento. Sob o comando deste oficial, eu fui um dos alunos bem sucedidos no Curso de Sobrevivência, Guerrilhas, Operações Especiais e também no de embarque e desembarque de Aeronaves em movimento que foi realizado no 5o ETA (Esquadrão de Transporte Aéreo) da Base Aérea de Canoas/RS.

Putz, mas este Curso foi uma loucura mesmo, dizer que pulamos e embarcamos com todos os apetrechos de combate num avião em movimento é coisa de outro mundo, mas para o Exercito, é o momento oportuno de desembarcar tropas de elite num aeroporto ou território eventualmente ocupado por tropas inimigas.

     Seguindo na linha do Tenente Demo, o que me levou a este raciocínio foi exatamente à estratégia dele, aparentemente dissimulada e no qual eu tinha conseguido fazer esta leitura. Como todo Combatente Operacional, esta possibilidade de reação sempre foi prevista nos nossos “Manuais de Combate” e, em qualquer lado ideológico.

 

O fato, é que nossa unidade tinha se tornado um entre posto e local seguro para o aprisionamento de supostos subversivos e elementos da resistência contra a Ditadura Militar.

 

Ocorre que nesta convivência continuada com os presos políticos e pseudo-s subversivos, os praças que periodicamente eram destacados para fazerem a guarda destes, simplesmente passavam a ter acesso a informações pessoais e ideológicas que nasciam a partir de um relacionamento de camaradagem com os presos. Isto talvez tenha sido a razão maior do surgimento de um núcleo marxista dentro de nossa unidade (e noutras também) no qual eu passei a ser observado e posteriormente me tornei integrante.

 

Para tentar impedir, ou inibir qualquer eventual adesão, o comando da unidade afixava em vários pontos do quartel uma “Carta de Arrependimento” supostamente escrita por um suposto “guerrilheiro arrependido” que conclamava a todos a abandonarem a luta armada, porque não valeria a pena lutar contra o “Brasil” e blá blá blá…

Num desses dias que fiquei de guarda na cadeia onde havia um grupo de presos, conheci um cara que tinha mais ou menos 45 anos, ele tinha os cabelos negros, mas já estavam despontando pequenas mexas branca, era um pouco calvo, e aparentemente sofria de estrabismo, (como eu mesmo tenho e adquiri em decorrência de um acidente no Exercito uns quatro anos após ter desertado).

Ele inicialmente se apresentou como sendo um pedreiro da construção civil. Segundo Miguel (este era o nome usado por ele e, se era verdade ou mentira, pra mim pouco importava). Segundo ele me disse, tinha sido preso por estar fazendo panfletagem em frente a uma fabrica na grande Porto Alegre, e era uma atitude que foi considerada subversiva pelos órgãos da repressão.

 

Miguel havia passado por varias unidades militar pelo período de seis meses em cada uma. Já havia passado pela 1a Cia de Guardas, pelo 3o BPE, pelo QG do III Exercito e, ali estava sem a menor perspectiva de ser libertado ou mesmo com esperanças de sair vivo.

Após adquirir a confiança e o respeito de Miguel, que mais tarde se identificou como simpatizante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionaria) do então líder Capitão Carlos Lamarca, e do qual eu também era simpatizante, ficamos amigos. A partir dali, passamos a trocar idéias, e muitas vezes conversamos sobre a situação no país.

Em certas ocasiões eu comprava cigarros com o meu soldo (a maioria dos presos, a família não localizava, e estes omitiam a existência, até por uma questão de segurança), e lembro bem da marca, “Continental” de maço azul e branco que o Miguel gostava de fumar e pedia pra eu fornecer a ele, obviamente eu fazia isto com extremo cuidado.

Na hora do “Rancho” (almoço, café ou jantar) sempre que podia, eu aproveitava e colocava bastante pão, carne e frutas na bandejão que levava ao Miguel e aos outros presos no qual fizera uma aproximação. Chegamos a fomentar a idéia de facilitar a fuga dos presos ali do quartel, e somente deixamos de lado diante de novos encaminhamentos internos que incluía a tomada da unidade num ato de sublevação.

Loucura? Eu não pensava assim. Nós não tínhamos o direito de vacilar ou de errar, se fossemos pegos, seriamos mortos de imediato. O 18o B.I. Mtz foi o inicio da minha adesão na idéia de combater a Ditadura Militar por dentro, e isso eu pude perceber na vontade de muitos companheiros que contrariados com o que acontecia no país, se manifestavam abertamente para os companheiros que consideravam de confiança.

Com o aumento dos efetivos nos combates no front do Araguaia, e a transferência de praças e graduados, ficou evidente o descontentamento interno sobre o que acontecia. Naqueles dias houve um aumento nos índices de deserções com finalidades políticas.

Essas deserções aconteceram justamente pelo vazamento sutil da possibilidade de tomada das unidades onde servíamos. Mas enquanto estivéssemos ali, nós tínhamos que discutir e inicializar uma política de mudanças que previa todas essas possibilidades.

Diante do aumento da repressão contra os grupos organizados da resistência, nós não poderíamos ficar de braços cruzados. Uma das maneiras que consideramos mais adequados para o funcionamento do nosso núcleo marxista seria nos encontros realizados em locais fora da unidade.

Por várias vezes nos reunimos em boates, lanchonetes ou mesmo na casa de algum integrante pra fazermos um churrasco de final de semana, que eram muito comuns no relacionamento entre praças e graduados.

Por força de nossa segurança eles aconteciam com um número reduzido de participantes, Estas situações possivelmente nos colocaria fora de qualquer “suspeita”, e deste jeito à gente aproveitava o momento pra colocar os assuntos em dia diante dos últimos acontecimentos. Até aquele momento era o mínimo que poderíamos fazer embora nossa vontade maior fosse a de partir para o ataque frontal contra as tropas leais ao governo no nosso próprio ninho.

O surgimento destes núcleos deu-se também a partir de uma vertente de remanescentes de um grupo de militares que apoiavam o Capitão Carlos Lamarca, quando de sua passagem pelo 3o BPE (Batalhão de (Policia do Exercito) em Porto Alegre nos anos 60. Aliás, Lamarca deixou um numero infindável de admiradores e seguidores políticos e ideológicos, dentre estes eu me incluo e, mesmo não o tendo conhecido pessoalmente.

Esta simpatia por Lamarca dentro do Exercito ficou evidente pra mim num fato acontecido no ano de 1971. Neste ano eu servia no 22o GAC (Grupo de Artilharia de Campanha) então comandado pelo Ten Cel pára-quedista Dickson Melges Grael (pai dos medalhistas Torben e Lars Grael) que foi um dos pioneiros do pára-quedismo militar no Brasil. Mais tarde, nós descobrimos que o Ten Cel Dickson era um agente e chefe da Regional de fronteiras do SNI (Serviço Nacional de Informações) no Rio Grande do Sul.

Naquela unidade eu incorporei com apenas 16 anos e fui um dos primeiros a freqüentar o curso de pára-quedismo em Uruguaiana. Um dos melhores saltadores na nossa unidade era o então Capitão Victor Pacheco Motta que era o comandante da 2a Bia Can (Bateria de Canhões) onde estava sediado o PELOTAR que eu era integrante.

O Capitão Motta tinha sido instrutor de pára-quedismo nas Brigadas pára-quedista do Rio de Janeiro, na AMAN (Academia Militar de Agulhas Negras), e ainda instrutor dos Cursos de Comando, Sobrevivência e Guerra na Selva do CIGS. O Capitão Motta era também um especialista do Curso de Operações Psicológicas desenvolvido pelo Exercito naquele período.

Mas enfim, ali estavam alguns dos “Falcões” da Doutrina Militar brasileira e da “Casta da Ditadura”. As fronteiras brasileiras eram objetos de vigilância e mapeamento do fluxo de pessoas que por ali transitavam.

O Ten Cel Dickson Melges Grael era o Provável chefe da Operação Condor da região das fronteiras e que vigorava naqueles dias. Lembro-me que no mês de julho de 1971 aconteceu uma reunião gigantesca e de caráter secreto, de altas autoridades militares da mais alta patente do Exercito Brasileiro. Isto no meu entendimento foi em decorrência do prestigio do Ten Cel Dickson Melges Grael junto ao Governo Central.

O Ten Cel Dickson Esteve nos EUA e se especializou em muitos cursos junto ao Exercito Americano, incluindo aí o de pára-quedismo Militar realizado na década de 40/50 e que posteriormente ajudou a implantar no Brasil.

Eu me divertia muito observando o posto de cada um dos integrantes ali presentes, contava às estrelas que cada um ostentava na platina da farda, e se eram gemadas ou não. Enfim, eu realmente fiquei impressionado com o numero de medalhas e condecorações que muitos oficiais ostentavam no peito, e me lembrava do jargão “cabeça erguida, peito pra fora”.

Quando eu era criança, nem pensava em seguir a carreira militar, mas por um destino, fui devolvido aos cuidados do Estado por uma família de empresários que eram fazendeiros e judeu, que me adotaram juntamente com minha irmã de idade 1 ano mais nova. Com eles, ela permaneceu até atingir a maioridade e vir a casar.

Neste ponto, fico eternamente agradecido pelo humanismo despertado por aquela família. Esta situação me levou a optar pelo serviço militar voluntário que foi a forma que encontrei pra me livrar daquele “aprisionamento” forçado no meio de mais de 160 meninos considerado abandonados ou em risco social por uma serie de motivos.

Tudo isto já existia naquele tempo (Lamarca tinha razão) que alias, me lembro muito bem de ter escutado a Copa do Mundo de 1966 num radinho de pilhas que pertencia a um menino daquele Educandário Rural.

Outra lembrança foi a de ter assistido o homem descendo na lua em 1969. Esta façanha eu assisti sentado num chão gelado ao lado de vários meninos. Era uma televisão grande de madeira ficava no alto e tinha a imagem bastante tremida e chamuscada, o volume era muito baixo e qualquer um que abrisse o bico, levava um safanão na orelha.

Mas voltando ao encontro da ECEME, o menor posto entre os participantes era o de Capitão, que na maioria das vezes eram ordenanças dos Oficiais Superiores da patente de Coronel e Oficiais Generais. Mas também havia muitos Tenentes Coronéis e Majores presentes nesta Cúpula do Exercito representados pela Escola de Comando e Estado Maior do Exercito (ECEME). Durante este período eu fiquei de prontidão na unidade.

Participei de vários PC Trans (Postos de Controle de Transito) com barreiras fortemente armadas e com barricadas compostas por peças de metralhadoras e sacos de areias em vários pontos estratégicos da cidade de Uruguaiana, incluindo também outras regiões da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

Cheguei a participar na perseguição de um veiculo pequeno que encurralamos junto a uma pequena usina da CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica) que ficava a direita da ponte Internacional e da aduana brasileira. O Veiculo tinha tentado burlar a barreia e saiu em disparada (o motivo era apenas a documentação irregular) Os sujeitos foram presos e soltos após o termino da reunião de Cúpula Militar.

No campo de futebol existente dentro do 22o GAC pousou cerca de oito helicópteros e eu fui um dos elementos do PELOTAR (Pelotão Aerotransportado) que atualmente são conhecidos como PELOPES (Pelotão de Operações Especiais) a fazer a segurança daquelas aeronaves até então top de linha nas forças Armadas.

Colocamos uma rede verde de camuflagem por cima dos helicópteros que ali permaneceram por três dias ininterruptos. Ficamos de olhos abertos por 24 horas e com a adrenalina no ápice. Neste período é que eu pude perceber a grandiosidade daquele encontro que fora comandado pelo mais alto escalão do Exercito e da “Cúpula Dirigente do Regime Militar”.

Mas retornando ao eixo principal, no mês de agosto daquele ano havia rumores no quartel sobre uma perseguição ao Capitão Carlos Lamarca que se encontrava possivelmente no norte/nordeste do país.

Alguns comentários davam conta de que Lamarca havia rompido vários cercos programados para pega-lo e, esta era apenas algumas suposições emitidas por oficiais superiores.

Mas eu também me lembro claramente das torcidas formados por praças, graduados e jovens oficiais que eram a favor, e daquelas torcidas indisfarçáveis, mas cautelosas que eram contrários a prisão do nosso nobre líder da VPR.

Já na metade do mês de setembro, houve uma pausa nos comentários a respeito deste assunto. Mas eis que no dia 18 de setembro de 1971 fomos informados oficialmente da morte do Capitão Carlos Lamarca e de outros (que foram emboscados e assassinados brutalmente no Estado da Bahia). Esta noticia provocou um grande choque no quartel.

Lamarca era um exímio atirador, e tinha sido Campeão Sul Americano ou brasileiro de tiro ao alvo. Lembro-me que naquele dia circulou uma revista de mão em mão mostrando o nosso líder ensinando bancários a atirarem. Aquelas fotos foram guardadas na minha mente como relíquia de boas lembranças.

Pensar que o Exercito Brasileiro comemorou a morte do Capitão Carlos Lamarca? Ledo engano, o mal estar foi geral, nossa unidade silenciou por completo durante vários dias em homenagem aquele homem que tinha o ideal de transformar o Brasil num país mais justo, humanista e igualitário, ou seja, numa nação verdadeiramente Independente e Socialista.

De origem pobre e humilde, o carioca Capitão Carlos Lamarca sempre lutou como um verdadeiro bravo e pagou com a própria vida a incompreensão daqueles que comandavam o país com mãos de ferro, a Ditadura Militar.

Se por um lado o comando do Exercito considerava Lamarca um traidor, por outro, dezenas de jovens Oficiais, Sargentos e Praças de todas as armas o veneravam, e nunca conseguiram esconder esta afeição por aquele que era um exemplo de determinação e ideal a ser seguido.

Isto deixava a Cúpula Militar em polvorosa, e que mais tarde culminou numa perseguição interna nas Forças Armadas e sem precedentes na historia política do Brasil.

Como relatei, e assim diziam os antigos:– Isto eu vivi, e presenciei com estes olhos que a terra um dia há comer!

OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!

 

Carlos Alberto Bento da Silva Ex militante do PCB e do PSTU

Texto original publicado no dia 7 de Setembro de 2007 em outro blog.

 

Desertei em junho de 1974 e, a partir daí passei a levar uma vida de fugas.

 Eu estava sendo cassado pelos integrantes de minha unidade. Em 1975 fugi para a República Argentina. Viver na argentina parecia não ter problemas até aquele ano embora às coisas também não estivessem tão calmas assim, e eu sentia que deveria estar no Brasil.

 

       Com o meu retorno ao Brasil, comecei a perambular por vários estados.

      Em 1976 iniciei fazendo artesanato como forma de sobrevivência. Eu havia conhecido alguns artesãos em Porto Alegre logo após ter trabalhado por curto espaço de tempo como cobrador de ônibus.

 

Coincidentemente eu aprendi um tipo de artesanato com um casal de argentinos, e a seguir com outros artesãos brasileiros.

 

Em março de 1977 eu me casei em Porto Alegre depois de já estar um ano vivendo com minha companheira, porém, a nossa vida não poderia ser levada ali.

 

     Eu havia sido informado por alguns amigos, (inclusive do exercito) que estava sendo procurado pelos S2 (2ª Seção de Inteligência – Informações e Contra Informações) da unidade militar que servira. Imediatamente eu passei a percorrer o país na tentativa de me manter em liberdade frente ao crime de deserção com conotação política (nunca concordei com a presença de presos civis no quartel do 18º BIM), também já estava sendo monitorado por minhas posições políticas já há algum tempo, por isso, estava sendo caçado.

 

      Tomado a decisão, imediatamente me dirigi à região sudeste do país. Todo cuidado era pouco, e minha companheira não poderia jamais saber os reais motivos. Eu levava uma vida de dupla personalidade motivada pelas circunstâncias.

 

      Em São Paulo me juntei a um grupo de ativistas que periodicamente participavam das manifestações que ocorriam no centro da capital.

 

      Lembro-me como se fosse hoje, estava morando ali na Praça Princesa Isabel (Campos Elíseos) e soube de uma investida das forças de segurança em uma célula que realizava uma reunião dos dirigentes do PCdoB ali no bairro da Lapa. Nesta ação foram presos vários dirigentes daquele partido que estava na resistência armada contra o regime militar.

      No ano de 1977 eu entrei para a Feira de Artes e Artesanato da Praça da República. Naquele mesmo ano nasce o meu primeiro filho, no ano seguinte nasce uma menina.

 

      O meu casamento passou a se tornar complicado. Eu precisava ocultar da esposa a minha condição de procurado. Consegui fazer durante o período que vivemos, até que no final de 1979 me separei. Eu havia conhecido ela no ano de 1976 na cidade de Passo Fundo/RS.

 

      Durante nossa convivência eu saia periodicamente para um suposto trabalho, na verdade, participava de atividades políticas, muitas delas na área central da cidade de São Paulo. Naquele ano cheguei a ser detido por não portar documentos. Tentaram me incluir num artigo de lei criado pela ditadura como “vadiagem” Era obvio que eu não deveria portar documentos, estava sendo procurado.

 

      Ninguém poderia imaginar que um meio índio, cabeludo e barbudo do tipo hippie, pudesse ser desertor de uma unidade operacional. Seria impossível

 

imaginar que aquele sujeito vestido como tal pudesse ser um ex-militar procurado.

      Alguns fatores fundamentavam a minha prisão: Meu testemunho referente aos presos políticos que existiam na unidade, minha militância clandestina dentro do próprio Exercito e os treinamentos com as estratégias de lutas contraguerrilhas que eu dominava, juntamente com as informações das ações que ocorriam no front do Araguaia.

 

       Periodicamente recebíamos essas informações, o Tenente Siqueira Oficial R/1 que era o comandante de meu pelotão na 2ª Cia Op. nos passava quase que detalhadamente as ações ali ocorridas. Comentava que o Exercito já havia feito “contatos” (combates), e que vários estavam lá há algum tempo, chegando de todas as formas possíveis.

 

      A tropa estava fazendo incursões descaracterizadas, na verdade se instalando como se civis fossem. Alguns como representantes comerciais, trabalhadores de mineradoras ou comerciantes mesmo. Essas informações privilegiadas nas mãos de desertores poderiam levar as ações ao fracasso ou até mesmo dificultá-las.

 

      O exercito não abriria mão de prender ou de matar qualquer desertor nesta condição, ou que debandasse para o lado da resistência. Assim fizeram com vários militantes de esquerda. O mais conhecido foi o Capitão Carlos Lamarca do qual havíamos nos tornado seguidores.

 

      Não era por menos, que naquele período, as força da resistência contra o regime militar estavam sofrendo uma avassaladora derrota. Na verdade estava ocorrendo à prisão, a tortura e o assassinato em massa dos supostos subversivos que caiam em mãos do aparelho repressor. Aqueles que não morriam em combate eram levados para os DOI-CODI e para as repartições do DOPS espalhadas pelo país.

       Os DOI-CODI eram conhecidos como os porões da ditadura, eram na verdade, departamentos policiais de inteligência, especializados em torturas, e tinham suas estruturas montadas dentro das próprias instalações militares existentes.

 

      Os militares com o apoio das Policias Civis dos estados, da Policia Federal, do DOPS, das Polícias Militares, da Marinha e da Aeronáutica estavam levando vantagem nos enfrentamentos. Essa doutrina estratégica de combate previa a integração de todas as forças militares e de segurança. Os resistentes eram aniquilados através de execuções sumárias e torturas, principalmente aqueles que por infelicidade caiam em suas mãos. Houve muitos casos de execuções forjadas como resistência a prisão.

 

      As ações no Araguaia eram prioridades para as forças armadas que estavam treinando centenas de soldados para o teatro de operações.

 

 A repressão era contínua em todos os níveis da sociedade.

 

      Nas assembléias legislativas, nas Câmaras de Vereadores e nas repartições públicas, havia uma verdadeira caça as bruxas que tinha iniciado a partir do golpe, mas continuava a todo o vapor.

 

No setor privado, alguns empresários até entregavam seus funcionários em troca de facilidades junto ao regime militar.

 

     Os sindicatos existentes atendiam fielmente os pleitos patronais. Não havia resistência declarada no meio sindical. A igreja católica comungava abertamente com tudo o que os militares executavam, porém, sempre existem exceções, neste caso, a atuação do Cardeal Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns da Diocese de São Paulo, e um pequeno setor da igreja foi uma dessas. 

 

      As arapongas dissimulados de funcionários públicos eram colocadas em cargos de chefia a serviço do Regime Militar. Prefeitos foram nomeados naquilo que chamavam de Áreas de Segurança Nacional, como exemplo, a cidade de Santos, Foz do Iguaçu, Florianópolis e tantas outras.

 

      O Regime Militar criou também os chamados Senadores Biônicos (escolhido a dedo pelo Governo Militar. Os Governadores eram nomeados. Enfim, era verdadeiramente um regime de exceção que vigorava no Brasil.

 

       O Delegado Sergio Paranhos Fleury era um nome muito forte do aparelho repressor em São Paulo. Comandava pessoalmente várias operações sujas, mais conhecidas como as de extermínios, incluindo ai a dos presos políticos.

 

     No meio político ouvia-se dizer que alguns militantes estavam entregando os seus companheiros mediante tortura. Alguns comentavam da existência de agentes duplos infiltrados nas entidades de classe toleradas pelo regime e nos serviços públicos.

 

      Existem ainda nos dias de hoje uma parcela ínfima de políticos que cresceram política e eleitoralmente a partir daquele período. Hoje, ainda gozam das benesses do poder com apoio dos seus amigos da falsa esquerda de sempre. Que, aliás, logo após a abertura se fracionou em partidos políticos juntamente com os chamados padres progressistas da igreja católica.

 

       Esses camaleões do falso socialismo tornaram-se descaradamente os apoiadores de hoje daqueles que no passado foram seus aliados ocultos.

      Eis aí a dura tarefa de se combater de frente aqueles que estão beijando a mão dos algozes.

 

      Em 1978 iniciou-se uma seqüência de manifestações em São Paulo e no ABC Paulista.

 

      Os metalúrgicos da região faziam assembléias que eram proibidas e fortemente reprimidas pelo aparato repressor. Os governos paulistas subseqüentes mantinham uma cumplicidade com o governo central que intrinsecamente lhes apoiavam. Naquele período do bi-partidarismo, ficar no anonimato era a garantia mais plausível para os militantes mais ativos.

 

      Durante as manifestações daquele ano, a repressão foi estarrecedora. Eu estava no interior da Praça da República vendendo artesanato quando escutei o barulho de sirenes e de tiros bem próximas dali. Imediatamente me retirei do local.

 

Guardei o meu material e fui em direção ao epicentro dos enfrentamentos.

 

       Juntei-me com um grupo de populares que resistia jogando pedras e outros objetos para cima da Policia Militar. Viaturas da ROTA (Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar) subiam na calçada e partiam para cima dos pedestres.

 

Soldados a pé empunhavam cassetetes e batiam em qualquer um que estivesse em seu caminho.

 

      As ruas sete de Abril, Barão de Paranapiacaba, a Rua Barão de Itapetininga, a Praça Rui Ramos, Praça Clóvis, o Viaduto do Chá, as Rua Direita, Rua 15 de Novembro, Rua Conselheiro Nébias, a Praça da Sé entre outras, estavam todas ocupadas pela policia que prendia aos montes os resistentes.

 

      Consegui juntamente com alguns manifestantes, me abrigar no interior da estação São Bento do metrô, mas a polícia não estava nem aí, jogaram uma dezena de granadas de Gás Lacrimogêneas para dentro. Foi aí que tomei a iniciativa de devolver os artefatos. Lembrei-me de que com um lenço (de preferência umedecido) no rosto e com este deitado no chão, minha chance de não ser contaminado ou atingido pelo gás seria maior. Logo em seguida um grupo de jovens começou a fazer o mesmo. Cada vez que a policia jogava uma granada nós devolvíamos para fora.

 

      Repentinamente um grupo de policiais mascarados entrou ali dentro e começou a prender algumas pessoas. Por sorte eu consegui escapar naquilo que se chama “nas barbas de netuno’, ou melhor, passei normalmente no meio deles como se nada tivesse acontecido.

 

       Saindo para o centro do Largo São Bento é que pude ver um grande número de viaturas e o aparato ali prontificado, mesmo assim consegui ir até a Praça da Sé onde os enfrentamentos continuavam.

 

      Novamente me vi no meio do conflito. Não sentia medo algum, apenas uma preocupação de que pudesse ser preso e posteriormente identificado. Os enfrentamentos duraram cerca de uma hora e meia. A princípio de forma concentrada e a seguir já estava acontecendo mais disperso.

 

        O Centro velho de São Paulo (o novo é a região da Paulista e Jardins) pelo que tinha visto estava todo ocupado pela policia militar e pelo exercito que procurava nunca aparecer publicamente.

 

      Eu retornei para a Praça da República. A feirinha que acontecia diariamente de maneira informal tinha acabado naquele dia. Eu retornei pra casa como se nada tivesse acontecido. Morava na Rua Jandaia entre a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e a Avenida 23 de Maio Proximidades do bairro Bexiga. Do outro lado ficava o Bairro Japonês da Liberdade.

 

      Naquele ano ainda aconteceram outras tantas manifestações e escaramuças nas grandes cidades. Os trabalhadores de varias categorias insistiam em fazer greves e a repressão continuava forte pra cima desses e da população.

      No mesmo ano eu consegui uma licença mediante teste na Feira de Artes e Artesanato na cidade de Embu das Artes. Um ano antes tinha sido na Feira da Praça da República. Minha permanência ali no Embu durou pouco mais de dois meses. Estava trabalhando com as mercadorias expostas no chão, havia colocado um cobertor e montado uma caminha improvisada para o meu filho.

 

      Eram 13 horas da tarde de um domingo movimentado quando resolvi ir à padaria mais próxima comprar alguma coisa para comer. Feito isso, no meu retorno fiquei surpreso com as reclamações de minha companheira e de meu compadre Pedro de Arruda (artesão). Eles me disseram que um sujeito havia passado com os pés em cima do cobertor e quando chamado a atenção revidou com palavras de baixo calão.

 

      Minha companheira tinha dito a ele que falasse para o seu marido e ele disse: Daqui a pouco eu volto e quebro a cara dele. Ele nem sabia quem eu era, se era gordo, magro, alto, baixo, fraco ou forte, mas sinceramente, isso pouco importaria para o sujeito que estava um pouco alterado. Não demorou mais que dez minutos quando fui surpreendido com um palavrão.

 

      O cara que me chamou para a “porrada” gesticulava muito. Bem, eu não me intimidei, estava calmo, mas atento. O sujeito era um cara com fisionomia de nordestino (soube mais tarde que era pernambucano), era bastante forte e com a altura aproximada de 1,80 metros.

       Assim que o cara começou a tirar a camisa eu dei um soco bem forte no olho dele, o sujeitinho caiu no cão e rapidamente se levantou, era ágil mesmo, mas eu não deixei por menos e segui na seqüência batendo umas duas vezes no mesmo olho. Não deu outra, o cara cambaleou, e até pensei que iria desmaiar.

 

       Neste ínterim, outro sujeito mais baixo estava levando uma surra de meu compadre que para azar deste, ele era praticante de capoeira e gostava de uma briga de rua. Os dois sujeitos que estávamos brigando saíram em disparada.

 

      Nesse momento apareceu um artesão que há anos trabalhava ali no Embu das Artes e me disse: Carlão (meu apelido entre os artesãos) caia fora que o cara foi buscar um revolver, ele é violento e trabalha ali na padaria onde você foi comprar os lanches. Ele vai pegar vocês.

 

      Vá embora agora mesmo para o teu bem insistiu o meu amigo. Eu escutei atentamente o artesão que conhecia há algum tempo e recolhi o meu material, meu compadre fez o mesmo. Pegamos um taxi e nos dirigimos até São Paulo.

 

      No outro final de semana, para ser exato no outro sábado, ficamos sabendo que o sujeito andava armado lá no Embu nos procurando. Acho que escapamos por pouco. Nunca mais coloquei os pés ali no Embu das Artes.

 

… As manifestações pela abertura democrática se intensificavam no Brasil inteiro.

      Em Santa Catarina ocorreu à conhecida novembrada, que, aliás, foi reproduzido em um filme dirigido pelo ex-jornalista Celso Martins (conheci-o como assessor de imprensa da OAB de SC durante um encontro com a comissão de Direitos humanos da Ordem que fora agendada por ele).

       Anos mais tarde, Celso Martins tornou-se um grande cineasta. Em 1979 os militares aprovaram a lei de anistia geral e irrestrita, sendo essa a bandeira da sociedade civil e do MDB.

 

      Neste período eu já havia estado em Florianópolis como artesão, fiquei um curto tempo morando na Lagoa do Peri.

 

       As campanhas foram intensas. No meu caso, não saberia dizer ao certo se estava anistiado. Como desertei em 1974, obviamente segundo o Regimento Geral do Exercito (RGE), o crime militar de deserção seria prescrito somente dez anos após. Mas havia outro entendimento. Como eu fora um militante clandestino, estaria beneficiado por esta lei? Eu preferi não arriscar.

 

      Após o retorno de vários personagens da política que haviam saído do Brasil para não serem mortos, entre esses, Leonel Brizola, Fernando Henrique, e outras dezenas, incluindo ai artistas, professores, militantes e cidadãos comuns. O Brasil inteiro passa a exigir eleições diretas, sendo que, no Estado de São Paulo, as manifestações ganham um impulso espetacular.

 

      O Estado de São Paulo era o maior centro reivindicatório e de resistência contra a manutenção do Regime Militar, e eu estava presente no vale do Anhangabaú próximo ao Correios, onde foi realizado um grande comício em favor das Diretas já. No mesmo período ocorreram outras grandes concentrações também na Praça da Sé e eu também participei.

 

        Às vezes eu fico boquiaberto de ver personalidades políticas, antes inexpressivas, auferindo pra si o feito das diretas já.

 

      Ora, o povo compareceu ali aos milhares naqueles comícios porque já não agüentava mais. A repressão e a supressão dos direitos individuais, da liberdade de opinião, de expressão, e da falta de democracia que culminasse com a livre escolha dos mandatários era o porta bandeiras do povo. Éramos todos a favor de Eleições Diretas já.

 

       Em 1982 ocorreram eleições para governador e para o senado, para prefeitos, vereadores e deputados. As eleições ocorriam simultaneamente em todos os níveis.

 

       No Congresso Nacional a emenda constitucional “Dante de Oliveira” que defendia eleições diretas para presidente da Republica foi fragorosamente derrotada.

     

      No ano de 1983 as manifestações continuaram em São Paulo. Naquele ano ocorreram dois grandes quebra-quebras no centro da capital paulistana.

       Num grupo de pessoas saiamos pelas mesmas ruas do centro velho (de outras manifestações) quebrando lojas, vitrine de bancos, e do comercio em geral. Como já era de praxe a policia militar com a ROTA e a Cavalaria, cercou o centro da cidade, mas foram derrotadas nos primeiros 45 minutos da revolta.

 

      O Povo saqueava as lojas, quebrava tudo que via pela frente. Na rua direita o comercio tentou se proteger fechando as portas, mas não deu tempo de nada. O povo invadiu todo o comercio central. A polícia cercou a Praça da Sé tentando encurralar os manifestantes, mas não conseguiu.

 

      Confesso que não fiquei indiferente. Não desperdicei aquela oportunidade. Com um grupo de estudantes quebramos várias vitrines de Bancos e financeiras existentes ali na Rua 15 de Novembro e nas imediações do largo do Café. Não demorou muito tempo e a Rota se fez presente.

 

Tentei correr para o interior de um edifício comercial e fui impedido. Levei umas cacetadas nas costas e nas paletas e sai titubeando, gemendo de dores, mas não me deixei ser preso.

 

       Os policiais batiam em qualquer parte do corpo. Houve um breve momento em que encurralaram o nosso grupo. Nós reagimos jogando pedras e paus na direção deles. Um grupo de estudantes vindos do Largo São Francisco e de operários nos deu uma boa quantidade de bolinhas de gude e de miguelitos (uma espécie de cravos de ferro com três pontas, que jogados no chão sempre cai uma para cima), produzidos em série nas fabricas do ABC paulista. Vinham bombas de gás lacrimogêneas de todos os lados.

 

      Quase fui preso, por um instante pensei que isso iria ocorrer. Se isso realmente acontecesse, talvez eu fosse identificado e processado sem direito a liberdade. Tinha no meu histórico clandestino o crime de deserção e estávamos em plena ditadura militar e apesar da famigerada anistia estar em vigor.

 

       No ano de 1980 eu já estava separado do primeiro relacionamento.

 

       Numa das minhas idas para o sul do Brasil eu conheci uma menina de 16 anos em Porto Alegre. Na mesma semana eu a trouxe para São Paulo. Tivemos dois filhos, novamente um menino e uma menina. Já estava com quatro filhos, sendo dois de cada casamento.

 

 No ano de 1981 durante um breve período de três meses eu fiquei em Porto Alegre.  Eu me esgueirava sempre que podia, aliás, também me sentia até meio seguro com o jeito hippie de me vestir e viver.

 

      Durante um dos dias que estava em Porto alegre, resolvi entrar numa lanchonete que existia na Rua da Ladeira, na parte de cima quase próxima da Rua dos Andradas (conhecida como Rua da Praia), ao entrar e pedir um cafezinho (minha bebida preferida) eu fui logo reconhecido pelo ex-Cabo Dias.

 

       O Cabo Dias tinha sido o nosso armeiro na 2ª Cia de Operações Especiais do 18º Batalhão de Infantaria Motorizado, unidade militar do qual eu havia servido e desertado no ano de 1974.

 

O cabo Dias me disse apreensivo e ao pé do ouvido: Carlos Alberto, suma de Porto Alegre, os caras ainda querem te pegar, se te acharem vão te matar. Eu não pensei duas vezes. A companheira que vivia comigo na época desconhecia o meu passado político e de ex-militar. Assim sendo, eu tratei logo de arranjar um motivo e retornamos para São Paulo.

 

      Por tudo que eu tinha passado, nunca envolvi minhas companheiras nas minhas ações políticas ou as deixei participar de assuntos passados que no fundo nãos lhes diziam respeito. Obviamente sempre tive a responsabilidade de não colocá-las em risco, assim eu também agi com minha irmã.

 

Eu posso contar nos dedos às vezes que a encontrei. Ela me disse certa vez que tinha me visto vendendo artesanato na Rua Dr. Flores esquina com a Rua dos Andradas.

 

      Lembro que depois do primeiro encontro com minha irmã em 1971 quando servia no 22º GAC, eu voltei a encontrá-la somente em 1973 já servindo no 18º BIM. Em 1976 ela me encontrou vendendo artesanato na Rua da Praia em Porto alegre. As outras vezes foram em 1980 numa rápida vinda que fiz a Porto Alegre e a ultima em 1989 quanto estive na companhia de minha filha Michelle, (do segundo casamento).

 

      Eu não tenho magoas de minha irmã, mas confesso, eu sou um sujeito muito desajeitado, mas também sou sistemático e decidido. Não finja diante de mim que eu consigo pegar no pulo. Eu entrei uma única vez na casa de minha irmã. Não tomei nem mesmo um cafezinho. Da ultima vez que a encontrei, eu fui recebido no portão por ela e, não fiz questão de entrar, na verdade ela não tinha me convidado.

 

      Eu me lembro até hoje, que após o nosso primeiro encontro, eu retornei alguns anos depois, procurando-a no endereço antigo ali na Avenida Independência ao lado daquele teatro no centro de Porto alegre, infelizmente não a encontrei. Logo que me dei conta de que havia perdido-a de vista, eu fiquei novamente desesperado.

 

Iniciei uma busca pela lista telefônica e pra minha surpresa, fui bem sucedido. O Telefone estava em nome de seu marido, meu cunhado. Imediatamente fui ao seu encontro.

 

      Às vezes eu fico pensando, as tecnologias da informação e da comunicação têm ajudado milhares de famílias a se encontrarem. Um exemplo disso está no Orkut, na internet e em outros meios como a própria televisão que disponibiliza programas específicos de audiências. Eu já tentei algumas vezes procurar os meus pais que nunca conheci, mas, até o momento, ainda não tive sucesso.

 

      Já faz uns cinco anos que eu venho mantendo contato com ela e com suas filhas (minhas sobrinhas), tanto no Orkut, quanto através do MSN. Periodicamente conversamos. Eu sempre estou informado da situação deles que vivem no Rio Grande Do Sul. De verdade mesmo, dos cinco filhos que ela tem, eu conheci somente duas sobrinhas e um sobrinho, as outras não tinham nascidas ainda quando a visitei em 1989.

 

 O mesmo ocorre com ela em relação aos meus filhos e enteados. Eis ai a oportunidade que temos por conta das redes sociais na internet.

 

       Sinceramente, não fico triste por ter esse relacionamento quase gelado com minha única irmã que conheço, aliás, minha única parenta direta. Na verdade, eu mesmo procurei isto quando decidi não me aproximar dela por conta da minha condição política de ter desertado, e estar sendo procurado pelo exercito. Esta foi à forma que encontrei para poder preservá-la de eventuais problemas com a ditadura militar.

 

      O maior exemplo de minha atitude eu encontrei lá no 18º BIM. O companheiro que conheci nas prisões do quartel enquanto eu servia, fazia o mesmo com sua família.

 

      Nunca a visitou e nunca recebeu sua visita. Miguel que era simpatizante da VPR amargou vários anos de prisão apenas por estar fazendo panfletagens em frente de uma fabrica na grande Porto Alegre.

 

Ele havia passado por várias unidades militares sem o conhecimento da justiça.

 

Miguel dizia que era melhor morrer só do que ser egoísta e levar a família junto apenas por burrice.

 

      O aparelho repressor do regime militar costumava investigar as famílias inteiras dos integrantes das suas listas de procurados, e não deixava por menos a dos prisioneiros políticos. Não é nada fácil você ter de abrir mão de um relacionamento familiar.

 

Não é fácil você ter de se esquivar ou ignorar propositadamente sua família para poder preservá-la, sem que esta saiba o porquê dessa atitude. ´

 

      Nunca levei sequer (sic) uma única palavra com minha irmã sobre minha vida privada, de foro intimo ou, mesmo de política. Penso que minha irmã me veja como uma pessoa qualquer. Jamais poderia imaginar o sofrimento que passei na luta pela preservação de minha vida.

 

Diferente de outros militantes que se exilaram. Embora eu tenha tentado viver fora do Brasil, eu permaneci no país lutando internamente dentro das possibilidades que encontrava.

 

      Também fiquei anos sem poder tirar uma carteira de trabalho profissional. Na verdade, durante o período que dei baixa do 22º GAC e re-inclui no 18º BIM em 1972, eu consegui tirar. Ocorre que logo após minha deserção eu fugi para a República Argentina, e para evitar ser identificado eu queimei todos os meus documentos e assumi o nome de Carlos Alfredo da Silva.

 

      Vale lembrar que o meu nome tinha sido ilegalmente trocado para Carlos Alberto Bento da Silva. Tenho orgulho de ter minha vida salva inúmeras vezes com o meu nome verdadeiro de Carlos Alfredo.

       

      Lembro-me como se fosse hoje. Eu havia embarcado num trem de santos para Itaianhém no litoral sul do Estado de São Paulo, era o ano de 1976, recentemente eu tinha vindo do Sul do país.

 

      Estava dentro do trem e ali eu já tinha iniciado a fazer artesanato, meu visual era o de um verdadeiro hippie. Meu cabelo estava caído até os ombros, eu já despontava com os pequenos sinais de um estrabismo ocorrido por conta do acidente que sofri em 1973 quando estava no 18º BIM.

 

      Naquela viagem eu carregava uma bolsa de couro confeccionada por mim mesmo, tinha aprendido com outros hippies a produzir artigos de couro, entre estes mocacins, bolsas, carteiras, sandálias, portas-cheque, porta moedas, pufs e outros artigos.

 

       Enfim, eu já havia adquirido os meios quase profissionais para poder sobreviver na informalidade. Mas, o material que eu carregava naquele momento, eram apenas alguns pares de mocacins, meio litro de ácido sulfúrico, vários pedaços de chapas de latão de três ou quatro espessuras, uma latinha contendo Neutrol (tinta betuminosa a base de asfalto), um tesourão, um jogo de três alicates para confeccionar bijuterias, miçangas, pedrinhas de vidros, canutilhos, uns três quilos de arames de latão e outros acessórios.

      O trem balançava de vez em quando, eu não me incomodava, cortava a chapa e recortava. Meu objetivo era ir adiantando os trabalhos enquanto não chegava ao destino.

 

O chefe do trem vinha caminhando acompanhado de um policial militar, eles pararam, me olharam e seguiram caminhando de vagão em vagão. Cerca de cinco minutos após, retornaram, e o policial pediu meus documentos, eu disse que os havia perdido. Bem ele disse, o Sr terá de me acompanhar na próxima estação.

Estávamos chegando a Pedro de Toledo e o PM me ordenou que descesse ali mesmo.

 

      Eu desci e falei pra ele: Eu não tenho dinheiro para pegar o próximo trem e muito menos para comer, por isso gostaria de ser liberado rapidamente para não perder este. Ele me disse educadamente (sic) não se preocupe, nós o colocamos no próximo trem. A seguir “convidou-me” para ir até a delegacia que ele queria fazer algumas averiguações. Lá chegando o tom da conversa mudou.

 

Ele gritou comigo ordenando: tire a camisa seu vagabundo, tire a calça, fique somente de cuecas.

 

      Abra a bolsa e jogue tudo no chão, rápido dizia enquanto me dava tapas na cabeça. Eu olhei pra cara dele dentro dos olhos e disse: Você não pode me agredir, não te fiz nada e você não comprovou nada. Chame-me de Senhor seu vagabundo, e emendou: Quem manda aqui é eu e cale esta boca.  Você vai ficar preso pelo tempo que eu quiser.

 

      A seguir me mandou colocar as roupas, logo após ter feito uma revista minuciosa nelas, me algemou e colocou-me numa cela com outros dois presos.

 

      Os caras estavam ali há uns três meses, um por brigas e o outro por pequenos furtos. O que havia brigado saia da sela periodicamente para fazer a limpeza da delegacia. Havia sempre um PM junto dele acompanhado o trabalho. Dois dias após, me colocaram sozinho numa cela.

 

       Todos os dias o Cabo entrava na cela e periodicamente me fazia perguntas, na maioria das vezes de caráter político. Na verdade eu me deixei levar por questionamentos que fazia a ele sobre meus direitos. Isto despertou uma linha de entendimento por parte dos policiais.

 

      Fiquei revoltado e não aceitava estar preso por nada, ao menos eles desconheciam meu passado ou minha vida. Em dado momento o cabo chamou o sargento que era o delegado da cidade, na verdade ele passava esta imagem.

 

      O sargento me tirou da cela, levou-me para uma sala e me fazia várias pergunta repetidas: Qual é o teu nome mesmo: Eu sempre dizia, Carlos Alfredo ele retrucava, qual é o teu nome mesmo? E assim ele ia me testando para pegar alguma mentira, era completamente desconfiado.

 

      Eu fui um desconhecido que apareceu ali, e naquele clima da ditadura ele me usou como uma espécie de cobaia para ter o que fazer. No mesmo dia resolveram me dar umas bordoadas por não gostarem do jeito fechado de me comportar. Não lhes respondia por duas vezes o que me perguntassem. Poderiam me matar se quisessem. Aprendi durante a minha passagem pelo exercito a resistir a qualquer tipo de tortura.

 

      Eu saberia dissimular, saberia mentir e saberia como não entregar os meus companheiros. Mas eu já não era um militar fiel aos princípios do exercito. Era um militante marxista. Eu havia me convertido ao marxismo-leninismo desde os tempos do 22º GAC, dentro das próprias fileiras do exercito. Na verdade, ali naquele momento eu apenas exercitava aquilo que tinha aprendido nos treinamentos militares.

 

      Certamente eu morreria, e eles saberiam apenas o meu primeiro nome. Ficaram extremamente desorientados com aquele tipo hippies que só dizia ser Carlos Alfredo.

 

       Reviraram e analisaram várias vezes os meus pertences, só encontravam bijuterias feitas com miçangas e latões. Talvez tivessem me considerado um débil mental, um tipo de andarilho que não poderia lhes fazer mal algum, mas insistiam na sua saga malvada.

 

      O sargento e o cabo me colocaram na mesma sala de antes e resolveram me dar alguns socos nas costas. O cabo dizia: vou te matar na chibata seu vagabundo. Pegou um pedaço de pau revestido com uma mangueira de plástico e de vez em quando batia nas minhas costas, primeiramente de leve como se estivesse me testando, logo começou a bater forte.

 

Eu olhei para os lados e vi que estávamos a sós. Não pensei duas vezes, dei um soco debaixo para cima no queixo do cabo que caiu, mas a seguir se levantou gritando: Seu filho da puta, eu vou te matar desgraçado.

 

      O sargento e mais uns três soldados entraram na sala e começaram a me bater. Depois de uns dois minutos levando bordoadas nas costas, o sargento ordenou que parassem. Minutos depois fui levado novamente para a cela onde estava preso.

 

      Aquele dia foi terrível pra mim, passei com fortes dores pelo corpo, sentia uma dor de cabeça terrível. Parecia que iria desmaiar.

 

      Naquele mesmo dia não me deram comida. Na verdade, desde que tinha sido preso de graça (sic), eu comia somente uma vez por dia. Era apenas a metade de uma marmita que era dividida entre os presos. Água? Eu pensava duas vezes antes de beber quando me traziam. Desconfiava que pudessem cuspir dentro, ou colocassem qualquer outra porcaria.

 

      Durante o período que estive preso, eu bebi água somente em três ocasiões. Em cada uma delas, eu bebia como se fosse o ultimo dia da minha vida. Na cela não havia torneira nem chuveiro, apenas um buraco naquele chão fedorento. Cobertores e colchões? Nem pensar, eu dormia agachado e encolhido no chão, me cobria com as pontas da camisa que vestia.

 

      Não vou esquecer jamais das torturas físicas e psicológicas pelo qual eu havia passado. Vale ressaltar que eu não estava ali como um preso político, mas aquelas ações policiais, se caracterizavam como um modus operandi das forças policiais que defendiam e respiravam o sistema ditatorial que o país vivia.

 

      Aquele quadrilátero entre Santos-Peruíbe, Eldorado Paulista-Miracatu, havia se transformado numa região propícia para a guerrilha rural. Este fato ficou registrado com a descoberta dos campos de treinamentos da VPR no início dos anos 70.

 

      Houve momentos que cheguei a pensar que tinham descoberto quem eu era de fato, que tinham descoberto o nome pelo qual eu estava sendo procurado pelo exercito.

 

      Cheguei a pensar que estavam apenas aguardando que elementos do DOI-CODI (Departamento de Operações Interna e Centros de Operações e de Defesa Interna) que existiam em várias unidades militares, ou, mesmo do DOPS, ali chegassem. Mas, eu estava enganado.

 

      Aquele grupo de trogloditas que comandavam a segurança pública da cidade de Pedro de Toledo/SP (localizada as margens da atual Rodovia Manoel da Nóbrega) parecia que estavam apenas brincando de polícia. Dois dias após a seção de torturas pelo qual eu havia passado, o Sargento resolveu me mandar embora. Chegou à cela e disse: Carlos Alfredo, nós não encontramos nada contra você, pode ir embora.

 

      Eu senti ali uma luz de liberdade, vi no rosto daquele policial uma leve expressão de arrependimento. Ele falou de maneira educada como no dia que me abordou no trem. Parecia ter saído de um transe espiritual. Perguntei a ele: Sargento, onde estão os meus pertences? Ele respondeu: Eles vão ficar aqui com os demais presos. Um deles já está usando tuas ferramentas sob a custódia de um policial.

 

      Você esta fazendo uma doação voluntaria, não é verdade? Sim eu disse a ele (tinha sido confiscado), dirigindo-me para a saída da delegacia. Alto gritou o Sargento, vamos escoltá-lo até a saída da cidade, isto é praxe quando prendemos forasteiros na cidade. Você não é bem vindo aqui. Sabemos como vivem os hippies, sexo, drogas e rock in roll, pode ir.

 

      A seguir eu saio andando na direção que ele apontou. Atrás de mim estava uma camioneta Rural Willis que andava a baixa velocidade. Dentro estava o Cabo, o Sargento e mais um soldado.

 

      Na mão do Sargento um velho fuzil modelo Mauser, alemão, calibre 7,62 com o sabre que mais parecia uma espada. Ano de fabricação? 1934. Esta era uma arma antiga, mas mortífera, eu já a conhecia. A cerca de dois quilômetros estava à estrada Manoel da Nóbrega que me tiraria daquele inferno. Quando eu entrei na estrada eles esperaram vários minutos até eu desaparecer completamente das suas vistas.

 

Com o tempo passando, eu olhei para trás e não os enxergava mais.

Ufa, respirei, pensei que iriam me fuzilar pelas costas.

 

      No ano de 1978, numa das viagens que havia feito a Porto Alegre, passei a organizar os artesãos que trabalhavam na rua. Normalmente naquela época as feiras hippies eram toleradas e até incentivadas. O motivo? Eu diria hoje que era para passar a idéia para alguns setores da sociedade de que havia certa liberdade. Que os hippies representavam essa condição, quando na verdade, trabalhávamos em verdadeiros guetos controlados pelo aparato de segurança pública.

 

      Em Porto Alegre havia sido criada em 1976 a hoje tradicional feira do Parque da Redenção. Um grupo de mais ou menos trinta artesãos trabalhava na rua e não eram reconhecidos pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Inúmeras vezes tentamos criar uma nova feira de artesanato no centro da cidade.

     Em 1978 tivemos o inicio de uma pequena feira que realizamos em baixo de um túnel nas imediações da Avenida Alberto Bins, mas que, infelizmente durou muito pouco tempo.

 

      Em 1982 nós passamos a pleitear novos espaços. Na verdade, nós precisávamos oficializar alguns espaços que esporadicamente já eram utilizados pelos artesãos hippies diariamente no centro da cidade.

 

     Depois de muitas discussões e tratativas, durante uma assembléia de Artesãos, resolvemos criar uma entidade que congregasse o coletivo e tentar abrir novos espaços de trabalho. Talvez aí sim nós tivéssemos resultados mais concretos.

      Estava muito difícil para o grupo ter de enfrentar os fiscais municipais todos os dias. Tomada aquela decisão, precisávamos redigir um estatuto.

 

Havia os modelos padrão que eram de acordo com o que o governo militar permitia, incluindo aí o próprio Ministério do Trabalho.

 

Eleito presidente de uma comissão provisória, coube a eu elaborar um esboço para posterior discussão. Há aquele ano haveria eleições para prefeito, governadores, vereadores deputados etc. As eleições aconteciam simultaneamente em todos os níveis.   

      Procurei o candidato a prefeito que mais contava com a simpatia dos artesãos, Alceu Colares e o vice Glênio Peres.

 

      Fiquei sabendo que os dois estavam fazendo um corpo a corpo pelas ruas do centro da cidade e sai a procurá-los. Encontrei os dois que estavam conversando com três pessoas e aguardei o final do papo a uns dois metros. Estávamos em frente o Colégio do Rosário. Glenio Peres se aproximou cumprimentando-nos (Eu estava acompanhado de mais dois artesãos) Escutei ele falar sobre a campanha, o que pretendia etc. O Alceu Colares complementou a falação e perguntou o que gostaríamos que fizesse caso fossem eleitos. Eu coloque o problema enquanto escutaram atentamente.

 

       Falei com bastante convicção do que pretendíamos que em dado momento o Alceu Colares falou: Tchê moreno, você é preparado heim, porque não entra para a política? Seria um bom candidato, você fala muito bem, tem desenvoltura e poderá se sair bem, você conhece do assunto concluiu rindo.

 

      Os Dois assumiram compromissos conosco. O Glênio Peres se colocou a disposição para ajudar a elaborar o estatuto e nos passou um endereço que ficava num prédio acima da antiga e tradicional lanchonete e cafeteria “Rian” que ficava na Rua da Praia.

 

      No outro dia eu fui ao local indicado pelo candidato a vice-prefeito. Glênio Peres nos recebeu muito bem, serviu um cafezinho para mim e os demais e iniciamos a elaboração. No outro dia, novamente fomos recebidos, desta vez estávamos somente em dois artesãos. Em dado momento da conversa começamos a falar de política. Eu disse a ele que conhecia a sua historia.

 

      Ele perguntou e eu falei alguma coisa. Ele seguiu falando de forma entusiasmada. Tinha preocupações com os resultados da eleição e temia certas restrições eleitorais. Glenio Peres era vereador quando foi cassado pela ditadura, esteve em Cuba e retornou ao Brasil com a idéia de continuar fazendo política. Finalmente conseguimos elaborar o estatuto da entidade, que votado em assembléia, foi aprovado.

 

      Eu fui eleito o primeiro presidente da UNAL (União dos Artesãos Livres. Como eu não podia ficar muito tempo num só lugar (temia ser preso) eu viajei. Antes disso passei a função para ou meu vice, conhecido como ciganinho (já falecido em acidente automobilístico as uns quatro anos em Porto Alegre

 

      Como artesão eu me permitia perambular pelo país, fazia isso quase sempre de carona, era muito mais seguro. Durante algum período eu tentei levar uma vida normal, mas sinceramente era quase impossível. A única coisa que me trazia certa segurança era a maneira que me vestia (colares, pulseiras, braceletes, roupas extravagantes, inclusive algumas compradas em lojas conhecidas como lixão), ali eram vendidas roupas jeans norte americanas de todos os tipos. Sendo assim (eu pensava) não seria reconhecido facilmente com aquele cabelão negro e encaracolado abaixo dos ombros e uma barba acentuada.

 

      Porém, havia comigo uma informação e um alerta que eu tinha recebido anteriormente de um amigo e posteriormente do ex-Cabo Dias quando de minha estada em Porto Alegre. De fato, nem precisariam estar me avisando, meu receio era permanente, tinha a impressão de que estava sendo vigiado por onde eu andasse. Aplicava no meu dia a dia o que havia aprendido lá mesmo no exercito, ou seja, o de nunca permanecer durante um combate, por mais de cinco minutos no mesmo lugar.

 

Era assim que eu agia. Conversava um pouco e já saia andando rumo a qualquer lugar.

      Sem motivo aparente eu convidei minha segunda companheira para irmos até o Estado de São Paulo. Chegando à capital paulista fomos morar num hotel ali na Avenida Duque de Caxias, muito próximo da Praça Princesa Isabel (local que havia morado nos anos de 1976/77. Era o Hotel Duque de Caxias.

 

      A partir dali eu comecei a preparar um plano pessoal de sair do país. Já não era mais aquele menino ingênuo que entrara para o Exercito aos 16 anos. Sabia claramente que se fosse pego pelos militares sofreria graves conseqüências, incluindo ai a possibilidade concreta de ser assassinado como ocorreu com outros companheiros de luta.

 

      Juntei uma quantia ínfima em dinheiro e comecei a direcionar minha viagem até Brasília. Saí pelo interior de São Paulo indo em direção a Minas Gerais, passei pelo triangulo mineiro e me dirigi ao Estado de Goiás. Fui direto a Brasília. No caminho eu ia vendendo artesanato.

 

Carregava no colo meu terceiro filho, sendo ele o primeiro do segundo casamento.

 

      Minha companheira só ficou sabendo o que eu pretendia fazer quando já estávamos praticamente dentro de Brasília. Eu sentia certo receio em me abrir para ela, e não estava totalmente enganado. Acho que se tivesse conversado mais francamente há mais tempo, talvez fosse diferente o resultado.

 

      Mas enfim, decidido o que faria, eu a convidei para irmos para fora do país. Em poucas e curtas palavras eu comentei com ela a minha condição de desertor, (omiti outras informações) disse a ela que se saíssemos do Brasil poderíamos viver melhor. Convidei-a para irmos para a França, e eu disse a ela que eu temia ser preso pelo exercito.      

 

 Também comentei que tinha sido avisado por um ex-colega de farda, de que eles estavam me procurando. Se fosse pego poderia ser morto. Comentei também que como não poderia tirar todos os documentos para exercer uma atividade formal, o melhor seria sairmos do país.

 

      Ela me ouviu atentamente e concordou. De fato nossa situação não estava muito boa. Ela era uma menina que também tinha sido abandonada pela mãe e passado toda a sua infância em internatos de caráter religioso. O internato do qual ela viveu era ligado a Igreja adventista que mantinha convênios na área educacional com o Rotary Clube do Brasil.   

 

    Nessa condição ela ainda tinha uma relação com a igreja adventista, e eu cheguei a acompanhá-la algumas vezes nos cultos. Antes disso, do ponto de vista religioso, eu havia me afastado do judaísmo há algum tempo. Houve um período que segui por alguns meses também a conhecida “Fé Bahaí”. Enfim, éramos dois ex-internos que sonhavam com dias melhores. No meu caso, havia a questão de salvar a minha pele das garras da opressão.

      Nos dias anteriores estávamos passando algumas dificuldades. Como pretendia ir para a França, não queria demonstrar que era apenas um Artesão-Hippie, sendo assim comecei a me desfazer dos meus produtos vendendo-os a preços baixos.

 

Quando já estava quase sem nada, iniciei a venda de minhas ferramentas.

 

       Durante nossa permanência em Brasília ficamos dormindo na rua com nosso filho nas imediações do CONIC (uma galeria existente nas imediações da antiga rodoviária). Outras vezes ficamos no alojamento de uma construção que havia parado há alguns meses. Esta construção estava localizada no Plano Piloto na L2 próximo a Fundação Getúlio Vargas.

 

      Os alojamentos estavam em perfeito estado e eram ocupados por um grupo de hippies. Alguns deles eu havia conhecido durante minhas andanças Brasil a fora. Quando cheguei ali à primeira vez fui logo convidado a entrar.

 

      Nós cozinhávamos numa lata vazia de óleo de cozinha que tinha aproximadamente 18 litros. Todos contribuíam com uma grana e ali fazíamos nossa comida. Às vezes um sopão, outras um arroz carreteiro. Não dava pra gente variar a comida por conta da localização muito próxima de prédios habitados. Mesmo assim, nossa alimentação coletiva acontecia.

Eis que chegou o grande dia.

 

      Eu falei para a minha companheira: Nós vendemos tudo o que tínhamos e agora não temos nada, vamos para a embaixada da França? Ela não me respondeu apenas me acompanhou. Chegando ao Lago Sul eu fiquei admirado pelas construções ali existentes. Brasília é realmente uma cidade organizada. Havia dois setores de embaixadas, as do lago sul e as do lago norte. Enfim, ali estávamos diante de nosso objetivo.

 

      Passei caminhando em frente da Embaixada da Colômbia, e da embaixada do México. Quando estava a certa distância, lembrei-me que dias antes, um cidadão havia se abrigado ali e o governo Brasileiro estava relutante com o caso. Mas, eu pensei por alguns segundos que minha saída do Brasil pudesse ser por este país, mas, e se desse errado? Se os mexicanos não me concederem asilo como é que ficarei?

 

       Decidido, caminhei até a embaixada da França.

 

        Já tinha comigo uma desculpa que faria com que me deixassem entrar, sem sombra de dúvidas. Tínhamos colocados nossa melhor roupa. Estávamos completamente descaracterizados como hippies, na verdade pareceríamos um casal comum.

 

      Quando cheguei à entrada fui interpelado por um Policial Militar do Brasil. A embaixada da França era protegida por um Muro de circundava outro muro que abrigava verdadeiramente a embaixada francesa. Os policiais militares brasileiros estavam ali como reforço.

 

      A França era conhecida internacionalmente como uma terra de asilos, um país solidário para aqueles que sofriam perseguições em seus países. Era um país que dava total proteção aos perseguidos do mundo inteiro. Foram assim com vários perseguidos políticos brasileiros que haviam retornado com a lei de anistia. Mas o meu caso teria que passar por cima do entendimento de que ninguém mais poderia ser preso ou perseguido por questões políticas após esta lei.

 

    Estávamos todos anistiados? Não era verdade. As perseguições e assassinatos no Brasil ocorriam mesmo durante o processo de abertura política. Durante os anos de 1986 e 1987 a anistia internacional registrou o assassinato por motivação política de dois ou três jornalistas no Brasil. Comigo, seguramente não haveria exceções.

 

     Andando, imaginei, seria difícil entrar ali, eu sabia disso, mas precisava adentrar o seu espaço extraterritorial, se conseguisse nada iria me fazer voltar.

      Uma embaixada tem a mesma garantia internacional da extraterritorialidade que tem um navio ancorado em qualquer país sob sua bandeira. Isso se aplica nos dois casos. Na verdade, funciona como um pedaço de seu país em território de outro.

 

      Eu fui entrando no pátio cercado com muros, passava ao lado da cancela de veículos quando o Policial Militar me perguntou: Vai a onde? O que o Sr deseja? Eu respondi: Boa tarde Senhor Eu gostaria de me dirigir à embaixada. Sou de Porto Alegre, tenho um pedido de uma vizinha amiga que esta com o seu filho na frança há uns dois anos e não tem noticias dele. Eu gostaria apenas de obter algumas informações pra poder levar a ela no meu retorno a Porto alegre. Estou aqui a passeio.

 

      O Policial Militar nos olhou atentamente, viu que estávamos com nosso filho no colo da mãe e disse: É por ali senhor, entre naquele portão que estará dentro da embaixada. Ali tem uma recepção, irão lhe atender, por favor, disse.

      Eu não estava acreditando que o meu sonho estava por acontecer. Não acreditava que tinha sido tão perfeita a minha idéia de mentir sobre o filho da tal vizinha.

 

      Chegamos ao Balcão e uma Senhora loira de uns 40 anos ficou nos olhando enquanto atendia outras pessoas. Volta e meia me olhava de cima para baixo. Não tirava os olhos da sacola que eu portava. Na verdade, ali existiam apenas as roupas de nosso filho. Eu fiquei alguns segundos pensando nos dois que estaria deixando no Brasil. Eu nutria uma grande confiança de que nosso futuro seria melhor. Meu filho mais velho estava com o seu padrinho.

 

      A minha filha irmã dele também estava com sua madrinha em São Paulo Capital. Os dois havia nascidos ali em 1977 e 1978.  Ambos os padrinhos eram artesãos bem sucedidos financeiramente. Fazer artesanato e vende-los de forma continuada numa Feira de Artes e Artesanato, era uma garantia de sobrevivência plena.

 

      Nos dias de hoje, sabemos pela historia que as feiras e praças que acabaram, com algumas exceções, levaram dezenas de Artesãos ao estado de miséria. Hoje este segmento social e cultural vive na grande maioria, em condições paupérrimas, miseráveis e até de mendicância. Isso é lamentável.

 

     Passado aqueles pensamentos eu caí na realidade. A senhora loira de olhos azuis chegou ao balcão bem a minha frente, me olhou nos olhos e perguntou em português BR: O quê o Sr deseja? Em que posso servi-lo? Eu respondi: Estou me asilando aqui!

 

      A loira deu um sorriso maroto e me disse: Como assim? E novamente lhe respondi: Estou me asilando e daqui não saio. Ela fez uma expressão séria como se não estivesse acreditando no que ouvira, e imediatamente chamou outro senhor que falava português, mas, mantinha um sotaque Frances arrastado em suas palavras.

 

      Ele então me perguntou com ares de cumplicidade com aquela que lhe chamou: O que o Sr deseja mesmo? Não respondi no ato. Esperei cerca de 30 segundos que para os dois pareciam intermináveis e falei: Estou me asilando aqui e não vou sair deste que é um território Frances. O Diplomata (eu soube mais tarde) me convidou para ir a uma salinha conversar mais calmamente. Ele tinha entendido o que eu queria, mas estava procurando me desestimular como se isso fosse algo anormal naquela circunstancia política pelo qual o Brasil passava.

 

       Ao entrar na sala eu observei com o canto dos olhos e não me contive num sorriso disfarçado quando vi que dois marinheiros da armada francesa que eram partes da segurança interna revistavam rapidamente nossa sacola que apenas continha as roupas de nosso filho.

 

      O Diplomata quis saber as razões que me levaram a pedir o asilo. Contei calmamente alguns episódios e a razão pelo qual eu estava sendo perseguido. Ele me ouviu atentamente. Após os meus comentários seguiu dizendo: Não podemos dar asilo para o Senhor, a França realmente tem essa tradição. Casos iguais ao do Sr acontecem no mundo inteiro, e emendou, se o senhor desejar, eu posso lhes dar uma ajuda financeira para que possam começar a vida em algum lugar do Brasil.

 

Não vamos lhe dar asilo concluiu. Eu fiquei calmo e repeti a ele: Estou me asilando aqui neste território Frances e dele não sairei, exceto com um salvo conduto do governo brasileiro para que eu possa deixar o país em segurança.

 

      Com lhe disse senhor, eu sou desertor de uma unidade de elite do exercito, e estou sendo procurado, se me acharem, serei preso e morto, seguramente disse a ele. Além disso, o senhor deve estar sabendo que neste regime militar nós comunistas somos mortos até pelas costas, portanto, aqui ficarei.

 

      Ele se retirou da sala por uns dois minutos e retornou com um maço de notas da moeda corrente do Brasil e disse: Não vamos conceder asilo ao senhor, se quiser uma ajuda aqui está, e eu lhes garanto que sairão em completa segurança.

      Até este momento ainda não avisamos as autoridades de seu país disse o diplomata. Se insistir na sua intenção, teremos de comunicá-los.

 

Os acontecimentos poderão tomar outro rumo. Eu emendei a ele: O governo Francês nunca permitirá a entrada de autoridades brasileiras dentro de seu território. Isto está garantido pela ONU e por outras convenções internacionais.

 

      Ele me olhou demoradamente nos olhos e disse: É verdade, mas nós não estamos dispostos a asilá-los aqui. Eu tenho que comunicar as autoridades do meu país e do seu. O Embaixador ainda não sabe da presença de vocês, e também não temos estrutura para mantê-los aqui. Eu pensei comigo, mas me contive em dizer a ele que estava mentindo.

 

      Até aquela data eu estava vivendo clandestinamente, de maneira informal. O crime de deserção prescreve somente dez anos após o acontecido. Eu poderia simplesmente ser preso nesta argumentação e pagar por aquilo que só os S2 (2ª Seção – Informações e Contra Informações – Inteligência Militar) tinham conhecimento, o de minha militância clandestina.

 

      Em suma, era isso que estava temendo, sem contar a possibilidade de vir ser morto. A anistia não era garantia para ninguém. Sabemos o estado de terror que vivia alguns exilados que retornaram ao Brasil após a anistia de 1979. Muitos viviam como mortos vivos, ou seja, sentiam-se o tempo inteiro como se estivessem diante de uma alça de mira, viviam presos em suas próprias casas. Mesmo estando garantidos no direito de ir e vir baseado naquela lei, a anistia não lhes trazia tranqüilidade.

 

      Eu realmente estava decidido a permanecer ali, de ir para a frança, de tentar salvar minha pele, de recomeçara a minha vida na Europa. Sabia que nesta tentativa eu poderia encontrar dificuldades. Mas também tinha plena consciência de que teria de ser firme para conseguir concluir o meu objetivo, e eu estava preparado.

 

       O que eu temia e aconteceu foi a influencia da conversa que atemorizou a minha companheira. Ela tinha apenas 18 anos e iniciou um choro que demonstrava a sua contrariedade em sair do Brasil. Ficou assustada com a possibilidade mentirosa do diplomata que num blefe espetacular conseguiu convencê-la psicologicamente de que teríamos problemas com as autoridades da Ditadura Militar.

 

      O que restava para mim? Como poderia naquele momento permanecer ali asilado e deixar minha companheira sozinha, sem nada mesmo, em plena situação de penúria. Ela não conhecia Brasília. Esta era a primeira vez que tinha viajado tão longe da casa de sua família. Na verdade, ela havia encontrado a sua família há poucos anos, por volta dos seus 12 anos.

 

      Como artesãos, tínhamos vendido tudo, incluindo ai as nossas ferramentas de trabalho. Eu olhava pra ela e não acreditava que meu sonho estava sendo destruído por aquela que deveria estar comigo em qualquer situação. Não éramos casados, mas tínhamos uma vida em comum.

 

      No meu entendimento, a fidelidade e a lealdade entre um casal, não precisa estar expressa em documentos. Pra mim, tudo isso é uma questão de honestidade, de caráter e confiança mutua, e não foi o que aconteceu. Ela fraquejou diante da primeira pressão diplomática que enfrentou. Pra mim não restou outra saída a não ser esta mesma, a de sair. Pela primeira vez na vida eu havia me sentido derrotado.

 

      O diplomata voltou a colocar em cima da mesa aquele maço de dinheiros, que deveriam representar nos dias de hoje uma quantia em torno de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Eu já tinha dito a ele que não estava atrás de dinheiro e ele insistiu que eu pegasse.

 

Meu orgulho de brasileiro, a minha dignidade não estava à venda diante de um fracasso. Fiquei com vontade de mandá-lo esconder aquele maço no seu traseiro, mas me contive.

 

      Ele percebendo que não aceitaria e, estava preste a concordar com a minha companheira, comentou: Eu acompanho vocês até o final do setor das embaixadas aqui do lago sul. Podem confiar, enquanto estiverem ao meu lado, nada lhes acontecerá. E mais ainda, não avisamos as autoridades do Brasil. Podem sair tranqüilos como quando entraram.

 

       Embora nunca estivesse tranqüilo como quando entramos ali, foi o que fizemos. Estávamos em outubro de 1982. A relação com minha companheira nunca mais foram à mesma.

 

      Em três dias eu me recuperei e consegui adquirir algumas ferramentas de trabalho. Um artesão que eu havia ajudado em São Paulo viu a minha situação e dividiu parte de sua matéria prima pra que eu recomeçasse.

 

      Nunca comentei a ele os verdadeiros motivos de ter ficado sem nada, mas quando me perguntou se tinha perdido tudo para o rapa, eu balancei a cabeça concordando. Enfim, com este recomeço eu pude pegar uma BR novamente (linguagem usada pelos artesãos hippies quando viajam de um lugar para outro). Saí de Brasília via Belo Horizonte e rumo ao Rio de Janeiro. Lá chegando segui viagem até a região dos lagos.

 

      Estive algum tempo em Cabo Frio e Búzios, que, aliás, tinha ali vários amigos que não trocavam aquela região por nada. O Urso era um deles que o conhecia desde Porto Alegre. Fazia vários anos que não o via, ele havia se casado com uma menina de Curitiba e estava morando ali em Búzios a cerca de três anos.       Nós ficamos hospedados na casa dele por cerca de um mês.

 

Neste período, as eleições para governadores no Brasil estavam pegando fogo. Leonel Brizola estava com uma vantagem espetacular sobre o candidato Moreira Franco do PMDB.  A rede Globo mentia divulgando que havia um empate técnico, não era verdade.

 

      Como a ditadura ainda corria forte nas veias de várias autoridades e setores da imprensa burguesa, já se previam a possibilidade de fraudes na contagem dos votos. E, não deu outra, O DATAPREV fazia a contagem e a Rede Globo estava manipulando os resultados para impedir a posse de Brizola, este, porém, estava fazendo uma contagem paralela e detectou a malandragem a tempo. Os Cariocas festejaram a eleição daquele que a burguesia chamava de “Caudilho Gaucho”.

      Em São Paulo Franco Montoro assumia o governo e Fernando Henrique Cardoso o seu lugar no Senado da República. 

 

      Eram os trabalhistas se afirmando após uma longa briga travada na justiça entre Leonel Brizola e Ivete Vargas pelo comando da Sigla PTB que pertencera aos Brizolistas antes da Ditadura Militar. Na disputa que sacudia o meio político no país, Ivete Vargas levou vantagem, e para Brizola, só restou criar um novo partido e outra sigla.

 

      Com a nova sigla os brizolistas se saíram muito bem nas eleições. Anos mais tarde Ivete Vargas veio a falecer de câncer de mama. Isso já não importava mais, além de terem perdido não havia mais interesse na sigla.  O PDT já tinha escrito o seu nome na história.

 

      No ano de 1983 em me separei novamente, mas minhas andanças e minha luta pela sobrevivência continuavam. Naquele ano eu havia retornado a Porto Alegre, fiquei ali uns três meses e retornei novamente para São Paulo. Esta cidade pra mim representava um porto seguro em todos os sentidos, e também era ali que eu tinha minha militância mais ativa. Eu tinha ajudado a fundar a Comunidade de Artesãos de Semana da Praça da República, tendo inclusive sido eleito vice-presidente da entidade.

 

      Como havia acontecido em Porto Alegre nos anos 80, as feiras informais nasciam às margens das feiras formais. Por este motivo já estava acontecendo no país inteiro, à categoria se organizar para garantir mais espaços de trabalho.

 

       Nossa comunidade nascera com mais de 100 integrantes, e com muita mobilização e organização, conseguimos a tolerância da Administração da Regional da Sé na manutenção desse novo espaço por longos anos.

 

Eu havia saído e retornado algumas vezes, mas conseguia trabalhar ali sempre que voltava.

 

      A feira chegou a ser até mais rentável do que a de domingo, até porque, se chovesse num final de semana nós conseguíamos garantir a sobrevivência nos outros dias. Em 1984 vou novamente a Porto Alegre, tinha de visitar meus filhos.

 

      Não deu outra, eu voltei a reatar com minha companheira. Afinal, com duas crianças pequenas tínhamos que tentar criá-los juntos. Nosso relacionamento, porém durou somente mais um ano. Deixei-a com um terreno e uma pequena casa pra que tivesse condições de tocar a sua vida. Eu continuei a viajar entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Durante muitos meses participei de um circuito de feiras que era organizado pela Associação dos Artesãos Profissionais do Estado de São Paulo.

 

      Eu era um dos integrantes e mantinha um bom relacionamento com a diretoria da entidade, e por isso, havia sido convidado a participar daquilo que seria uma feira móvel pelo interior do estado. Na verdade elas aconteciam paralelamente a eventos esportivos, aniversário de cidades, Feiras de agronegócios etc.

 

      Enfim, era uma alternativa que estava dando certo. Naquele mesmo período as condições políticas do Brasil iam se tornando mais agitadas, chegando à flor da pele, o povo começava a exigir eleições diretas já.

 

      De fato, este evento foi se agigantando cada vez mais. A mídia cooptada e golpista (sic) não tinha mais como esconder os anseios da massa popular, que, chamada pelos partidos políticos recém formados e por entidades da sociedade civil organizada, começava a sacudir pelo país.

 

    Recentemente havíamos saído do bi-partidarismo. O Partido dos Trabalhadores já era uma realidade. Outros partidos iam se formando, Lula já havia estreado nas eleições para o governo de São Paulo, que mesmo tendo tido uma votação quase insignificante, ainda assim era o pontapé inicial para sua chegada a presidência do Brasil.

 

       No ano de 1986 eu decidi me estabelecer no sul do país. Escolhi a cidade de Florianópolis para viver definitivamente. Naquele ano eu já estava vivendo com outra garota de dupla-nacionalidade, francesa (guiana) e brasileira.

 

       Tínhamos uma vida bastante tranqüila. Eu continuava trabalhando na Praça da República. Havia conseguido preservar minha licença durante muitos anos, apesar de constantemente me ausentar de São Paulo.

 

       A Liliane tinha 19 anos, era uma loirinha muito bonita, estatura média, olhos verdes, inteligente e discreta, mas não gostava de falar em política. Um ano antes acabara de vir da guiana francesa.

 

      Vivemos juntos por cerca de 10 meses, não tivemos filhos, que, aliás, convivia conosco apenas o meu mais velho que na época tinha em torno de dez anos. Embora em São Paulo eu tivesse meios mais tranqüilos de sobrevivência, já estava a algum tempo querendo fixar residência em outro lugar.

 

      Na semana que antecedia minha vinda a Florianópolis eu havia comentado a minha intenção de abandonar a capital paulista, convidei-a para virmos morar em Santa Catarina.

 

       Aqui teríamos mais oportunidades. O Estado era prospero e, a ilha de Santa Catarina muito bonita. Nesta atividade talvez conseguisse até comprar um terreno e construir nossa casa.

      A Liliane não quis me acompanhar nesta mudança, eu respeitei a sua decisão, embora tenha ficado com o coração partido. Ela preferiu visitar seus familiares em Ivaiporã no Paraná e seguir a sua vida de forma independente como havia feito desde os seus 16 anos. No meu caso, eu sempre tive essa individualidade nas decisões, talvez este tenha sido o meu maior erro nos relacionamentos que mantive.

 

      Posso imaginar se não tivesse sido assim, eu não estaria vivo. É bom lembrar que o “sistema” nunca deixou de monitorar o cidadão, mesmo nos dias de hoje, ainda existe esta possibilidade. Basta observarmos as várias tentativas de criminalização dos movimentos sociais e de suas principais lideranças.

 

      Nunca confiei nos políticos remanescentes daquele período obscuros que se abrigam em partidos camaleões sob a “pecha” da democracia, que, aliás, eram contrários.  Sinceramente, fico boquiaberto de ver alianças políticas entre os inimigos de outrora, sob a égide de que hoje os tempos são outros, não é verdade.

 

      Existe um chamado nos movimentos revolucionários de luta que diz:

– Você poderá até doar a medula óssea para salvar a filha de um burguês, mas na primeira oportunidade, ele te mata pelas costas.

 

…Durante o verão de 1987 eu encontrei a minha 1ª mulher (casamos em março de 1977) em um dia que ela veio visitar nossa filha Christiane que estava vivendo com a sua madrinha já há algum tempo, por conta de minhas andanças.

 

Aquela realmente seria a ultima vez que nos encontraríamos. Soube mais tarde que ela havia fixado residência em Santos ou São Vicente no litoral de São Paulo.

 

      Em pleno inverno de 1987 eu decidi vir morar em Florianópolis