ONG CAIXA 2 OU PARTIDO POLITICO?

 
   
  Eu nunca vou esquecer o despejo que ocorreu em São Paulo na Vila Socialista de Diadema, durante um governo petista na cidade em dezembro de 1990.     

 

 Aquela comunidade foi um grande exemplo de organização e luta política. Jamais vou esquecer os acontecimentos durante aquele enfrentamento. O governo de São Paulo lançou cerca de 500 policiais militares do Batalhão de choque, da Rota, e de outras guarnições que selvagemmente avançou para cima dos moradores.

       O camarada Boni que era vereador eleito pelo PT da cidade, era o líder da resistência e fazia parte do Comitê Central do POR (Partido Operário Revolucionário) uma fração Trotskista (hoje no PSTU) que naquela época compunha a esquerda do partido de Lula.

      Nos enfrentamentos morreram dois moradores e houve vários feridos. Durante a resistência, o camarada Boni organizou a comunidade para aquilo que seria o dia fatídico para todos. Na expectativa de baixas foi construída uma enfermaria que armazenava medicamentos para pronto atendimento dos eventuais feridos.

      Foram produzidas várias armas rudimentares (Tacapes com pregos na ponta, bombas caseiras com massa Epox e pregos, estilingues, boleadeiras, facões e coquetéis molotov para a defesa da comunidade da Vila socialista. Estas armas caseiras tinham o objetivo de tentar retardar o avanço das tropas e proteger as moradias que tinha ordem de despejo e demolição emitida pela justiça paulista.

      Na estratégia de defesa, foram feitas três linhas de moradores. Na primeira os mais jovens que manuseariam as armas, na segunda linha os homens mais velhos, e na terceira e ultima linha ficaram as mulheres e as crianças.

      A policia militar entrou atirando com armas letais e não letais. Houve uma resistência feroz que culminou com dois mortos e vários feridos. Muitos foram presos, e a comunidade foi tomada pela policia troglodita do governo de São Paulo. O camarada Boni perdera nos enfrentamentos uma mão que fora decepada por um explosivo. Jamais vou esquecer que o prefeito da cidade de Diadema era do Partido dos Trabalhadores que se recusara a negociar com os moradores e solicitava a terra na justiça.

      Como poderíamos acreditar num partido que se utilizava da justiça burguesa para cometer tamanha injustiça contra os Trabalhadores e Sem Tetos? A demagogia de suas lideranças ficou gravada anos depois quando Lula havia dito numa entrevista: Entre o legal e o legítimo, eu fico com o legítimo. Esse discurso demagogo foi em alusão ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ao ocuparem áreas improdutivas.

 

Eis aí a demagogia que pavimenta os períodos pré-eleitorais.

…De fato, a história tem comprovado que a aliança petista com os setores ditos progressistas da Igreja Católica está a serviço do pensamento burguês.

      Este fato aconteceu no ano de 1989 ou 1990 se não estiver enganado. Naquele momento eu estava atento para os acontecimentos nacionais.

      Eu já tivera uma pequena experiência quando assessorei um grupo de moradores de uma comunidade de Cabo Frio durante uma das minhas passagens por aquela cidade. Tratava-se de uma ocupação que ocorrera na localidade de Baixo Grande, um pequeno bairro nos limites de Cabo-Frio e Búzios. Ali, um grupo de moradores estava enfrentando uma forte pressão da policia militar que pretendia ficar com a área.

     

      Não fiquei até o final, estava em fuga, mas das reuniões que participei, minhas propostas foram aceitas e colocadas em prática. Soube mais tarde que saíram vencedores. Uma dezena de famílias fechou um acordo e permaneceram na área. O processo de organização foi fundamental.

      Em Florianópolis nos acirrávamos as estratégias de luta em direção a uma possível vitória que culminasse com a desapropriação da área que ocupávamos na comunidade de Areias do Campeche. Os moradores sabiam que nem tudo que a família do Advogado Henrique Berenhausen exigia era de sua propriedade. Principalmente as áreas de dunas pertencentes à união e que também as reivindicava como suas em áreas contíguas.

        Na verdade, a área reclamada era de 254.000m² sendo que ocupávamos de fato apenas 30.000m². O processo ocorria numa das varas cíveis da Comarca da Capital desde o ano de 1984. Quando recebi a visita de oficiais de justiça que estava fazendo a notificação dos ocupantes não me preocupei, afinal, precisávamos criar uma pendenga jurídica para gerar uma negociação que culminasse ou não com a desapropriação das terras em questão. Esta possibilidade era a única alternativa que nos interessava.

       Era fácil imaginar que a ocupação não se daria de forma despercebida. Viviam ali mais de 70 famílias que totalizavam cerca de 350 moradores, isto em 1987. Havia muitas crianças. A comunidade era formada inicialmente por famílias de artesãos e de trabalhadores informais, a maioria realmente de migrantes. Mas ambos estavam ali sem nenhuma orquestração organizada.

       A área era completamente abandonada pelo poder público. Nós morávamos em casebres e barracos construídos com restos de madeiras da construção civil. A água nós tirávamos de poços feitos com ponteiras de plástico enrijecidos numa profundidade de pouco mais de 6 metros, em alguns casos.

       A água inicialmente era salobra, mas, com o tempo, aprendíamos a perfurar com mais profundidade melhorando a sua qualidade. A maioria das moradias não dispunha de banheiros ou fossas sépticas. Eu cheguei a morar mais de oito meses numa casa sem assoalhos, apenas em areia pura mesmo. Quando cheguei ali em 1987 não havia energia elétrica. Nossa iluminação era com velas ou lampiões a querosene ou a óleo de cozinha já utilizados embebidos em trapos de pano.

       Quando percebemos que ocupávamos apenas uma parte ínfima daquilo que nos acusavam, decidimos em assembléia de moradores que toda a área reclamada seria literalmente ocupada por famílias.  Seguindo no nosso processo de organização, eu passei a pesquisar junto aos órgãos públicos a estrutura fundiária do sul da ilha, mas, principalmente no Campeche. Ficou evidente que havia várias áreas tidas como privadas, mas que na realidade pertencia a união federal.

      No sul da ilha e principalmente no Campeche era visível este contraste pelo fato das áreas estarem junto daquelas tidas como de preservação permanente.

        Um pouco mais ao centro da praia do Campeche havia um bar que se estabelecera em cima das areias da orla, na verdade, parte no espaço utilizado por banhistas e outra na Área de Preservação Permanente pertencente à união federal. Este bar pertencia ao seu Chico que era o pai de um economista, funcionário do tribunal de contas do estado.

        Este cidadão fazia parte da diretoria da AMOCAN (Associação dos Moradores do Campeche), na verdade era o secretário da entidade. Durante muitos anos esta entidade lutava nos bastidores, (por vezes escapava na mídia) para que a prefeitura limpasse das dunas as moradias de baixa renda ali estabelecidas.

      Muitos nativos e pescadores haviam vendidos partes das áreas da união para os chamados “forasteiros” (aqueles que vinham de outros estados) e a posterior fechavam fileiras pedindo a sua retirada. Era como vender, tomar o dinheiro e após, pedir que o poder público tomasse as terras, agiam dessa forma, numa pressuposta preocupação com o meio ambiente.

       Numa reportagem feita pelo jornal local Diário Catarinense (do Grupo RBS de SC) O economista e funcionário do Tribunal de Contas do Estado, Lázaro Daniel, havia declarado que os ocupantes das dunas do Campeche deveriam ser retirados. O contraditório estava no fato de defender a permanência de seu pai que estava na mesma condição. Vale lembrar que o seu pai naquele ano, só estava começando naquela atividade.

      Recentemente (após 20 anos) o bar foi demolido por ordem judicial. A comunidade inteira fez pressão pra impedir. O Advogado que defendia a família era o mesmo que defendia a comunidade de Areias do Campeche. Pessoalmente acho que foi uma atitude desnecessária, já que desde aquela época ele tornara-se um ponto de encontro da juventude que periodicamente ali realizavam os Luaus.

      Comentários de moradores e do meio político davam conta de que o inicio da ação judicial fora promovida pela ex-prefeita Ângela Amim (gestão 1996/2000) que pretendia atingir o então vereador Lázaro Daniel PT (aquele que havia declarado em 1987 ao DC (Diário Catarinense), que era favorável a retirada dos moradores que ocupavam as dunas). Tal feito foi desconsiderado por ele e pelo CAPROM quando chamaram a atenção da cidade na ocupação de um ano após.

       Ajam contradições e oportunismo, na verdade, este fato se caracteriza como uma ação política para fins eleitorais planejados. Pretenderam e executaram aquele assentamento provisório, como uma espécie de lançamento da entidade como agentes políticos a serviço do PT. Sua plataforma seria na incursão política nos movimentos sociais com finalidades eleitorais.

      A estrutura financeira da entidade tinha parcelas do dinheiro público. Eis aí a imoralidade no achaque do erário para fins privados. No meu entendimento, os meios não justificam os fins, até porque, de ideologia do socialismo de classe, tudo não passava de um engodo.

      

      Essa organização privada propunha inicialmente uma ação assistencialista para a migração que afetava a cidade. Inicialmente agia desta forma e, para isso ocupava algumas salas que pertenciam ao estado. Seu quadro pessoal era formado por “voluntários”, Ongueiros carreirista, e funcionários cedidos pela prefeitura municipal.

     Quem não conhecia o CAPROM há mais tempo poderia ter a idéia de se tratar de um órgão municipal, tal qual a estrutura que ali era empregada. Na prática se tratava de uma ONG (Organização Não Governamental).

      Esta ONG era comandada pela professora Ivone Perassa (conhecida por irmã Ivone) e tinha como um dos seus apoiadores mais diretos o Padre Vilson Groh pároco da igreja situada no morro do Monte Serrat. De fato, as propostas eram muito boas, principalmente a referente ao resgate social dos migrantes, mesmo que paliativas frente ao estado de miséria que muitos viviam.

      A partir da inserção da ONG nos movimentos sociais, iniciados também pelo assentamento provisório de moradores de rua, outras iniciativas foram sendo desenvolvidas.

      Desde o nosso primeiro contato com esta entidade privada, eu tinha ficado com uma boa impressão. Aqueles que ali aportavam com dificuldades eram prontamente encaminhados para a solução dos seus problemas. Essa ajuda vinha principalmente na retirada de documentos, encaminhamento médico, passagens de ônibus pra retornarem para seu local de origem, cestas básicas, cobertores, e doação de roupas, também existia a possibilidade concreta de encaminhamentos para alguns tipos de empregos.

       O CAPROM funcionava como um órgão assistencialista de cunho político, que fazia a ponte entre o migrante necessitado e o poder público. Também mantinha uma relação umbilical com o Partido dos Trabalhadores e seus parlamentares. Isso também possibilitava a elaboração de políticas partidárias voltadas para a questão urbana. Os conflitos existentes em algumas comunidades da periferia e dos morros de Florianópolis passaram a ser de interesse da ONG que buscava se aproximar das lideranças desses locais.

      A partidarização da entidade ficou mais evidente quando decidiram fazer campanha para o Lula. No interior da sede da entidade havia algumas fotos de Lula na parede desde o ano de 1988, ou seja, um ano antes das eleições para a presidência da         República. Praticamente desde a sua criação.

       Em curto espaço de tempo eu passei a observar a sua estrutura, que de fato, tinha uma demanda social maior que sua capacidade. Os esforços que faziam eram merecedores de aplausos. A irmã Ivone se mostrava entusiasmada com os avanços planejados.

      O tempo ia passando de forma veloz em relação ao desenrolar dos fatos ligados as questões litigiosas das áreas ocupadas. Coincidentemente a ONG ia se tornando um ancoradouro para várias comunidades que passaram a serem assessoradas politicamente, ou seja, havia uma tendência de encampar politicamente os problemas para um encaminhamento conjunto das questões urbanas.

      Alguns partidos como o PDT e o PV preferiram direcionar apoio a ONG a trabalharem diretamente com as entidades comunitárias associativas.

       Pessoalmente eu nunca fui contra esta tendência de luta planificada.

    

       Sabemos que a unidade na luta fortalece o conjunto na obtenção dos resultados almejados por todos. Mas pra mim ficava evidente a tomada da legitimidade que estava ocorrendo por conta do fluxo de verbas e de apoio político que fortalecia as ações da ONG CAPROM.

      Eu me lembro que um dia procurei a vereadora Jalila El Ackar do PV solicitando verbas de gabinete para nossa entidade e, ela me disse que faria isso somente ao CAPROM.

      Pra mim suas palavras foram uma demarcação de espaço político para nossa entidade. Eu me senti avexado pelo que acabara de escutar.

     A associação dos Moradores da Praia das Areias é uma entidade de utilidade pública (Lei Estadual nº 7.602/89), tinha sido fundada em 29 de fevereiro de 1984, na verdade a segunda mais antiga de Florianópolis (se não estiver enganado). Se a vereadora tivesse dito que não tinha como ajudar, certamente eu entenderia da melhor forma possível.

        Mas enfim, percebi ali naquele momento que estavam tentando tomar nossa legitimidade enquanto entidade representativa e, agentes sociais de fato.

      Aquela situação ridícula de tentativa de estrangulamento financeiro das associações dos moradores, que, politicamente, e ilegalmente estava sendo substituída por uma ONG, não entrava no meu entendimento como uma luta política planificada e legítima. Por muitas vezes os moradores de nossa comunidade se mobilizavam criando um fundo de contribuição para que pudéssemos seguir avante em nossa luta.

     

      Certo dia eu entrei numa das salas do CAPROM sem me anunciar e cheguei a escutar que precisavam nos desmistificar. Estavam reunidos na sala quase todos os diretores da ONG, incluindo ai o Padre Vilson Groh e a Ivone Perassa. Fingi não ter escutado, entrei cumprimentando-os. Esse comentário era em alusão a nossa inserção na mídia que começava a incomodar.

       Eu vi durante vários eventos políticos que se sucederam a quem verdadeiramente serviam.  Eu ficava pensando, como pode uma ONG ser bancada financeira e materialmente pelo poder público para interesse privado? O município de Florianópolis fornecia funcionários e pagava os seus salários.

      

       Do ponto de vista político pareceria ser uma solução sem maiores compromissos, ou seja, enquanto a ONG estivesse focada no seu projeto político específico, a classe política da cidade focava os seus próprios interesses. Sendo assim, era mais fácil abrir o caixa do que ser cobrado por ações não executadas. A imagem que a ONG CAPROM passava era a de uma “bateria de mísseis” apoiadas nos movimentos sociais do qual já estava se infiltrando.

      Na oposição havia um vereador do PT, um do PCdoB, um do PDT, um do PV e um do PSDB e outro do PMDB. Atuavam a favor das comunidades apenas o PCdoB, PT, PSDB, PMDB.

      Pra minha alegria, aquela burguesinha vereadora não se re-elegeu nas eleições municipais de 1992.

       Eu soube mais adiante pelos dirigentes da ONG de que já tinham tentado eleger um vereador pelo PT na eleição passada. Este cidadão ficou a poucos votos de se eleger, havia a questão de legenda que dificultou um melhor desempenho. Anos mais tarde, o ex-candidato e líder na comunidade do Monte Serrat, foram expulsos da comunidade (ele e sua família), por ter se tornado desafeto de um menor envolvido com o tráfico de drogas na região. Saiu de mudança definitivamente após sua residência ter recebido uma saraivada de tiros, isso ocorrera por volta dos anos 95/96.

      Ainda no ano de 1988, nosso processo de organização ia se afirmando cada vez mais, tínhamos uma diretoria que sentava e discutia exaustivamente os problemas do litígio.

      Na verdade estávamos sempre de orelhas em pé (sic) com a possibilidade de despejo. Aquele assentamento ocorrido meses antes tinha chamado a atenção da mídia e da administração que assumiria em janeiro de 1989 (Esperidião Amim/Bulcão Viana, gestão 1989/1992). A que estava saindo, já nos tinha incomodado suficientemente, mas até ali, estávamos senhores da situação.

      Mesmo eu estando filiado ao PMDB, só fui entender a dimensão do conflito com a comunidade, apenas quando assumi a gestão na associação. Vale lembrar que o PT e o PMDB eram aliados, tendo os petistas como integrantes de sua administração naquilo que chamamos de fisiologismo, pasmem.

       Na gestão seguinte do antigo PDS, havia essa ligação da entidade ocultada pelos conflitos, mas que publicamente eram adversários. Houve momentos em que eu não conseguia entender o seu relacionamento quase umbilical e de forte intimidade que havia entre a ONG e a administração municipal comandada então, por aquele que fora o representante mor da ditadura militar no estado.

      Tratava-se na verdade do ex-prefeito Espiridião Amim (Também ex-governador), nomeado pelos generais, e que governava a capital após sua vitoria nas urnas naquele ano de 88. Em se tratando de uma Organização Não Governamental (ONG), com bandeira petista, eu ficava intrigado com esta ligação.

     

      Depois deste primeiro contato a partir daquele assentamento provisório no ano de 1988, nós passamos a ver a entidade como um ponto de apoio para alguns migrantes que haviam chegado à nossa comunidade.

      No verão de 1988, um fato me chamou a atenção, era um entardecer, já quase noite, e uma Toyota encostou á frente do terreno que eu ocupava, Na verdade naqueles dias, não havíamos ocupado toda a área. No terreno a minha frente tinha uma estradinha cercada por mato, mas havia um descampado onde estacionara aquele veículo.

      Neste momento desce uma cara com várias caixas e as amontoa feito lixo. Vai tirando do veículo e empilhando, eram roupas semi-novas, objetos de maquiagem, roupas íntimas de mulher, quadros de pinturas, quadros de fotos, e uma quantidade impressionante de fotografias.

      Fiquei horrorizado de ver diante de meus olhos aquela cena. Ele havia colocado fogo naquilo. Eu me aproximei e perguntei para o sujeito que conhecia há vários anos ele tinha sido artesão no final dos anos 70. O Toni vivia com sua família na lagoa do Peri, na verdade estava tentando ganhar na justiça a posse de uma casa que pertencera à outra família que o havia deixado morar lá, Ele tinha dois filhos, sendo que um terceiro tinha morrido com um tumor cerebral. Sua família foi ajudada pelo então governador Esperidião Amim.

      O Toni e sua mulher Elaine tinham uma relação estreita com a “dinastia” por conta da fatalidade acontecida. Eu perguntei: hein Toni, porque você esta queimando isso? Ele me respondeu: Isso aqui e daquela vagabunda da Daniela que não está pagando aluguel na casa do Álvaro.

      Você sabe que eu sou caseiro das propriedades dele. Ela saiu há um mês e fechou tudo, e ainda não apareceu para pagá-lo. O Álvaro me mandou sumir com tudo. Eu olhei para a montanha que estava pegando fogo e visualizei centenas de fotografias e uns dois álbuns grandes que continha fotos dos índios Kaygangs e dos Xocklengs.

       A Daniela era uma acadêmica da UFSC do curso de Sociologia. Vi rapidamente as fotos que ela havia tirado durante um trabalho acadêmico de campo junto aquelas comunidades indígenas.

       Provavelmente era para a elaboração de uma TCC na área de antropologia. Imediatamente eu atirei um dos álbuns para dentro do mato, o Toni correu para pega-lo de volta e saiu gritando que eu não poderia fazer aquilo, que não teria que me meter onde não era chamado.

        Eu consegui esconder rapidamente um quadro com uma fotografia onde a estudante aparecia grávida, nua, mas artisticamente posicionada de foram sensual comendo uma maçã. Estava sentada protegendo sua intimidade. Foi com essa foto que eu a reconheci, tinha-a visto uns dois meses antes. Ela se vestia quase como uma hippie, às vezes usava bolsas e saías colorida.

      Ela estava grávida quando este fato aconteceu. Eu não pude fazer mais nada, o Toni ficou em volta da fogueira jogando com uma madeira para dentro do fogo as partes que não estavam sendo queimas, ficava o tempo todo manuseando o fogo até ter certeza de que tudo havia sido consumido. Imediatamente saiu do local e disse pra mim: Você não viu nada.

      Claro que eu tinha visto, no outro dia comentei com alguns artesãos o que tinha acontecido, na verdade tinham visto o fogo, mas não se aproximaram pensando tratar-se de lixo apenas.

      Um artesão (já falecido) de nome gauchinho (na verdade era paulista de Estrela do Oeste), que eu conheci em Porto Alegre quando iniciei no artesanato hippie, me falou: Carlão, você pode me dar o quadro da Daniela? Eu pretendo entregar a ela e vou contar o que fizeram com os seus pertences. Bem eu disse, é todo seu, e, por favor, conte exatamente o que o Toni e o Álvaro fizeram.  

       A Daniela ficou sabendo do acontecido e registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia do Distrito do Pântano do Sul. Todo o seu material de estudos feitos com sacrifício durante mais de um mês de pesquisas e convivência que fizera estando acampada com os índios, viraram cinzas nas mãos daqueles criminosos.

No verão do ano de 1989 acontece outro fato envolvendo o Toni e sua esposa.

       Um casal de artesãos, ele se chamava Gelson e ela Meri alugaram a mesma casa que pertencera a Daniela no ano anterior. O Gelson pagou um ou dois meses de aluguel adiantado e depois se complicou para pagar o mês vencido. Não deu outra, o Toni imediatamente iniciou o despejo do casal. Eu fiquei sabendo pelo Gelson (conhecia-o desde que havia passado por Florianópolis em 1978), que ele seria despejado pelo Toni.

       O Toni tinha recebido ordens expressas do Álvaro para fazer a desocupação da casa. O Gelson estava apavorado, na verdade o Toni estava pressionando-o diariamente para que procurasse outro local e desocupasse a casa porque ambos precisavam alugar na temporada.

      Como é sabido de todos, nos verãos a cidade de Florianópolis é tomada por turistas que buscam as praias como seus locais prediletos na cidade. Ali no Morro das Pedras não seria diferente. O Álvaro não perdia a chance de ganhar uma grana, mesmo estando lutando pela posse da terra. Na verdade o Álvaro não residia no local, apenas se fazia presente periodicamente, e tinha no Toni o seu “capataz” que administrava o local.

       Havia ali umas três ou quatro casas, todas de aluguel. O Toni mantinha uma delas ocupada por sua família, enquanto isso lutava pela posse de outra na Lagoa do Peri.

      Certo dia pela manhã o Gelson me procurou dizendo que o Toni tinha colocado os seus moveis numa Toyota e os levaria para qualquer lugar. Pediu-me ajuda, disse que não tinha para onde ir. Na verdade o Gelson vivia com sua mulher e um filho pequeno.

       Eu prontamente me coloquei a disposição dele. Ofereci um barraco que estava desocupado há uns três meses. O barraco pertencia a um cara que era amigo de outro chamado de “Jair da Dinamarca”. Este por sua vez era também amigo do colunista do Diário Catarinense Claudio de Menezes (Cacau Menezes).

       Ora, diante daquela situação eu não pensei duas vezes. Espiei pra dentro do barraco, vi que não tinha nada dentro, meti os pés na porta abrindo-o. Em seguida procurei o Gelson e disse a ele: Vai lá à comunidade que eu te consegui um barraco. Ele é pequeno, mas vai te servir por algum tempo. Tem uma cara que se diz dono, mas a nossa área é de litígio, sendo assim, só consideramos aqueles que moram ali efetivamente. Você terá todo o nosso apoio.

       Neste meio tempo, o Toni já havia colocado as coisas do Gelson na Toyota, outra parte já estava fora da casa que tinha sido lacrada. A família fora literalmente despejada por aquele que no passado fora um artesão, lutava por uma posse de terra e ainda desempenhava o papel de um quase jagunço.

      Mas as coisas não pararam por ali (sic), dois dias após o Gelson estar na casa chegou o dito que se dizia dono. Era um jovem de uns 25 anos, ele veio acompanhado de mais quatro caras, um deles estava armado com uma pistola automática. Eu também conhecia este cara, Na verdade ele fora o primeiro jagunço do Álvaro durante as escaramuças ocorridas no ano de 1982 com o grupo Ilhas do Sul.

       Dani era um uruguaio que eu havia conhecido em Porto Alegre logo que me tornara artesão lá nos anos de 1975/76. O Dani era um exímio artesão, extremamente profissional, uma espécie de ourives. Quando eu o conheci ele trabalhava com prata e ouro. Na ultima vez que eu o havia visto, foi na praia de Tramandaí durante uma de minhas andanças pelo litoral gaucho ainda nos anos 70.

       Dani tinha me oferecido uma mala com vários artesanatos, como não podia comprar (não tinha dinheiro suficiente) fiquei apenas com algumas pulseiras bem trabalhadas com pedras semipreciosas e prata. Ele vendeu quase tudo ali naquela que anos depois se tornaria uma feira referencia do litoral gaucho.

      Dani sacou a arma e apontou pra mim, num primeiro momento não se lembrava que me conhecia, afinal, passara vários anos da ultima vez que nos tínhamos visto. Ele gesticulava bem alto para o Gelson e gritava: Tira tudo ai de dentro deste barraco que é nosso.

      O Gelson também o conhecia, sabia que ele tinha fama de violento, uma espécie de bandido que se tornara em Florianópolis, vivia ali há vários anos. Ele seguiu gritando e falou mentirosamente, eu sou policial, sou ex-militar e se não sair eu te dou uns tiros aqui mesmo, vai desmontando tudo ai e jogue pra fora imediatamente.

      Os que estavam com ele (Jair da Dinamarca, Montanha, e outros) nos cercaram. Dois dos nossos estavam com paus na mão e ficaram firmes sem demonstrarem medo. Eu disse para ele: Eu também sou ex- militar, e não tenho medo de ti, e falei: Dani, eu te conheço, lembra de mim? Mas peraí (sic), ele ficou me olhando e começou a ficar sem graça, baixou a arma e a guardou nas suas costas, e falou: Lembro sim Carlão, me respondeu com respeito, este barraco é de meu amigo e vocês não poderiam ter invadido. Eu disse pra ele: Dani, aqui na comunidade só é dono de barraco aquele que nele mora, e este não são o caso do teu amigo, nós não aceitamos veranistas. Acho melhor você desistir.

O Gelson você conhece, tem família e precisa da terra. Nós não estamos lutando pela posse da terra para favorecer quem dela não precisa como local de moradia.

      Dani foi embora e nunca mais retornou ao local. Encontre-o por várias vezes na cidade, conversamos em outras ocasiões. Ele tinha construído uma família e estava lutando para se naturalizar brasileiro. Vivia no Brasil há muitos anos. Ele também fora um dos perseguidos pela ditadura uruguaia, mas estranhamente estávamos em lados opostos. Eu imaginava que tinham pagado a ele para ir até o local.  Ele tinha respeito por mim, sabia das minhas lutas pelos artesãos. Vale lembrar que a comunidade de Areias do Campeche está localizada em frente para o mar.

       No outro dia eu retornei ao Morro das Pedras para falar com o Toni. Disse a ele: O Gelson está bem, apesar de tê-lo despejado e, mesmo Dani tendo ido até lá. Comentei que eu sabia que tinha sido ele que chamara Dani e avisado o cara que se dizia dono do barraco.

       O Gelson e sua família ficaram na casa alguns meses, até que o mesmo resolveu vender e ir para outro bairro.

      Algumas vezes eu o questionei porque fazia tudo aquilo pelo Álvaro, afinal, ele tinha uma posse do qual ainda lutava, e por outro lado favorecia aqueles que exploravam os pobres. Ele me dizia que precisava sustentar a sua família e ponto final.

      Durante aquele período, o Toni vendeu as suas ferramentas de artesão para a ONG CAPROM. Eu fiquei sabendo desse fato alguns meses a posterior. O CAPROM tinha comprado suas ferramentas e doou-as para um artesão chileno.

       A ligação do Toni e da Elaine com a Ivone já vinha desde o período que sofreram com a perda de um filho que teve um tumor cerebral, esse fato me foi contado pela própria Elaine e por seu companheiro Toni.

       A Ivone Perassa era amiga do casal desde aqueles dias e ambos mantinham uma relação de admiração e cordialidade com o ex-governador Esperidião Amim que os ajudara naquela circunstancias.

      Essa posição ficou definida pra mim quando a Ivone Perassa comentou alegremente aquele fato, e outros que ocorreram durante uma manifestação dos professores. Segundo ela me disse, o então governador Esperidião Amim usou as suas costas como apoio para assinar um compromisso com a categoria. Ela contava aquilo com o orgulho de ter se aproximado daquele que era o governador do estado.

       Para o Toni, o que importava mesmo era a sua sobrevivência e nada mais, por este motivo tornara-se o jagunço do Álvaro.

      O Álvaro era um engenheiro civil e tinha se tornado o único remanescente ali no Morro das Pedras daquela ocupação que culminara em negociação com os representantes da família de Henrique Berenhausen. O Grupo Ilhas do Sul continuava tentando tira-lo daquele local.

      O processo se arrastava há vários anos. O Álvaro vivia com uma professora e ambos lutavam para permanecerem com aquelas posses. A Área em questão estava defronte ao local mais nobre da região, a praia do Morro das Pedras. No local onde haviam resistidos os antigos ocupantes, fora construído um Hotel turístico e vários condomínios residenciais.

       Ligeiramente após a saída dos ocupantes, a área recebeu escrituras públicas.

       Aquela área remanescente dos ocupantes tinha sido objeto de escaramuças no ano de 1982.

     Segundo foi registrado nos jornais da época, um grupo de jagunços (que se passava por seguranças) contratados do Rio de Janeiro pelo Grupo Ilhas do Sul (de São Paulo) iniciou ateando fogo em mais de meia dúzia de barracos dos ocupantes.

       Eles portavam armas de grosso calibre, tais como escopetas calibre doze e submetralhadora. O então vereador Sergio Grando (PMDB/PCB) e a então vereadora Clair Castilhos (PMDB/PSDB/PCdoB) foram ao local e tomaram providencia, não deixaram se intimidar pelo forte aparato criminoso ali presente.

       A presença dos Vereadores foi fundamental para cessarem as investidas dos jagunços contratados. A polícia foi chamada, mas misteriosamente, nenhuma arma foi apreendida. Os caras sumiram do mapa, e o acontecido felizmente ficou registrado na imprensa da época.

      O Sergio Grando (ex Deputado Estadual/PCB/1990/91 e ex Prefeito de Florianópolis/1992/96) me contou essa história várias vezes. Militamos juntos no PCB desde o ano de 1989. Embora como marxista eu fizesse parte desde a ditadura militar, eu permaneci no PMDB desde o Rio Grande do Sul, como um instrumento de sobrevivência ideológica.

       Muitos militantes fizeram o mesmo. Durante o Bi-Partidarismo as forças de esquerda que existiam no Brasil se abrigavam no antigo MDB que era o navio-capitânia dos movimentos sociais organizados. O MDB abrigou várias lideranças de muitos partidos da hoje base governista dos governos Lula/Dilma.

      No meu entendimento houve uma grande mudança no perfil ideológico do PMDB a partir das eleições de 1989

      Ainda no ano de 1982, a família de Henrique Berenhausen sob a representatividade do Grupo ilhas do Sul, contrata maquinas de terraplanagem e nivela o terreno naquilo que são dunas e Área de Preservação Permanente (APP), fração de terras, essas que são protegidas pela legislação federal como pertencentes à união.

      Esta façanha criminosa é escandalizada pelas noticias que saem em todos os jornais que circulavam na época. O Diário Catarinense não existia no estado de Santa Catarina.

      Para a confirmação dos fatos, durante o ano de 1989 eu fiz uma profunda pesquisa sobre o assunto e constatei nos jornais “O Santa Catarina” (com sede em Blumenau), no Jornal “A Noticias” (com sede em Joinville) e no Jornal “O ESTADO” (com sede na capital).

      Seguindo nas minhas pesquisas que se iniciaram na biblioteca da Assembléia Legislativa do Estado, eu constatei que a comunidade de Areias do Campeche vinha sofrendo ações de derrubadas de casas desde o ano de 1984.

      O Ano de 1989 pareceu-me ser o que mais marcou a minha vida em Florianópolis.

       Como presidente da Associação dos Moradores, eu passei a colocar em prática nossos projetos de consolidação no bairro. Nossa comunidade passou a ser um ponto de referencia na resistência contra as ações de despejos que vinham sendo imposta pela justiça, e também pela prefeitura da cidade.

      Nós contávamos com o apoio político de vários parlamentares de diferentes partidos e também de sindicatos de trabalhadores. Tínhamos conseguido uma projeção na cidade que atraiu outras entidades comunitárias interessadas em nos ajudar. Uma delas foi à recém fundada UFECO (União Florianópolitana de Entidades Comunitárias) que congregava mais de uma dezena de entidades associativas.

      Logo que saíram na mídia os primeiros enfrentamentos com a administração municipal, fui procurado pelos diretores da UFECO para participar de algumas reuniões onde poderíamos colocar a questão numa discussão em nível de cidade. Bem, eu não via nenhum tipo de problema nesta participação, neste caso, sem saber o que estava oculto, minha decisão provocou a ira do CAPROM.

      

   – Neste adendo, eu gostaria de esclarecer que ambas as entidades haviam sido fundadas no ano de 1987.

      Do ponto de vista político não há nenhuma diferença entre ambas por estarem no mesmo arco eleitoral e ideológico do pensamento burguês.

      Embora os fundadores do CAPROM daquela época se mantenham atuantes, com outra estrutura e, em outras ONGs, ainda assim representam a matiz ideológico majoritária do PT.  São elementos vetores da social democracia incrustados nos movimentos sociais presentes.

      Enquanto partido político, o PT governa e gerencia com maestria os contraditórios sociais dentro do marco capitalista da exploração de classe, tornando-se dessa forma, o representante maior do pensamento burguês com as mãos no capital do país.

E, por favor, não venham querer confundir a social democracia do início do século passado com a social democracia do século presente.

Continuando…

       No meu entendimento, aquela ONG tinha um projeto político eleitoral já definido que incluía o encampamento de todas as entidades comunitárias ou comissões de moradores em áreas de litígio pela posse da terra, e que, não permitia a participação de outras, senão com a sua benção.

      Considerei aquilo um absurdo, e, não estava convencido de que aquela questão se fazia por critérios “ideológicos” conforme propagava e dissimulava. Na verdade, a ONG se comportava como proprietária de um tema social delicado que envolvia a vida de centenas de famílias das periferias de Florianópolis. Enquanto buscávamos uma solução definitiva, esta agia no sentido de provocar impasses que lhes rendessem dividendos políticos e eleitorais.

      Tanto foi verdadeiro que, enquanto defendíamos nossa permanência no local que ocupávamos, os ideólogos desta se limitavam a defender uma política habitacional para a cidade como se estivessem em sintonia com os anseios da própria UFECO que combatiam. Talvez ai sim estivesse o seu calvário.

      Alguém do campo popular e democrático consegue imaginar um governo de extrema direita (ideologicamente falando), gerando uma política habitacional para famílias de baixa renda, ou desapropriando áreas urbanas para fins sociais?

      

      Se do ponto de vista eleitoral, os ideólogos da ONG pensavam assim, nós tínhamos uma posição histórica de resistência e lutávamos unicamente pela nossa permanência no local onde vivíamos. Pra mim já estava ficando mais do que visto a intenção eleitoral de ação da ONG CAPROM, principalmente após já alguns meses iniciarem uma discussão sobre mandatos populares, enfim, já estava surgindo uma definição que mostrava para o que tinham vindos.

       Essa entidade privada, desesperadamente tentava barrar a participação de outras entidades comunitárias que eventualmente quisessem se aproximar desta temática.     

        Lembro de uma reunião dentro da sede da ONG, onde eu coloquei a questão do convite e fui bruscamente desautorizado a participar em qualquer ação que envolvesse a UFECO.

      Quando escutei os comentários que faziam referentes à entidade, percebi claramente o engodo.  A estratégia de manipulação que faziam era para desmistificar a chamada concorrência ali estabelecida, e se apresentarem como a única solução plausível.

      Desde aquele dia, percebi um patrulhamento nas minhas palavras e nas minhas posições, que, mesmo estando de acordo com os seus projetos, ou fossem inovadores aos avanços sociais, seria barbaramente combatida. Eu não deveria ser o autor de idéias “revolucionárias”, isto lhes incomodava.

       Precisavam me desmistificar a qualquer custo. Cheguei a escutar um comentário irônico entre o Lázaro e a Ivone que dizia: Ali vem a UFECO… Achei aquilo um absurdo imensurável, uma ação de caráter fascista com embuste de luta social.

       Sinceramente, naqueles dias comecei a sentir um “medo” diferente, comecei a sentir no ar alguma coisa meio estranha. Não sei por que, logo após eu ter “detectado” as primeiras contrariedades no meu modo de pensar, eu passei a perceber que a Ivone Perassa me olhava de um jeito “metálico”.

       Sempre que conversávamos, seu comportamento já não era mais o mesmo, desde quando nos havíamos conhecidos durante aquela ocupação no ano de 1988 nas “Dunas do Campeche”. Ela agia de maneira politicamente repetitiva, suas propostas eram como se estivesse andando numa direção do qual não poderia desviar por nada no mundo, e não tinha mais aquela humildade aparente daqueles dias. A Ivone demonstrava atitudes mecânicas, eu diria, sempre que me avistavam, seus olhos “vidravam” com a minha presença. E, confesso, comecei a sentir aquele medo diferente, algo não estava claro diante de meus olhos.

       

      Mais a frente também havia percebido que buscavam explorar em mim algum fator, ou mesmo um comportamento que lhes pudessem servir de argumentos para este fim.

   Para deixá-la despreocupada, certo dia eu comentei para a Ivone que tinha tido problemas com o exercito, e que não estava me sentindo bem em aparecer na mídia como vinha se sucedendo.

       Após os primeiros enfrentamentos ocorridos no dia cinco de março e no mês de abril, houve uma pausa enquanto discutíamos a questão. No mês de maio aconteceu uma greve no transporte coletivo da capital e eu me fiz presente naquelas manifestações.

      Em meio ao entrevero com a Polícia Militar e os grevistas, havia também a presença de vereadores e líderes comunitários que apoiavam a greve. Eu não sabia que tinha aparecido novamente na mídia. E, não era por menos, não havia televisão na minha casa.

   Tempos depois é que fui entender que era na verdade o seu projeto eleitoral que estava sendo ameaçado. Eles trabalhavam focados neste objetivo, e nós tínhamos nos tornado uma vertente social que lhes daria esta possibilidade. No meu caso, porém, a ONG tinha a preocupação que eventualmente minhas ações pudessem ser usadas contra os seus interesses eleitorais.

       Na verdade mesmo, em meio às reuniões, numa delas a Marta Reis Gobatto havia comentado maldosamente que eu seria candidato a vereador. Nossa diretoria já vinha tendo desentendimentos com ela por conta de alguns encaminhamentos que discordava, mas que a tornava voto vencido.

       Ela havia lembrado-se que eu tivera um comentário semelhante com o ex-presidente da nossa Associação, o companheiro Shao-Lin, quando comentei que se ele fizesse um bom trabalho teria essa condição.

     Certo dia, comentei numa reunião que havia participado de um jantar no Clube dos Engenheiros de Florianópolis, onde fui apresentado para outras entidades, e ali debatemos a questão da luta pela posse da terra. O pessoal da UFECO tinha nas suas discussões o mesmo projeto de uma política habitacional semelhante ao da ONG CAPROM.

       No meu entendimento, a questão de participar ou não de outros fóruns de debates, não tinha nada a ver com ideologia, era na verdade, no sentido de buscar e de unir forças, de discutir com outros segmentos da cidade, o que a todos interessava, ou seja, uma ação de justiça social efetiva, mas que no fundo mesmo, respeitasse os objetivos de nosso coletivo de moradores.

       E, sinceramente, nós não tínhamos nenhum contrato firmado com exclusividade com aquela entidade privada de interesses particulares. Até aquele momento, eu ainda resistia em absorver o entendimento de que aquilo que estava percebendo fosse realmente uma verdade imensurável. Não conseguia entender que diante das ações sociais que tinham praticado, havia outro interesse senão este.

      Se ao menos fossem socialistas de verdade, talvez eu tivesse tido uma compreensão diferente. Eu não conseguia digerir a presença de elementos nefastos aos pobres que compunham a diretoria daquela ONG, neste caso, a presença da Elaine (aquela que fazia despejos para o Álvaro), que transitava entre as comunidades com a confiança e o aval da Ivone Perassa.

       Qual a vantagem ou dividendo político para a ONG? Nenhum, exceto no sentido negativo de terem em seus quadros um péssimo exemplo de ética, de moral, de cidadania e luta social.

        Eu aproveitei minha ida ao CAPROM durante uma tarde e relatei para a Ivone Perassa o que a Elaine e seu marido tinham cometidos ali no Sul da ilha. Na verdade, não entrava na minha cabeça aquela convivência quase forçada pelas circunstancias. Ela disse que tomaria alguma providencia sem me dizer qual seria. Enfim, pensei comigo, acho que vai ficar melhor sem a Elaine junto às comunidades.

Diferente do que imaginei, a Elaine nos acompanhou (pela 1ª vez) como representante do CAPROM numa reunião que tivemos com o prefeito Esperidião Amim.

       Sua presença era na verdade uma ação do seu fortalecimento junto à diretoria do CAPROM. A opção da Ivone já estava clara diante daquilo que eu havia levado ao seu conhecimento.

       Eu cheguei a imaginar que a Ivone tomasse providencias verdadeiras, ma isso não aconteceu, aliás, ingenuidade de minha parte. Imagine uma ONG do pensamento burguês penalizando os seus quadros?

       A ONG se esforçava em convencer-nos que a administração do prefeito Esperidião Amim teria de criar uma política habitacional para a cidade, e, que haveria de construir casas populares etc.

      Na comunidade, esse interesse ia contra a nossa vontade, que de verdade mesmo, não acreditávamos naquela administração. Víamos aquele assunto como demagogia política de efeitos psicológicos.

      Na periferia, algumas comunidades já mostravam resistência aquela idéia, e no nosso caso, o que fizemos, foi planejar o nosso afastamento na mesma velocidade que a procuramos, quando o tema já estava indo naquela direção. E, eles já estavam percebendo levando em conta nossa ausência em algumas reuniões. Ainda assim, nos convidavam freqüentemente. A Ivone dizia: Se alguém da diretoria de vocês não puder comparecer, então enviem apenas um ou dois moradores pra que possam repassar nossas posições…

       Na comunidade nós já vínhamos analisando os rumos que o movimento tomava. Não que fossemos contrários ao CAPROM. Se “ingenuamente” estávamos apoiando-os no fortalecimento de um movimento amplo, por outro lado estávamos preocupados com o sectarismo demonstrados em suas ações em prol daquele famigerado projeto habitacional que tanto defendiam.

       Pareceu-me mais a frente, tratar-se de uma visão ou opinião acadêmica eqüidistantes da nossa realidade. Era algo semelhante a uma cartilha a ser seguida e que ninguém deveria tentar modificá-la. Sinceramente, aquilo se tornara uma situação ridícula dentro de um contexto diferenciado.

       De todas as entidades ali reunidas, nós éramos uma das poucas que dispunha de uma estrutura jurídica legal (CNPJ, estatuto registrado, registro em órgãos estaduais, livros de atas, caixa, convênios, etc.)

       Com a estrutura jurídica que dispúnhamos, tínhamos condições de fazer valer nossos direitos junto a alguns órgãos do município, do estado e do governo federal, ao menos eu pensava desta forma. Precisávamos nos articular melhor e fazer valer nossos propósitos. A impressão que eu tinha era de que o CAPROM não estava preparado para lidar com uma situação “sui generis”, semelhante à de nossa entidade.

       Na verdade, não estavam nos levando a sério enquanto entidade jurídica legal e representativa do nosso coletivo, e muito menos enquanto líderes comunitários.

       Aquele grupo de pessoas, abrigados dentro de uma ONG, representavam setores progressistas da igreja católica (Teologia da Libertação), do Partido dos Trabalhadores, e estavam preparados para passar um “rolo compressor” em cima de comissões de moradores dentro daquela temática do litígio urbano pela posse da terra.

      Aquilo ali era uma ONG que nascera para trabalhar a questão de uma candidatura a vereador para o PT e fazer valer os seus ideais enquanto entidade privada.

       De resto mesmo, o oportunismo e, o despreparo diante daquele “fato novo” chamado “Areias do Campeche”, este sim eu tenho a convicção de que não estavam preparados para encampar. Mais a frente, isso os levaria a cometerem um atentado.

       Era como se nossa resistência em não absorver os seus objetivos fosse semelhante ao de tirar um pirulito das mãos de uma criança, ou, pior ainda, como se tivéssemos traído-os sem ao menos saber quem eram. Ficaram revoltados e vingativos. O ego dos seus criadores tinha sido atingido em cheio, sem que ao menos nós conhecêssemos esta realidade.   Eu diria mais ainda, é como ter traído uma companheira sem nunca a ter conhecido como tal…

        Eu posso imaginar que sem querer, ou melhor, sem ao menos ter “tramado” uma resistência forçada contra aquela ONG, eu tinha impedido que o “futuro” candidato das “cartas nas mangas” que de fato tinha uma forte atuação comunitária na sua associação (AMOCAM) e não obtivesse o controle político da nossa comunidade conforme o “projeto eleitoral” do CAPROM.

      Como pessoa, o economista e funcionário do Tribunal de Contas do Estado, Lázaro Daniel Bregue (nativo do Campeche), é um sujeito humildade, com uma inserção social e familiar no bairro, ao menos foi à impressão que tive durante as pouquíssimas vezes que conversamos de banalidades. De política mesmo, esta característica não se apresentava, ou seja, era dono do “entendimento” e pronto.  

      Após “centenas” de fatos, de anos à frente, eu fico pensando: Se aquele pessoal tivesse nos chamado em particular, ou melhor, se tivessem nos procurado e conversado de igual para igual, se tivessem nos tratado com respeito de fato, como agentes sociais daquele momento, como líderes comunitário legítimos, possivelmente tudo aconteceria diferente naquela conjuntura.

       Enquanto agentes sociais e como líderes comunitários, nós tínhamos o compromisso histórico de fazer valer os anseios da nossa comunidade, do lugar onde vivíamos com nossos filhos, com nossas famílias.

      Muito diferente de compromissos políticos “genéricos” de muitas ONGs, nós tínhamos a representatividade do nosso segmento social, e somos frutos do meio, historicamente discriminados, e empobrecidos.

       Como comentei no capitulo inicial desses escritos, eu venho de uma infância dura e sofrida, de uma vida que eu diria hoje, sem um berço familiar de fato, “sem eira e nem beira” popularmente falando.

      Aquela ONG veio com tudo para cima das comunidades com a intenção clara de fazer valer os seus propósitos. Em nenhum momento tentaram saber dos problemas individualizados das lideranças emergentes, e também, em nenhum momento deram a mínima para os seus problemas, exceto os de caráter político eleitoral que era o que lhes interessava.     

       Paralelamente a estes embates políticos que nos envolviam no campo “popular e democrático”, nós ainda estávamos convivendo com outro drama social advindo do inchaço da comunidade que aumentava dia a dia a quantidade de moradores. Se por um lado a Prefeitura pretendia “congelar” o número de moradores cadastrados, por outro, nossa entidade tentava sempre que possível manter aquela listagem atualizada.

      O CAPROM tinha uma linha semelhante ao da prefeitura, ou seja, defendia uma única lista de moradores e não importava se o número de moradores havia aumentado ou não.  Politicamente agia como uma ONG preocupada com os problemas sociais, mas por outro lado defendia a sistemática municipal de congelamento do cadastro. Ora, como poderíamos estar atendendo aquela exigência se constantemente estávamos sendo atacados pelo poder público? Volta e meia os fiscais apareciam na comunidade e derrubavam uma casa. Enquanto isso, nada de desapropriarem para fim social, a área que ocupávamos.

       Mas eu sempre pensava comigo: Congelar o número de moradores cadastrados? Como assim, fechar a entrada da cidade para os migrantes que aportavam?

        Eu chegava a achar ridícula a dubiedade na interpretação da ONG quando o assunto era cadastro de moradores…

      Bem, eu deveria estar pensando que, como já tinham alcançado uma inserção política junto a algumas comunidades, e também “respeito” em alguns setores políticos, eles poderiam mostrar as caras…

      Esta política já vinha sendo aplicada em algumas comunidades que sofriam a influencia da ONG e era parte do acordado com municipalidade.

       Eu nunca esqueci as vezes que a Ivone Perassa me dizia: Esta área (Areias do Campeche) frente para o mar a prefeitura nunca vai desapropriar. Ela vale alguns milhões e vocês vão sair daqui mais hoje, mais amanhã. Você tem de negociar outra área porque esta aqui o Amim não vai desapropriar, ali existem os projetos de condomínios fechados.

      Com esta colocação ficava evidente pra mim que o CAPROM agia conforme uma cartilha partidária ou igrejeira, e em sintonia com as forças ocultas que governavam a cidade, ou, simplesmente estava fora de nossa realidade, completamente desinformada ao nosso respeito.

      Eu tinha o compromisso pessoal do ex-deputado Sergio Grando, que se eleito prefeito (era o nosso projeto no Partido Comunista Brasileiro-PCB), iria desapropriar para fim social, a área ocupada. Tinha também o apoio do Senador Nelson Wedekin, e Inclusive do governo do Estado, de que não sofreríamos um despejo sistemático. Eu nunca tinha comentado isso com a Ivone, afinal, alguma coisa ali no CAPROM tinha uma direção política diferente da nossa.

      Eu também sentia o seu desagrado quando fiz um documento de agradecimento aos integrantes do governo do estado, aos diretores da CELESC e em especial ao senador Nelson Wedekin quando foi edificada a rede de energia elétrica na comunidade. Este documento eu coloquei num mural existente no interior da ONG. O meu objetivo era apenas enaltecer as pessoas envolvidas naquela luta histórica que marcou a nossa comunidade.

       Muitas vezes ela tentou me convencer a aceitar a permuta de nossa área por outra no bairro da Tapera/Carianos que num dado momento tinha nos sido oferecida pela administração pública. Por outro lado, assim que esta noticia ganhou a cidade, a comunidade do bairro Carianos soltou uma nota na imprensa dizendo-se contraria a nossa eventual transferência.

      Alegavam os lideres daquele bairro que a prefeitura não dava conta da demanda de esgoto, de água, de transporte etc. como pretendia atender aquele acréscimo de moradores? Na verdade eram duas áreas, uma no bairro Carianos e a outra no bairro da Tapera. E, eles tinham a total razão.

       Mas afinal de contas, quem disse que os moradores da comunidade de Areias do Campeche aceitariam esta proposta? O CAPROM batia firme nesta idéia, a prefeitura usava a proposta pra tentar nos desmoralizar no sentido de que estávamos apenas fazendo política. Nada disso era verdade.

      Primeiramente as áreas propostas estavam em locais impróprios para moradia, o do Carianos estava em cima de um mangue. O da tapera estava dentro de uma APP e também em área de mangue. Enfim, de fato o município não tinha nada a nos oferecer.

      Esta vontade de permanecer no nosso local de moradia era o que mais contava para todos nós. Às vezes em que a Ivone Perassa insistia para que negociássemos me levava a interpretar que buscava algum resultado político que apenas atenderia a vontade de sua ONG, ou seja, precisava de um resultado ali nas Areias do Campeche para ser apresentado como um troféu de vitória.

Meu D´us como estava distante da nossa realidade…

A história se repete.

      Não há sabedoria maior do que a sabedoria popular. Por conta disso, a ONG CAPROM lentamente foi absorvendo a vontade de algumas comunidades que resistiam ao seu projeto de lutarem por uma política habitacional fictícia para o município de Florianópolis.

       Houve um momento que comecei a fazer a leitura quase perfeita da ONG. Pra mim, parecia que o CAPROM estava fazendo da nossa causa um laboratório político onde experimentavam vários remédios para obtenção de efeitos e causas (sic).

     Permanecer no seu próprio local de moradia, é o desejo de qualquer comunidade que esteja num embate político, ideológico e jurídico na luta pela posse da terra.  Que outro sentido haveria?

      Depois de algumas semanas nos foi proposto que as reuniões (que ocorriam à noite na sede do CAPROM) se dariam numa sala específica que ficava no interior da catedral metropolitana da cidade. Ali se fizeram presentes várias entidades comunitárias, comissões de moradores, e alguns militantes avulsos da própria ONG.

      Eu diria avulsos, no sentido de que estes apareciam esporadicamente aos encontros. Esta participação se dava conforme os avanços nas estratégias de luta que iam acontecendo. Conforme a temática, ou os rumos do encontro, a direção da ONG os comunicava. 

      Homem inteligente de visão social imensurável, religioso e solidário de personalidade forte, na verdade, mais político do que religioso, o Padre Wilson Groh passou a dirigir e a se fazer presente em todas as reuniões ali na Catedral Metropolitana. Definitivamente estávamos sendo encampados conforme o projeto inicial da ONG que representava a Teologia da Libertação e trabalhava conjuntamente como um braço social religioso do Partido dos Trabalhadores.

      Eu posso dizer nos dias de hoje que, aquela experiência ali vivida juntamente com aquele grupo de “estranhos” politicamente falando, trouxe-me um aprendizado diferente de tudo aquilo que eu tinha vivido até aquele momento.

Eu diria que, se por um lado havia por parte “deles” um objetivo diferenciado do nosso, por outro era um exercício forçado de mudanças de estratégias que iam acontecendo conforme a conjuntura ali estabelecida.

      Por muitos momentos eu fiquei em dúvidas diante daquela situação. Se havia uma expectativa de avanços nas negociações com a prefeitura, de outro modo, eu tinha preocupações em ter de partilhar nossos problemas comunitários com aquele grupo ávido por resultados eleitorais, que no fundo mesmo, estava nos tirando à legitimidade enquanto agentes sociais de fato.

      Na verdade mesmo, “eles” estavam focados unicamente em catapultar um “mandato popular” alicerçado no nosso problema social. Este fato veio a se comprovar anos mais a frente.

      A participação de integrantes das CEB´s (Comunidades Eclesiais de Base, formadora de lideranças), e de Teólogos, deixou claro os rumos ali tomados. Por outro lado, moral e eticamente falando, aquele conjunto ali reunido era parte do dinheiro público catapultado a serviço do pensamento burguês e do capitalismo religioso também configurado. 

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Publicado por

lutatotal

URUBICI SC - Natural de Santiago do Boqueirão RS. Jornalista Freelancer - Blogueiro, Mtb-DRT 004028SC. Sem filiação Partidária

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